Scott C.Soderberg/Universidade de Michigan
Scott C.Soderberg/Universidade de Michigan

‘Pessoas estão confusas por mensagens contraditórias sobre coronavírus’

Especialista afirma que medidas drásticas são importantes para proteger os mais velhos, os mais vulneráveis e resguardar o sistema de saúde

Entrevista com

Sandro Cinti, professor da Universidade de Michigan

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2020 | 12h00

RIO - Professor da Universidade de Michigan e envolvido nos planos de emergência dos Estados Unidos contra infecções emergentes, o infectologista Sandro Cinti avalia que muitos estão em pânico com o novo coronavírus por receberem mensagens contraditórias sobre o problema.

“Estamos tendo muito pânico porque, por um lado, estamos dizendo às pessoas que elas não devem se preocupar, que a situação não é muito grave. Mas, por outro lado, estamos anunciando medidas mais drásticas, como o isolamento de cidades, o cancelamento de eventos esportivos, o fechamento de escolas. As pessoas estão confusas diante dessas duas mensagens aparentemente contraditórias”, disse ele ao Estado, em entrevista por telefone.

Cinti frisa que a grande maioria dos infectados, mais de 80%, não vai apresentar nada mais grave. Mas que as medidas drásticas são importantes para proteger os mais velhos e os mais vulneráveis e resguardar o sistema de saúde.

A seguir, os principais trechos da conversa de Cinti com o Estado.

Depois de China e Itália, muitos outros países estão anunciando medidas drásticas contra o novo coronavírus, mesmo aqueles que não têm um número tão alto de casos. Com isso, está havendo muito pânico na população. Está havendo um exagero?

Não. Estamos tendo muito pânico porque, por um lado, estamos dizendo às pessoas que elas não devem se preocupar, que a situação não é muito grave. Mas, por outro lado, estamos anunciando medidas mais drásticas, como o isolamento de cidades, o cancelamento de eventos esportivos, o fechamento de escolas. As pessoas estão confusas diante dessas duas mensagens aparentemente contraditórias.

Mas elas não são contraditórias? Estamos fazendo o que é certo?

Sim, são medidas necessárias. Isso se chama mitigação comunitária. Essa doença, para a maioria das pessoas, não será um problema. Mas para as pessoas mais velhas, e para aquelas com outras condições de saúde, um percentual de, mais ou menos, 20% da população, ela pode ser muito grave. Então, o que estamos fazendo é tentar proteger os mais velhos e mais vulneráveis, criando uma barreira. Para proteger essas pessoas, temos que ter certeza de que as outras também não vão pegar a doença.

Um dos temores em vários países, inclusive no Brasil, é o de sobrecarregar o sistema de saúde. Na Itália, por exemplo, estão faltando respiradores. Como evitar isso?

A mitigação comunitária tem por objetivo também diminuir o impacto nos hospitais. Se reduzirmos o número de internações, teremos menos problemas como falta de leitos e de respiradores. É por isso que as medidas drásticas fazem sentido, para impedir essa sobrecarga ao sistema de saúde. A China fez isso em larga escala e parece ter conseguido reduzir a dispersão do vírus. A Itália isolou 60 milhões de pessoas. É algo drástico, mas, provavelmente, vai salvar muitas vidas.

Então faz sentido que o Brasil, ainda que com poucos casos, adote essas medidas de isolamento? Muitas empresas já estão pedindo a seus funcionários que trabalhem de casa.

Sim, faz sentido. Até porque, de forma geral, a probabilidade é de termos muito mais casos circulando do que os registrados oficialmente. Se testássemos todo mundo, certamente teríamos muito mais casos. E nem temos testes de diagnóstico em número suficiente para fazer isso. Se os planos de mitigação funcionarem, vamos sair disso com muito menos mortes. Mas é claro que, lá na frente, se nada de mais grave tiver acontecido, vão dizer que exageramos. É que quando as medidas funcionam, ninguém percebe. As pessoas só percebem quando falhamos. Então, basicamente, vamos sempre estar errados.

É possível comparar essa pandemia à da gripe espanhola de 1918?

É difícil comparar à gripe de 18 quando havia muito pouco a se fazer pelos doentes, do ponto de vista médico, quando as pessoas tinham que ir para o trabalho todos os dias, não podiam ficar trabalhando em casa. Mas temos estudos aqui na universidade que mostram que, em 18, as cidades que se saíram melhor da infecção foram aquelas que instituíram as medidas de mitigação. As que preferiram garantir as ‘liberdades individuais’ foram piores.

Podemos dizer que é a pior epidemia que vivenciamos desde pelo menos a da Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars), em 2003?

A letalidade da Sars era muito mais alta (cerca de 10% dos casos), mas ela ficou muito mais limitada. De certa maneira, podemos dizer que essa pandemia é mais grave. O vírus é menos virulento (a letalidade média é de 3,4%), mas teremos um número de mortes muito mais alto porque ele se dissemina muito mais facilmente. Então, sim, é pior do que a Sars em muitos sentidos.

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