Pesquisadores da Unifesp estudam bactéria que causa infecções após videolaparoscopias

De 2004 a 2008, surto se espalhou por sete Estados, tornando-se um problema de saúde pública

Agência Fapesp

10 de agosto de 2010 | 18h27

SÃO PAULO - Entre 2004 e 2005, em Belém, 311 pacientes submetidos a cirurgias videolaparoscópicas (nas quais uma microcâmera é introduzida na cavidade a ser operada) foram vítimas de infecções causadas por micobactérias. O surto inusitado chamou a atenção de pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que, em parceria com colegas do Instituto Evandro Chagas, na capital paraense, decidiram trabalhar na identificação e tipagem molecular dos microrganismos.

A equipe confirmou que se tratava da Mycobacterium massiliense, uma micobactéria não-tuberculosa de crescimento rápido descrita pela primeira vez em 2004, na França.

Existem mais de 140 espécies registradas de micobactérias, incluindo as que causam a tuberculose e a hanseníase. Mas, até o início do surto na capital paraense, nunca haviam sido registradas infecções causadas por esse tipo de microrganismo após procedimentos cirúrgicos.

Intrigados com o aparecimento repentino das infecções, que começaram a se espalhar rapidamente pelo Brasil, os pesquisadores aprofundaram os estudos sobre a micobactéria. Em dezembro de 2006, teve início o projeto temático “Micobactérias de importância médica no Brasil: caracterização molecular, interação com o meio ambiente e com macrófagos”, apoiado pela Fapesp.

Em 2008, mais de 2 mil pacientes de cirurgias videolaparoscópicas já haviam sido vítimas de infecção em diversos Estados. De acordo com a coordenadora do trabalho, Sylvia Luisa Leão, professora do Departamento de Microbiologia, Imunobiologia e Parasitologia da Unifesp, os primeiros estudos suscitaram uma série de questões biológicas que motivaram uma pesquisa mais ampla.

“Além de fazer a caracterização molecular, optamos por investigar se havia características específicas que pudessem estar associadas à ocorrência do surto. Queríamos saber, por exemplo, se a bactéria era resistente à desinfecção, se tendia a se multiplicar mais em tecidos do que outras espécies, ou se era capaz de formar biofilmes e, com isso, aderir mais fortemente aos equipamentos”, disse ela à Agência Fapesp.

Segundo Sylvia, o surto havia sido causado por uma única cepa da micobactéria. Era necessário saber que elementos genéticos traziam vantagens à espécie, possibilitando sua seleção.

“Essas bactérias estão amplamente disseminadas no ambiente. Por que esse tipo em particular havia sido selecionado? Essa era uma das várias questões biológicas obscuras em relação ao surto”, afirmou.

Durante o período em que foi desenvolvido o projeto, o surto se espalhou por pelo menos sete Estados brasileiros, tornando-se um grande problema de saúde pública. Segundo Sylvia, a questão mobilizou não apenas pesquisadores de várias instituições, mas também ministérios, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e agências de vigilância epidemiológica estaduais.

“O projeto foi ampliado e possibilitou um grande avanço do conhecimento sobre essa micobactéria, já que estudamos um grande número de cepas isoladas em diferentes locais. Identificamos que a mesma cepa estava causando infecções no Pará, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul, em São Paulo e Goiás”, disse.

Encerrado em abril, o projeto permitiu estabelecer uma técnica de tipagem molecular capaz de separar a cepa causadora das infecções de outras presentes na natureza. Os estudos também permitiram confirmar que, de fato, a micobactéria é resistente a vários desinfetantes.

“Conseguimos também fazer uma colaboração internacional, que permitiu reclassificar a micobactéria do ponto de vista taxonômico, e realizamos, ainda, um estudo de infecção em macrófagos de camundongos para conhecer a cinética dessa infecção. Uma pergunta, no entanto, ainda não foi totalmente respondida: 'Por que essa bactéria foi selecionada em uma região geográfica tão grande?'”, perguntou Sylvia.

Diagnóstico rápido

Desde 2008, segundo a pesquisadora, o número de casos diminuiu visivelmente, mas ainda não cessou por completo. “Não sabemos se é cedo para concluir que o surto terminou, mas certamente a diminuição no número de casos ocorreu porque várias medidas foram tomadas. A Anvisa e as secretarias locais de vigilância sanitária passaram, a partir do estudo, a orientar a comunidade para que houvesse um cuidado maior na desinfecção dos equipamentos”, disse.

O assunto tem sido discutido em reuniões periódicas convocadas pela Anvisa. A agência emitiu uma série de notas técnicas e regulamentações que orientam a comunidade médica a identificar as infecções e a tratar os pacientes, além de exigir a notificação das ocorrências. O número de casos - mais de 2 mil infecções registradas entre 2004 e 2008 - pode ter sido subestimado, segundo Sylvia, justamente porque no início a notificação não era compulsória.

“Quando o surto começou, os médicos não tinham ideia de que esse tipo de complicação pudesse ocorrer. Era algo muito raro, tanto no Brasil como no exterior. Atualmente, os cirurgiões estão cientes do problema. Os dados levantados nas pesquisas foram amplamente divulgados em reuniões das sociedades de cirurgia, nos boletins médicos e em uma série de publicações científicas relacionadas ao projeto, com impacto muito grande”, disse.

De acordo com a cientista, a infecção causada pela micobactéria não é letal, mas é de difícil tratamento, porque a espécie é resistente à maior parte dos antimicrobianos disponíveis. O tratamento dura de 6 meses a 1 ano, dependendo da intensidade da infecção, e eventualmente o paciente precisa ser submetido a uma nova cirurgia para extrair o tecido contaminado.

“A vantagem da cirurgia videolaparoscópica é que, com a introdução da câmera na cavidade a ser operada, o cirurgião faz a intervenção visualizando-a em uma tela com imagem muito ampliada. Isso facilita o trabalho e diminui o tempo de internação. Mas é algo altamente indesejável que uma cirurgia minimamente invasiva como essa cause um problema de saúde que dure um ano inteiro e possa resultar em outra cirurgia”, destacou Sylvia.

O grupo coordenado por ela tem o objetivo de lançar um novo projeto para aprofundar os estudos, a fim de entender as características especiais da micobactéria e desenvolver métodos de diagnóstico rápido.

“Se o problema se tornar endêmico no Brasil, precisaremos conseguir métodos rápidos e eficientes de identificação dessa bactéria. Hoje, para reconhecer essa cepa, é preciso fazer um teste de alto custo, que não é acessível a todos os laboratórios”, disse.

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