Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Pessoas já fazem planos para quando tudo voltar à normalidade após a quarentena

Projetos artísticos, profissionais, pessoais ou familiares têm pausa para reflexão; mas muitos já pensam o que fazer no pós-pandemia

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2020 | 05h01

Quando acabar o período de isolamento social e a pandemia de coronavírus der sinais de desaceleração, o artista plástico Bruno Freitas pretende reabrir seu ateliê na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, com a exposição Quarentena.

São 40 retratos produzidos ao longo do período de confinamento pelo artista de 34 anos que já expôs na Irlanda e venceu dois prêmios da Associação Paulista de Belas Artes. As obras estão sendo criadas a partir de fotos enviadas por conhecidos e anônimos pelas redes sociais. A intenção de Bfrema – nome artístico – é conectar pessoas de alguma forma nesse momento de isolamento social e, quando tudo passar, propor reflexão.

O principal projeto da jornalista Cris Parziale quando a vida voltar ao normal é celebrar o aniversário do filho, Marco, que fez 10 anos em 12 de março. Não teve festa. Por enquanto, ele está aceitando bem o adiamento. Virou o jogo e a quarentena agora é motivação. “Quando acabar tudo isso, eu vou ter uma festa”, diz o aluno do 5.º ano do Colégio Candelária, em Indaiatuba, interior de São Paulo.

Ele até “abriu mão” do presente. Os avós maternos deram R$ 500 para comprar o que quisesse. Com lojas fechadas e o aumento do consumo de refeições entregues em casa, deu o dinheiro para a mãe comprar “pão, carne ou Coca-Cola”. Depois, será “reembolsado’’.

O aniversário de 92 anos do aposentado Martinho de Souza Mangabeira, no dia 20 de março, não foi completo neste ano. Por causa das restrições recomendadas pela Organização Mundial da Saúde, só os familiares mais próximos, aqueles que residem em sua casa, no bairro Vila América, em Santo André, cantaram o “parabéns para você”. O restante da família não pôde ir.

“Todos os anos, nós nos reunimos para comemorar o aniversário do meu pai. Ele é mais velho que minha mãe e está começando a apresentar sinais de perda de memória. Mas ele nunca se esquece da reunião familiar pelo aniversário. Por isso, a festa é tão especial”, diz a filha mais nova, Eliana Mangabeira, dona de casa de 55 anos que respondeu a quarentena e não participou da festa mesmo morando só a 1,4 quilômetros do pai. 

Assim que a quarentena acabar, a família pretende fazer uma nova comemoração. “Minha família já está planejando um churrasco para marcar o reencontro e o aniversário do meu pai de novo. Com certeza será uma choradeira”, diz Eliana.

Como ficou mais ou menos claro pelas entrelinhas, a questão proposta para o Bruno, a Cris e a Eliana foi: “O que você gostaria de fazer após a quarentena?” Esses e outros relatos comprovam que o isolamento esgarçou, mas não rompeu a capacidade de pensar a vida após a pandemia. “Nós saímos do piloto automático e paramos para pensar na vida. Por um lado, isso pode trazer desespero e ansiedade. Por outro lado, pode abrir horizontes”, diz o filósofo Gerson de Moraes, professor da Universidade Mackenzie. “Precisamos absorver a ideia de que o mundo anterior não existe mais e tentar sair como pessoas melhores. Aí começam os projetos. A esperança nos conecta ao futuro. Hoje, nós estamos presos no tempo e no espaço, mas conseguimos sonhar com algo melhor”, explica.

No caso da assistente social Sandra Farinazzo Maioli, seu projeto pessoal aponta para o futuro, mas também representa um acerto de contas com o passado. Em janeiro de 2019, ela sofreu um grave acidente de carro que resultou na morte de dois amigos. Uma das sequelas foi a necessidade de uma cirurgia de hérnia abdominal, que estava marcada para o dia 27 de março. Como todas as cirurgias eletivas no País foram adiadas, o procedimento não tem data para ocorrer. “Fazer essa cirurgia é a última etapa de um longo processo para voltar à vida normal”, diz a profissional de um hospital psiquiátrico na cidade de Jandaia do Sul, no Paraná.

A exemplo do artista Bruno Freitas, o cantor Carlos Navas aposta na arte para seguir adiante. Intérprete independente há 24 anos, com dez discos gravados, Navas pretende intensificar os projetos infantis e educativos no segundo semestre. Um dos seus projetos de maior sucesso é o show Chico & Vinicius para Crianças, que já foi visto por mais de 300 mil pessoas. “A música será mais reconhecida como instrumento de autoconhecimento, reflexão e cidadania. Meu trabalho faz olhar para dentro. Acho que as pessoas estarão mais abertas para experiências desse tipo”, diz.

Os planos para o segundo semestre também podem significar um ajuste de direção na própria vida. Em agosto passado, a enfermeira Luciana Fracarolli Garcia, de 39 anos, foi para o Canadá estudar inglês e trabalhar. Enquanto cursava as aulas na Thompson Rivers University, em Kamloops, província de British Columbia, tentava a validação do seu diploma brasileiro.

REPLANEJAMENTO

Três fatores fizeram com que ela mudasse seus planos: o atraso na documentação, a falta de adaptação à nova realidade e o fato de a mãe, dona Denise, ter ficado sozinha no Brasil – é viúva e tem 60 anos. “Fiquei pensando sobre quem faria as tarefas do cotidiano para ela, como ir ao supermercado ou acompanhá-la ao hospital, se isso fosse necessário, em época de quarentena.”

Por isso, Luciana decidiu antecipar a volta ao Brasil. Seu plano principal agora é retomar a carreira por aqui. “Tomei a decisão certa, mesmo que São Paulo registre mais casos de coronavírus do que a região onde eu morava no Canadá”, avalia.

“Nós saímos do piloto automático e paramos para pensar na vida. Por um lado, isso pode trazer desespero e ansiedade. Por outro lado, pode abrir horizontes.”

RETOMADA VAI DEPENDER DO CONTROLE ATUAL

A retomada da vida normal após a pandemia será lenta, progressiva e diretamente relacionada às medidas de contenção tomadas atualmente. Quanto mais pessoas seguirem o isolamento social, menos infectados e doentes ocuparão os hospitais. Mas aquela “vida normal” não será como antes. Esse é o cenário do fim da pandemia projetado por epidemiologistas, infectologistas e virologistas consultados pelo Estado.

A fase exponencial de aumento de casos ainda deve durar alguns meses. O clínico e infectologista Paulo Olzon, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que, quando uma parte grande da população, em torno de 50%, estiver imunizada, ou seja, tiver contato com o vírus e criado anticorpos, a curva de casos deve começa a cair. A partir daí, a transmissão diminui e a doença regride.

Isso significa que não haverá um dia da virada, portanto. “Podemos ter casos de doentes nesta fase, mas aos poucos a imunidade da população deve ir aumentando, o que pode diminuir a transmissão. Deve-se levar em conta que pessoas recuperadas podem ser novamente infectadas”, opina o virologista Paulo Eduardo Brandão, professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP.

A médica sanitarista Ana Freitas Ribeiro, do Instituto de Infectologia do Hospital Emílio Ribas, afirma que a China observa número reduzido de casos de transmissão local após o fim das medidas de distanciamento social. “Isso pode estar relacionado às medidas de detecção de casos, isolamento dos doentes e quarentena dos contatos.”

Os especialistas afirmam que os próximos meses serão marcados pela luta por vacina e tratamento. Um dos ensaios clínicos vem sendo desenvolvido pelo médico gaúcho André Kalil na Universidade de Nebraska. O infectologista de 53 anos conduz estudos sobre a droga remdesivir, que já apresentou efeitos contra doenças como a Sars, por exemplo, em animais e no ambiente laboratorial (in vitro). Mas o estudo foi planejado para três anos. “A ideia não é testar uma só droga, mas várias”, diz Kalil, que trabalha nos Estados Unidos há 20 anos.

Nessa busca de soluções para o novo coronavírus, a luta contra outras doenças pode ser favorecida. São os casos da tuberculose, aids, raiva e leishmaniose. “Já passamos por isso em outras pandemias, como cólera, peste e influenza. A humanidade mudou e seguiu em frente”, avalia Paulo Brandão. 

Já o cirurgião de coluna Luiz Cláudio Lacerda Rodrigues, professor da Faculdade de Medicina Santa Marcelina, direciona seu olhar para o lado emocional. “As pessoas vão demorar a perder o medo do abraço.”

Tudo o que sabemos sobre:
quarentenaepidemiacoronavírus

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.