Steve Parsons/Pool via REUTERS
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Pesquisadores identificam fatores genéticos associados à gravidade da infecção por covid-19

Descoberta aponta para 13 zonas do genoma humano que estariam associadas ao desenvolvimento grave e à infecção pelo novo coronavírus

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2021 | 19h25

Uma equipe global de cientistas identificou 13 zonas do genoma humano que podem estar associadas ao risco de infecção pelo SARS-CoV-2 e à gravidade do coronavírus em certos pacientes, segundo estudo publicado nesta quinta-feira, 8, na revista Nature. Alguns desses genes já têm relações conhecidas com o câncer de pulmão e outras doenças autoimunes, além de poderem influenciar na resposta do organismo humano à infecção pela covid. 

Cerca de 3.300 pesquisadores participaram do projeto Covid-19 Host Genetics Initiative (Covid-HGI), uma rede global que reúne dados de 61 estudos espalhados por 25 países, para analisar mais de 50 mil pacientes e outros 2 milhões de não infectados para controle.

O objetivo da pesquisa foi determinar por que algumas pessoas infectadas com covid evoluem para quadros graves enquanto outras têm apenas sintomas leves. Os resultados apresentados agora apontam para a influência da genética no desenvolvimento da doença. 

Os pesquisadores já sabiam que alguns fatores de risco, como idade, estado de saúde e condições socioeconômicas, poderiam influenciar na gravidade da covid, mas sozinhos eles não explicam a variação na gravidade desta doença. 

Sobre esta premissa, o pesquisador Andrea Ganna, do Instituto de Medicina Molecular da Finlândia, lançou em março de 2020 um tweet que questionava "o papel do genoma humano e seu impacto sobre a gravidade e suscetibilidade da covid", sem "grandes esperanças" da resposta que receberia da comunidade científica, reconhece. 

Pouco mais de um ano depois, "o esforço colaborativo tem sido incrível", destaca o diretor da Covid-HGI em uma coletiva virtual de imprensa. Entre os que responderem à chamada de Ganna, estava o espanhol Israel Fernandéz Cadenas, do Instituto de Pesquisa do Hospital de la Santa Creu e Sant Pau-IIB Sant Pau, em Barcelona.

Cientistas, biobancos, hospitais e empresas privadas trabalharam em conjunto "compartilhando dados e conhecimento de forma absolutamente transparente", o que "nos permitiu obter rapidamente um retrato da genética dos hospedeiros da covid-19", explica Fernández em um comunicado.

"Esta iniciativa e esforço conjunto vai facilitar e impulsionar muitos outros projetos de investigação relacionados a diferentes patologias ou doenças infecciosas, enquanto também contribui para entender melhor os pacientes da covid-19 com sintomas persistentes ou identificar alvos específicos de tratamentos."

Este acesso a uma grande quantidade de dados em todo o mundo, até aqui sem precedentes, tem permitido que os pesquisadores criem análises estatísticas de peso muito mais rapidamente e a partir de uma população mais diversa, algo impossível para qualquer grupo separado. 

Assim, eles constataram que dos 13 localizadores no genoma, identificados pela equipe do Covid-HGI, dois teriam frequências mais altas entre os pacientes da Ásia oriental e do sul da Ásia do que entre os de descendência europeia, o que frisou ainda mais a importância da diversidade nos conjuntos de dados genéticos. 

Especificamente, eles encontraram um dos dois localizadores do gene FOXP4, que está relacionado ao câncer de pulmão e cuja variante genética se encontra com "muito mais frequência" em populações asiáticas e espânicas/latinas, aponta Ganna. 

Associada à covid-19, a variante FOXP4 agravou a expressão do gene, sugerindo que uma possível estratégia terapêutica poderia coibi-lo. Outros localizadores associados à forma grave da covid-19 incluem o DPP9, um gene também associado ao câncer de pulmão e à fibrose pulmonar; e o TYK2, que está relacionado a algumas doenças autoimunes. 

Graças a esse longo estudo, os pesquisadores também identificaram fatores de risco causais como o tabagismo e o alto índice de massa corporal. Entretanto a grande novidade, indica Ganna, é que "a genética, claramente, desempenha um papel significativo na evolução da covid".

"É um fator agravante, muito útil para detectarmos riscos como pode ser a diabetes de tipo 2. Ao combinar todos os fatores disponíveis, podemos melhorar as previsões sobre suscetibilidade e gravidade da covid", acrescenta.  

As vacinas também conferem proteção contra a infecção e a doença, mas isso abre uma margem substancial para melhorar os tratamento, ressalta Ben Neale, coautor do estudo e codiretor do Programa de Genética Médica e de Populações no Instituto Broad.  

Contar com opções de tratamento, ele argumenta, poderia ajudar a converter a pandemia em uma doença endêmica, mais localizada e presente em uma menor escala entre a população, como já acontece com a gripe. 

"Isso nos permitirá gerenciar melhor os recursos sanitários para controlar a doença. Ter opções para tratar a infecção e poder tirar um paciente do hospital mudaria radicalmente a nossa resposta e gestão da saúde pública", conclui Neale./EFE

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