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Coronavírus tem casos registrados em diversos países STR/AFP

Pesquisadores da USP produzem coronavírus em laboratório

Vírus foi cultivado por cientistas a partir de amostras dos dois primeiros pacientes brasileiros diagnosticados com a doença no Hospital Albert Einstein

Elton Alisson, Agência Fapesp

06 de março de 2020 | 12h51

SÃO PAULO - Pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) conseguiram isolar e cultivar em laboratório o coronavírus SARS-CoV-2, obtido dos dois primeiros pacientes brasileiros diagnosticados com a doença no Hospital Israelita Albert Einstein.

Os vírus serão distribuídos para grupos de pesquisa e laboratórios clínicos públicos e privados em todo o país com o objetivo de ampliar a capacidade de realização de testes diagnósticos e avançar em estudos sobre como a doença é causada e se propaga.

“A disponibilização de amostras desse vírus cultivados em células permitirá aos laboratórios clínicos terem controles positivos para validar os testes de diagnóstico, de modo a assegurar que realmente funcionem”, disse, à Agência Fapesp, Edison Luiz Durigon, professor do ICB-USP e coordenador do projeto, apoiado pela Fapesp.

De acordo com o pesquisador, a falta dessas amostras do vírus para serem usadas como controles positivos era um dos fatores que limitavam o diagnóstico de coronavírus no Brasil.

Como o SARS-CoV-2 surgiu no exterior, as amostras de vírus que têm sido utilizadas como controle positivo nas técnicas de diagnóstico empregadas por laboratórios brasileiros nesse início do surto no País são importadas da Europa e dos Estados Unidos, a um custo que varia entre R$ 12 mil e R$ 14 mil.

Por isso, o diagnóstico de casos da doença no País tem sido feito principalmente por laboratórios privados e laboratórios de referência no setor público que têm recebido os casos suspeitos.

Na rede pública, quatro laboratórios de referência nacional realizam os testes atualmente: Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo; Instituto Evandro Chagas, no Pará; Fiocruz, no Rio de Janeiro; e Laboratório Central de Goiás, que foi capacitado para realização do exame específico para coronavírus dos brasileiros repatriados da China.

O primeiro teste tem sido feito pelos hospitais de referência de cada estado e o material coletado é então encaminhado para um desses quatro laboratórios para contraprova.

“Os vírus que conseguimos cultivar em laboratório poderão ser usados em um kit para diagnóstico que o Ministério da Saúde distribuirá para os Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacens) em todo o país. Com isso, todos os estados estarão aptos a realizar o diagnóstico”, disse Durigon.

Os vírus serão distribuídos para os laboratórios clínicos inativados, ou seja, sem a capacidade de infectar células, e em temperatura ambiente. Os vírus importados hoje pelos laboratórios brasileiros têm de ser transportados sob refrigeração, em gelo seco, o que encarece muito o frete, explicou o pesquisador.

Os laboratórios clínicos receberão alíquotas com mais ou menos 1 mililitro (ml) de vírus inativado. O ácido nucleico dessas amostras será então extraído e usado como controle positivo em exame baseado na técnica conhecida como RT-PCR (reação da cadeia da polimerase em tempo real, na sigla em inglês).

Essa técnica permite amplificar o genoma do vírus em uma amostra clínica, aumentando em milhões o número de cópias do RNA do coronavírus. Dessa forma, é possível detectá-lo e quantificá-lo em uma amostra clínica.

“O PCR permite fazer o diagnóstico em até quatro horas. Mas ainda são poucos os laboratórios no país que têm o equipamento disponível”, disse Durigon.

A fim de superar essa limitação, os pesquisadores também pretendem desenvolver outros testes de diagnóstico baseados em outras técnicas mais acessíveis, como análise por imunoflorescência – método que permite visualizar antígenos em uma amostra por meio de corantes fluorescentes.

“Se conseguirmos validar um teste desse tipo específico para o coronavírus seria possível que outros laboratórios e hospitais que não têm o equipamento para o exame por RT-PCR também façam diagnóstico”, avaliou Durigon.

O legado do zika

Segundo o pesquisador, o isolamento e a reprodução do coronavírus em laboratório foram possíveis por meio de recursos obtidos da Fapesp para a instalação no ICB-USP de dois laboratórios de nível de biossegurança 3, destinados à manipulação de agentes com potencial de causar doenças graves ou infecção letal. A infraestrutura foi inicialmente criada para o cultivo do vírus zika.

A construção desses laboratórios no início de 2016, no auge da epidemia do vírus zika no país, tem permitido cultivar, agora, não só o coronavírus, mas também o influenza (causador da gripe) e outros, a fim de avançar no diagnóstico de vírus emergentes, ressaltou Durigon.

“Quando houve o surto de zika, no final de 2015, fomos pegos de surpresa e conseguimos, com recursos da FAPESP, também ser os primeiros a isolá-lo e cultivá-lo em laboratório para disponibilizá-lo para os laboratórios e grupos de pesquisa”, disse.

Por meio de um projeto denominado “Genoma Vírus”, também apoiado pela FAPESP, iniciado em 2003, foi possível formar e capacitar uma rede de 18 laboratórios no Estado de São Paulo para fazer diagnóstico de vírus respiratório por RT-PCR e sequenciamento de genoma.

Com o surgimento do vírus zika, a rede foi acionada e permitiu avançar no diagnóstico e na compreensão da doença no país, afirmou Durigon.

“Por isso o financiamento contínuo à pesquisa é importante. Em razão dos investimentos feitos no passado há uma infraestrutura de pesquisa em São Paulo que permitirá responder mais rapidamente às demandas, sem sair do zero”, disse.

O grupo de pesquisadores da USP tem monitorado a circulação sazonal de quatro outros coronavírus nos país. Os resultados dos estudos indicaram que a circulação acontece principalmente no inverno.

“É provável que São Paulo e Rio Grande do Sul tenham maior número de casos de infecção no inverno porque são os estados mais frios”, afirmou Durigon.

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Bahia registra primeiro caso de coronavírus; é o nono confirmado no país

Paciente é uma mulher de 34 anos, residente na cidade de Feira de Santana, que retornou da Itália em 25 de fevereiro, com passagens por Milão e Roma. Caso é o primeiro do Nordeste

Sandy Oliveira, Julia Lindner e Fernanda Santana, especial para, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2020 | 09h06
Atualizado 06 de março de 2020 | 15h14

SÃO PAULO , BRASÍLIA E SALVADOR - A Bahia confirmou o primeiro caso de coronavírus no estado. Em nota, a secretaria estadual da Saúde informa que trata-se de uma mulher de 34 anos, residente na cidade de Feira de Santana, que retornou da Itália em 25 de fevereiro, com passagens por Milão e Roma. É o primeiro caso confirmado da doença no Nordeste. 

Em nota divulgada no final da manhã, o Ministério da Saúde confirmou esse como sendo o nono caso da doença no país. De acordo com o governo da Bahia, o primeiro atendimento e as amostras foram coletadas em um hospital particular da capital baiana, sendo enviadas para a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, que é a referência nacional do Ministério da Saúde. O resultado laboratorial confirmando o diagnóstico foi concluído hoje. 

Acompanhe a cobertura ao vivo

De acordo com o secretário da Saúde do Estado da Bahia, Fábio Vilas-Boas, "trata-se de um caso importado. A paciente contaminou-se na Europa e veio manifestar os sintomas depois de ter chegado ao Brasil. Isso é diferente de haver uma contaminação interna no estado e, portanto, todas as medidas de contenção para garantir que não houve a contaminação de outras pessoas foram e estão sendo tomadas pela vigilância estadual, municipal e Núcleo Regional de Saúde Leste", afirma o secretário. 

A paciente encontra-se em casa, na cidade de Feira de Santana, assintomática, com orientação de permanecer em isolamento, adotando as medidas de precaução de contato e respiratório. O monitoramento é realizado pelo Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde da Bahia (Cievs-BA) em conjunto com a vigilância municipal de Feira de Santana.  

Dois familiares da paciente são monitorados e não apresentam sintomas da doença. O monitoramento do caso será realizado por ligação, feita diariamente, pela vigilância municipal de Feira de Santana, o Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde da Bahia (Cievs-BA) e o Núcleo Regional de Saúde Leste. Os três serão questionados sobre se há sintomas e se houve alguma alteração no quadro de saúde, por exemplo. A paciente também receberá visitas diárias de profissionais de saúde.

Por enquanto, a secretaria de Saúde da Bahia afirma que não haverá mudança de protocolos. 

A última atualização feita na plataforma do Ministério da Saúde mostra que a Bahia tem 23 casos suspeitos da doença. Nos demais estados, o cenário de casos suspeitos é: Piauí (1), Ceará (16), Rio Grande do Norte (4), Paraíba (4), Pernambuco (8), Alagoas (6) e Sergipe (2). O Maranhão não tem casos suspeitos. Com isso, o Nordeste tem 64 casos suspeitos do novo coronavírus. 

O número de casos suspeitos da doença no país subiu de 531 para 636 de quarta para quinta-feira, no último balanço divulgado pelo Ministério da Saúde. Já foram descartadas 378 análises. Os Estados com mais casos suspeitos são: São Paulo (182), Rio Grande do Sul (104), Minas Gerais (80) e Rio de Janeiro (79).

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, esteve com o presidente Jair Bolsonaro, no Palácio do Planalto, para falar sobre a situação da doença no Brasil. Bolsonaro embarca neste sábado, 7, para os Estados Unidos, onde ficará até a próxima quarta-feira, 11.

"Sempre quando temos essas mudanças de nível, eu sempre deixo o presidente a par. Ele está no comando de todos os ministérios. E (são) as mesmas orientações que ele meu deu no início, converse com a população, transparência total nos dados, vamos transmitir calma para a população", disse o ministro após o encontro.

Mandetta contou que apresentou ao presidente preocupações “típicas” da pasta, como a alta de preço para compra de máscaras para proteção. Ele também voltou a dizer que a transmissão da doença é diferente da comunitária ou sustentada, ou seja, não é massiva. Para Mandetta, "o mundo não pode parar" por causa do coronavírus. "O que precisa é ter cautela, precaução, cuidados, mas nada que seja intransponível", defendeu.

 

Casos de coronavírus no Brasil 

O primeiro caso: homem de 61 anos

Na noite da terça-feira, 25, o Brasil confirmou o primeiro caso de coronavírus. Trata-se de um homem de 61 anos, residente em São Paulo e com histórico de viagens para a Itália, país que vive um surto da doença. Ele apresentou sinais brandos do vírus e foi orientado a permanecer em isolamento domiciliar.

O segundo caso: funcionário da XP

O segundo caso do Brasil foi confirmado no sábado, 29, e o paciente também havia retornado da Itália para a cidade de São Paulo. O infectado é um homem de 32 anos que procurou o Hospital Israelita Albert Einstein (assim como o primeiro caso) para atendimento. Ele havia viajado a Milão e apresentou tosse, dor de garganta e dor de cabeça. Seu quadro foi considerado leve e estável e o homem também foi orientado a permanecer em casa.

O homem é funcionário da XP Investimentos. Em uma medida preventiva, a XP  recomendou aos colaboradores que estiveram em algum país da chamada “zona de risco” nas últimas duas semanas que trabalhem de casa por pelo menos 14 dias.

O terceiro caso: colombiano vindo da Europa

A confirmação do terceiro caso veio nesta quarta-feira, 4. O terceiro paciente confirmado com a doença é um administrador de empresas colombiano, de 46 anos, que vive na cidade de São Paulo e que viajou ao exterior ao longo do mês de fevereiro. Ele foi à Espanha no dia 9 de fevereiro e passou pela Itália, Áustria e Alemanha antes de retornar à capital paulista, em 29 de fevereiro. Com tosse, dor de gargante e cabeça, ele procurou o Hospital Israelita Albert Einstein nesta quarta-feira, 4, onde o teste foi realizado e a confirmação ocorreu. 

O quarto caso: adolescente assintomática

O quarto caso confirmado de coronavírus no Brasil foi de uma adolescente de 13 anos que retornou de viagem da Itália para São Paulo. A confirmação ocorreu nesta quinta-feira, 5. A jovem, que esteve na Itália - país que registra elevado número de casos da doença - e voltou ao Brasil no domingo, dia 1º, foi atendida no Hospital Beneficiência Portuguesa, em São Paulo, na terça-feira, 3. As amostras coletadas foram encaminhadas ao Laboratório Fleury. O resultado do exame foi positivo. A contraprova foi realizada pelo Instituto Adolfo Lutz, que confirmou a infecção pelo vírus. 

O caso da jovem também é o primeiro com paciente que não apresentou sintomas. Clínico e infectologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Paulo Olzon explica que, no caso de doenças infecciosas, é possível que pacientes não apresentem sintomas. Ela é estudante do colégio Bandeirantes, na zona sul de São Paulo. A escola, uma das mais tradicionais da capital, enviou comunicado aos pais para tranquilizar sobre a situação. A estudante não frequentou as aulas desde que voltou de viagem da Itália. 

Quinto e sexto casos: duas transmissões locais

Quatro outros casos também tiveram confirmação nesta quinta: mais dois em São Paulo, totalizando seis no Estado, um no Rio de Janeiro e outro no Espírito Santo. Os dois novos casos de São Paulo foram os primeiros caracterizados como de transmissão local, ou seja, a infecção ocorreu em território brasileiro. 

As pessoas infectadas dentro do País têm relação com o primeiro caso confirmado, de um homem de 61 anos, e são do sexo feminino. A primeira pegou a infecção por contato com o homem durante reunião de cerca de 30 pessoas. Na sequência, ela transmitiu a doença para a outra paciente. Não há detalhes ainda sobre a evolução clínica do primeiro paciente diagnosticada no Brasil. Sabe-se que ele continua com sintomas e está em casa.

Sétimo e oitavo casos: Rio e Espírito Santo

O caso do Rio é de uma mulher brasileira de 27 anos que mora em Barra Mansa e esteve na Europa, passando por Itália e Alemanha entre 9 e 23 de fevereiro. Ela apresentou sintomas no dia 17 de fevereiro (tosse, coriza e falta de ar) e buscou atendimento médico no Brasil em 2 de março, segundo o ministério. O caso do Espírito Santo é de uma mulher de 37 anos.

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OMS teme desabastecimento de remédios e oxigênio medicinal

Entidade diz que monitora possível falta de suprimentos médicos no mundo com epidemia

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2020 | 13h34

SÃO PAULO - A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou nesta sexta-feira, 6, que monitora o potencial risco de desabastecimento de remédios e outros suprimentos médicos por causa do surto de coronavírus que atinge mais de 80 países e territórios.

Segundo balanço apresentado pela entidade na tarde desta sexta-feira, 6, já são 98.023 casos e 3.380 mortes pelo coronavírus confirmadas em todo o mundo. Nas últimas 24 horas, foram 2.736 novos registros em 47 países e territórios. 

Em entrevista coletiva de imprensa, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, destacou que a falta de remédios é uma possibilidade não só pela alta na demanda de suprimentos médicos, mas pelo fato de a China ser um dos principais produtores de insumos para essa indústria. "A China é uma grande produtora de princípios ativos e de produtos intermediários que são usados para produzir remédios em outros países. A OMS concentra-se nos remédios essenciais para atenção básica e emergências", disse ele.

Ghebreyesus afirmou que a organização está trabalhando com associações de indústrias, agências regulatórias e outros parceiros para monitorar esse risco de desabastecimento. Até agora, diz a OMS, não foi identificado nenhum risco iminente de falta de remédios, mas a entidade demonstrou preocupação com a situação de abastecimento de oxigênio medicinal.

"O acesso ao oxigênio medicinal pode ser a diferença entre a vida e a morte para alguns pacientes, mas já há escassez em alguns países, o que pode ser agravado por essa epidemia de Covid-19", declarou Ghebreyesus. Ele afirmou que a OMS tem um grupo de trabalho com fundações internacionais para aumentar o acesso ao oxigênio medicinal.

Na coletiva de imprensa, o diretor-geral destacou novamente a importância de os países priorizarem medidas de contenção do surto, mesmo com o aumento de casos. Ele defendeu que tornar a disseminação mais lenta pode salvar vidas ao dar mais tempo de preparação aos governos e sistemas de saúde. 

“Cada dia que conseguimos desacelerar a epidemia é um dia a mais que os hospitais podem se preparar, um dia a mais que os governos podem preparar seus profissionais de saúde para detectar, testar, tratar e cuidar dos pacientes, um dia que estaremos mais próximos de vacinas e tratamentos”, declarou Ghebreyesus.

O diretor-geral da OMS informou que a entidade publicará hoje um documento que reúne as áreas prioritárias de pesquisa científica para o coronavírus. O guia foi elaborado a partir de contribuições de 400 especialistas que se reuniram em fevereiro na OMS.

Questionados nesta sexta-feira sobre as taxas de mortalidade da doença, hoje em torno de 3,4%, as lideranças da OMS afirmaram que ainda não é possível saber a real letalidade da doença, tendo em vista que não se sabe o porcentual de doentes assintomáticos. 

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O que se sabe até agora sobre os casos de coronavírus no Brasil

Seis dos nove casos foram confirmados em São Paulo e dois deles ocorreram por transmissão local. Há 636 casos considerados suspeitos no País

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2020 | 07h00

SÃO PAULO - O Brasil registra até agora nove casos confirmados do novo coronavírus. Seis deles foram importados por pessoas que estiveram em países que vivem um surto da doença, como a Itália. Outros dois ocorreram por transmissão local. O Brasil monitora 636 casos considerados suspeitos. Veja o que se sabe até agora sobre todos os casos brasileiros confirmados: 

Casos de coronavírus confirmados por Estado

  • São Paulo - 6
  • Rio de Janeiro - 1
  • Espírito Santo - 1
  • Bahia - 1

Casos de coronavírus no Brasil por data

O primeiro caso: homem de 61 anos

Na noite da terça-feira, 25, o Brasil confirmou o primeiro caso de coronavírus. Trata-se de um homem de 61 anos, residente em São Paulo e com histórico de viagens para a Itália, país que vive um surto da doença. Ele apresentou sinais brandos do vírus e foi orientado a permanecer em isolamento domiciliar.

O segundo caso: funcionário da XP

O segundo caso do Brasil foi confirmado no sábado, 29, e o paciente também havia retornado da Itália para a cidade de São Paulo. O infectado é um homem de 32 anos que procurou o Hospital Israelita Albert Einstein (assim como o primeiro caso) para atendimento. Ele havia viajado a Milão e apresentou tosse, dor de garganta e dor de cabeça. Seu quadro foi considerado leve e estável e o homem também foi orientado a permanecer em casa.

O homem é funcionário da XP Investimentos. Em uma medida preventiva, a XP  recomendou aos colaboradores que estiveram em algum país da chamada “zona de risco” nas últimas duas semanas que trabalhem de casa por pelo menos 14 dias.

O terceiro caso: colombiano vindo da Europa

A confirmação do terceiro caso veio nesta quarta-feira, 4. O terceiro paciente confirmado com a doença é um administrador de empresas colombiano, de 46 anos, que vive na cidade de São Paulo e que viajou ao exterior ao longo do mês de fevereiro. Ele foi à Espanha no dia 9 de fevereiro e passou pela Itália, Áustria e Alemanha antes de retornar à capital paulista, em 29 de fevereiro. Com tosse, dor de gargante e cabeça, ele procurou o Hospital Israelita Albert Einstein nesta quarta-feira, 4, onde o teste foi realizado e a confirmação ocorreu. 

O quarto caso: adolescente assintomática

O quarto caso confirmado de coronavírus no Brasil foi de uma adolescente de 13 anos que retornou de viagem da Itália para São Paulo. A confirmação ocorreu nesta quinta-feira, 5. A jovem, que esteve na Itália - país que registra elevado número de casos da doença - e voltou ao Brasil no domingo, dia 1º, foi atendida no Hospital Beneficiência Portuguesa, em São Paulo, na terça-feira, 3. As amostras coletadas foram encaminhadas ao Laboratório Fleury. O resultado do exame foi positivo. A contraprova foi realizada pelo Instituto Adolfo Lutz, que confirmou a infecção pelo vírus. 

O caso da jovem também é o primeiro com paciente que não apresentou sintomas. Clínico e infectologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Paulo Olzon explica que, no caso de doenças infecciosas, é possível que pacientes não apresentem sintomas. Ela é estudante do colégio Bandeirantes, na zona sul de São Paulo. A escola, uma das mais tradicionais da capital, enviou comunicado aos pais para tranquilizar sobre a situação. A estudante não frequentou as aulas desde que voltou de viagem da Itália. 

Quinto e sexto casos: duas transmissões locais

Quatro outros casos também tiveram confirmação nesta quinta: mais dois em São Paulo, totalizando seis no Estado, um no Rio de Janeiro e outro no Espírito Santo. Os dois novos casos de São Paulo foram os primeiros caracterizados como de transmissão local, ou seja, a infecção ocorreu em território brasileiro. 

As pessoas infectadas dentro do País têm relação com o primeiro caso confirmado, de um homem de 61 anos, e são do sexo feminino. A primeira pegou a infecção por contato com o homem durante reunião de cerca de 30 pessoas. Na sequência, ela transmitiu a doença para a outra paciente. Não há detalhes ainda sobre a evolução clínica do primeiro paciente diagnosticada no Brasil. Sabe-se que ele continua com sintomas e está em casa.

Sétimo e oitavo casos: Rio e Espírito Santo

O caso do Rio é de uma mulher brasileira de 27 anos que mora em Barra Mansa e esteve na Europa, passando por Itália e Alemanha entre 9 e 23 de fevereiro. Ela apresentou sintomas no dia 17 de fevereiro (tosse, coriza e falta de ar) e buscou atendimento médico no Brasil em 2 de março, segundo o ministério. O caso do Espírito Santo é de uma mulher de 37 anos.

Primeiro caso no Nordeste 

 

O caso da Bahia é de uma mulher de 34 anos, que mora na cidade de Feira de Santana, que retornou da Itália em 25 de fevereiro, com passagens por Milão e Roma. O primeiro atendimento e as amostras foram coletadas em um hospital particular. A paciente encontra-se em casa, na cidade de Feira de Santana, assintomática, com orientação de permanecer em isolamento, adotando as medidas de precaução de contato e respiratório. 

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Coronavírus já tem transmissão local em 38 países

Já foram registrados cerca de 95 mil casos e 3,3 mil mortes pela doença; surto se concentra em China, Coreia do Sul, Itália e Irã

Fabiana Cambricoli e Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2020 | 05h00

Pelo menos 86 países e territórios já confirmaram ao menos um caso de coronavírus. Contando o Brasil, 38 já registram transmissão local, segundo boletim da Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgado na noite desta quinta-feira, 5. 

As demais nações com casos da doença, mas sem transmissão local, registraram apenas infecções importadas ou têm casos cuja origem ainda está em investigação.

O Brasil tem oito casos confirmados do novo coronavírus e já há transmissão local da doença, segundo balanço divulgado nesta quinta-feira, 5, pelo Ministério da Saúde. São seis em São Paulo, 1 no Rio de Janeiro e outro no Espírito Santo.

Uma mulher tem teste positivo no Distrito Federal e aguarda contraprova; a idade dela foi divulgada de formas divergentes ao longo da coletiva de imprensa da pasta e acabou sendo confirmada em 53 anos. O caso diagnosticado no Espírito Santo é de uma mulher de 37 anos que esteve na Itália.

É considerada transmissão local quando a infecção ocorre no mesmo local de notificação, como foi o caso das duas brasileiras que foram contaminadas em território nacional, após contato com outro caso confirmado da doença.

A declaração de transmissão local acende um alerta porque indica que o vírus já circulou entre cidadãos daquele país. Nessa condição, no entanto, ainda é possível saber a origem da contaminação dos doentes. O cenário mais preocupante é o de transmissão comunitária, na qual o número de casos é tão alto que torna-se impossível estabelecer as cadeias de transmissão de cada indivíduo.

De acordo com a OMS, já são 95.333 casos confirmados e 3.282 óbitos pela doença no mundo, a maioria na China.

Apesar do alto número de países com ao menos um caso confirmado, o surto se concentra principalmente em quatro nações: China, Coreia do Sul, Itália e Irã. Juntos, eles reúnem quase 97% de todos os registros mundiais.

A taxa de letalidade da doença está em cerca de 3,4% e os países mais afetados têm índice semelhante, com uma exceção: a Coreia do Sul. No país asiático, que tem o segundo maior número de casos no mundo, a mortalidade registrada até agora é de apenas 0,6%.

Resposta

Em coletiva de imprensa realizada ontem, lideranças da OMS pediram aos países que “não desistam” de conter o vírus mesmo diante de uma cada vez mais evidente expansão global. “Essa epidemia é uma ameaça para todos os países, ricos e pobres. A solução é a preparação agressiva”, disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS.

“Estamos preocupados que alguns países não tenham levado isso a sério o suficiente ou tenham decidido que não podem fazer nada. Estamos preocupados que em alguns países o nível de comprometimento político e as ações que demonstram esse comprometimento não correspondam ao nível da ameaça que todos enfrentamos”, acrescentou.

Ghebreyesus falou que “não é hora de desistir” e que é preciso um comprometimento de políticas sustentáveis para conter o coronavírus, algo que a entidade acredita ser possível mediante uma ação “coletiva, coordenada e abrangente”.

A variedade de sintomas e mesmo a ausência deles é um fator que vem sendo investigado. A possibilidade de uma pessoa infectada pelo vírus, mas sem sintomas, transmiti-lo existe, mas a OMS não acredita que essa seja a principal forma de transmissão, senão teríamos um número maior de casos.

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Brasil deveria adotar mesmas medidas de EUA e Europa?

Especialistas dizem que países como Itália e Estados Unidos estão em outro estágio do surto, pois já existe transmissão local da doença 

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2020 | 10h00

RIO - Medidas drásticas de contenção da expansão do novo coronavírus adotadas na Europa e nos Estados Unidos têm feito brasileiros questionarem as práticas adotadas no País, em um tom mais moderado. Especialistas ouvidos pelo Estado, porém, consideram corretos os procedimentos do País que, explicam, está numa fase muito inicial da doença, diferente do que ocorre no exterior.

No Brasil, há três casos confirmados vindos da Itália (e outro com teste positivo, mas ainda com contraprova pendente). Ainda não foi registrada infecção dentro do território brasileiro. Enquanto isso, Europa e EUA já enfrentam um segundo momento da epidemia. Nele, há transmissão local da infecção. Por isso, dizem os médicos, as medidas adotadas por cada país são diferentes e respondem a fases distintas do avanço do vírus.

Um caso que se destaca pelo rigor das medidas é o da Itália. Lá, onde já são mais de 2 mil casos confirmados e 52 mortes, grandes aglomerações de pessoas são evitadas. Também foram isoladas pequenas cidades, na tentativa de evitar disseminação maior do vírus. Os Estados Unidos, com mais de cem casos e nove mortes, restringiram voos diretos da China, epicentro da epidemia.

No Brasil, por enquanto, os passageiros procedentes dos países que já apresentam transmissão local do vírus (são 31 até esta quinta-feira, 3) são monitorados se apresentarem febre e sintomas respiratórios. O País tem 531 casos suspeitos e que estão sendo testados para o novo vírus. Nos casos confirmados, pessoas que mantiveram contato próximo com os doentes estão sob monitoramento. Para especialistas, essas medidas são suficientes para o atual estágio da doença por aqui.

A seguir, alguns pontos que têm originado questionamentos no Brasil e o que dizem deles os especialistas em saúde.

Quarentena 

A medida adotada inicialmente pela China, que isolou cidades inteiras e milhares de pessoas, é muito questionada por especialistas. Segundo eles, em regimes democráticos é praticamente impossível isolar uma quantidade muito grande de pessoas. Além disso, há poucos estudos que embasem a eficácia da medida. Sobretudo no caso de um vírus que pode ser transmitido mesmo quando a pessoa não apresenta sintomas.

“Na Itália houve o cancelamento de jogos de futebol e até o isolamento de pequenas cidades, mas ninguém ousou fazer isso numa cidade grande”, afirmou o epidemiologista Roberto Medronho, da Universidade Federal do Rio (UFRJ). “Não há recomendação formal ou oficial das autoridades sanitárias mundiais para a quarentena.”

Para o epidemiologista Expedito Luna, da Universidade de São Paulo (USP), a quarentena já se revelou ineficaz. “Houve pânico excessivo que prejudica o mundo inteiro; talvez essas medidas tenham ajudado a frear um pouco a disseminação, mas esse momento já passou, a barreira sanitária já foi furada. O momento é de mudar de tática.”

Cancelamento de voos

O Brasil está monitorando passageiros procedentes de países onde já há a transmissão do novo coronavírus. Pessoas que apresentarem febre e sintomas respiratórios são classificadas como casos suspeitos e são submetidas a testes. Os EUA suspenderam voos diretos da China. Mas os dois países mantêm tráfego muito intenso de pessoas, o que não ocorre com o Brasil.

“As pessoas procedentes da Itália que desembarcam nos EUA não estão sendo postas em quarentena, não tem como fazer uma coisa dessas”, diz o infectologista Estevão Portela, da Fiocruz. “O que o Brasil está fazendo é retardar a entrada do vírus – porque não há como impedir – e conter a transmissão ativa aqui dentro.”

Testagem em massa

Pessoas próximas aos pacientes diagnosticados com o coronavírus em São Paulo são acompanhadas por autoridades de saúde. “Fora isso, não há recomendação para testar todas as pessoas. A testagem é feita apenas em pessoas que apresentem sintomas; essa é a norma pactuada internacionalmente”, diz Medronho.

Diferentemente de aeroportos na Europa, o Brasil optou por não usar scanners térmicos para monitorar as temperaturas dos passageiros. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa),esses equipamentos têm pouca efetividade para identificar casos suspeitos, uma vez que a pessoa pode não apresentar sintomas. 

Grandes aglomerações

A Itália está evitando eventos públicos com grande aglomeração de pessoas, como jogos de futebol, e também determinou fechamento temporário de escolas e universidades. Para especialistas brasileiros, são medidas para conter a velocidade da transmissão local do vírus que já ocorre nesses países. No Brasil, porém, isso ainda não foi registrado.

Uso de máscara

Especialistas são unânimes: a máscara só é indicada para doentes com sintomas não propagarem o vírus. Não impede a contaminação de pessoas saudáveis. A França chegou a confiscar máscaras. O objetivo era que não faltassem para quem realmente precisa delas: os doentes.A Organização Mundial da Saúde chegou a alertar sobre a redução dos estoques destes produtos na quarta-feira, 4. 

Epidemia de informação

A velocidade e a quantidade de informação inédita em circulação potencializa o medo. A situação se agrava, sobretudo, com as mentiras produzidas pela chamada ‘fake science’. São narrativas incorretas e alarmistas, falsamente atribuídas a supostos especialistas. A ação tenta emprestar credibilidade a boatos sem base científica, mas criam medo.

“Em nosso novo ecossistema midiático, a velocidade da informação é cada vez maior, assim como a desqualificação da informação científica”, afirma Igor Sacramento, do Laboratório de Comunicação e Saúde da Fiocruz. “Há desconfiança generalizada das instituições e muitos boatos, notícias falsas e teorias da conspiração circulando nas redes sociais.” A OMS já mencionou o problema da infodemia e disse trabalhar com as empresas de redes sociais para combater notícias falsas. 

Pânico

Especialistas dizem que é normal certa dose de pânico toda vez que um vírus novo - desconhecido e para o qual ninguém tem imunidade - aparece. Todos os dados reunidos até agora sobre o novo vírus, porém, mostram que a letalidade é relativamente baixa. Atinge 2,3% dos casos.

“Não há motivo para pânico: O novo coronavírus se parece muito com o vírus da gripe, com gravidade eventualmente maior em pessoas que já têm outras doenças” diz o infectologista Estevão Portela, do Instituto Nacional de Infectologia da Fiocruz. “Mas o que fica no imaginário das pessoas é o fato de ser uma coisa nova, sobre a qual não temos muito conhecimento.”

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