Pesquisadores descobrem como hormônio ativa células imunológicas

Segundo professor da USP, melatonina já é utilizada clinicamente para tratar distúrbios do sono

Agência Fapesp

23 Setembro 2010 | 19h41

SAO PAULO - Um estudo realizado por pesquisadores brasileiros desvendou o meio bioquímico pelo qual a melatonina (hormônio produzido pela glândula pineal e em células do sistema imunológico) modula a morte induzida por ativação de determinadas células T (glóbulos brancos especializados em matar células contaminadas por microrganismos intracelulares, inacessíveis aos anticorpos circulantes).

A pesquisa teve participação de cientistas do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) e da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Universidade de São Paulo; do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Vacinas e do Instituto Nacional de Câncer. Os resultados foram publicados no Journal of Immunology em artigo que ganhou comentário na mesma edição.

Autor principal do artigo, Gustavo Amarante-Mendes, professor do Departamento de Imunologia do ICB, explica que a melatonina já é utilizada clinicamente para tratar distúrbios do sono, por exemplo. Mas, até agora, nada foi explorado em relação ao sistema imunológico. “Nosso foco foi avaliar se a melatonina teria um papel na regulação da resposta imune. Essa foi a questão científica que uniu os grupos em torno desse trabalho”, disse.

O laboratório coordenado por Amarante-Mendes é voltado para o estudo da sinalização e da morte celular em caso de câncer e no sistema imunológico. “Uma de nossas linhas de pesquisa consiste em estudar a regulação dos receptores de morte celular, a expressão dos receptores e a sinalização efetuada quando os ligantes engajam esses receptores”, afirmou.

Os pesquisadores publicaram dois trabalhos anteriores na mesma linha de investigação. Um deles, divulgado em 2008 na revista Cell Death and Differentiation, mostrou a regulação da expressão do receptor CD95L (cuja ativação leva à morte celular) pelo hormônio prostaglandina E2. “No segundo artigo, demonstramos o mesmo tipo de regulação por outra molécula, a melatonina”, contou.

A melatonina, segundo o autor, é um hormônio inicialmente descrito como produzido na glândula pineal, mas cada vez mais se consolida o conceito de que ela também é gerada em outros pontos do organismo. “Aparentemente, em situações inflamatórias, a produção de melatonina no próprio local da inflamação é até maior do que a produção pineal. Assim, nos interessamos em estudar até que ponto esse hormônio tem o efeito de modular a relação entre o sistema imune e a inflamação”, destacou.

Segundo Amarante-Mendes, o interesse por essa questão científica levou seu grupo do ICB a trabalhar em colaboração com a equipe liderada por Ana Campa, da FCF, que foi coautora do artigo e tem grande experiência em trabalhos sobre melatonina.

“Nossa questão mais geral consistia em saber se, nas situações em que há inflamação ou infecção, existia a produção de alguma via de sinalização extra que controlasse a existência de células T-Helper”, disse o pesquisador. As células T-Helper, também conhecidas como linfócitos CD4+, são os intermediários da resposta imune que proliferam após contato com o antígeno para ativar outros tipos de células com ação mais direta.

Expansão imunológica

O grupo demonstrou, no primeiro artigo, que em resposta a padrões moleculares presentes em patógenos, as células apresentadoras de antígeno liberam a prostaglandina E2. “O hormônio atua nas células T-Helper, que são estimuladas pelas células apresentadoras de antígeno de tal maneira que essas células T não acionam os receptores CD95L”, explicou Amarante-Mendes.

A interpretação desses resultados, segundo ele, tem duas possibilidades. Uma é que os receptores CD95L, quando aumentados pelo estímulo antigênico, podem levar ao fenômeno conhecido como morte celular induzida por ativação - o que regula a sobrevivência da célula T.

“Por outro lado, os receptores CD95L poderiam também estimular a morte da célula apresentadora, o que contribuiria para a expansão da ligação clonal. Nos dois casos, o CD95L é uma molécula que estaria controlando a expansão e, portanto, a resposta imune mediada pelas células T-Helper”, afirmou.

No primeiro trabalho, de acordo com Amarante-Mendes, o grupo descreveu uma via de reconhecimento de infecções, gerando um mediador lipídico para a célula apresentadora. “No segundo caso, mostramos que a melatonina produzida em resposta inflamatória, com a presença ou não de infecção, também previne o aumento da expressão do receptor CD95L. Nesse caso em particular, descrevemos completamente a via bioquímica, mostrando que a melatonina interage com o NFAT, um fator de transcrição que é fundamental para a expressão do CD95L”, explicou.

Na presença de melatonina, não há ativação do NFAT; portanto, a transcrição do receptor CD95L não aparece, o que regula a sobrevivência da possível expansão da resposta imunológica. “Nosso objetivo agora, tanto no caso da prostaglandina como no da melatonina, é contextualizar esses processos biologicamente em algum sistema de infecção com camundongos, por exemplo. Estamos procurando passar da pesquisa básica sobre sinalização para a contextualização de alguma doença”, afirmou o autor do artigo.

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