Pessoas que tiveram contato com sul-africano mantém rotina

Único monitoramento que está sendo feito é o de febre, através do controle de temperatura duas vezes ao dia

Fabiana Cimieri, de O Estado de S. Paulo,

03 de dezembro de 2008 | 18h49

As cerca de 50 pessoas que tiveram contato com o sul-africano Willian Charles Erasmus, de 53 anos,que morreu terça-feria, 2, com febre hemorrágica provocada por um vírus desconhecido, na Casa de Saúde São José, na zona sul do Rio, mantém suas atividades diárias normalmente. O único monitoramento que está sendo feito é o de febre, através do controle de temperatura duas vezes ao dia. Em nota, o Ministério da Saúde informou que "não é recomendada a realização de quarentena, pois o contágio acontece apenas após o aparecimento dos sintomas. O período de incubação do vírus varia de 7 a 16 dias".  Veja também:Exames de sul-africano que morreu no Rio vão demorar 4 diasSul-africano que morreu no RJ pode ter sido infectado na África Empresário sul-africano é vítima de febre hemorrágica no Rio  No entanto, uma das hipóteses é a de que Erasmus tenha sido infectado por um vírus desconhecido da família dos arenavírus. Ele esteve internado na Clínica Morning-Side, em Johannesburgo, há cerca de 15 dias, para realizar uma cirurgia ortopédica, segundo o epidemiologista da Fundação Oswaldo Cruz, José Cerbino Neto. Ele descartou a possibilidade de epidemia. "Não há motivo para pânico." Diferentemente da posição oficial, o infectologista da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Edimilson Migówski, avalia que há risco de transmissão antes do aparecimento dos sintomas, como acontece com outras viroses, como a hepatite A e o rotavírus. Ele também cogitou a possibilidade de haver casos de pessoas infectadas e assintomáticas, que poderiam propagar a infecção.  "Os arenavírus são pouco conhecidos no Brasil e nos Estados Unidos, ainda mais um tipo desconhecido dessa família. É uma situação bem delicada para quem teve contato direto com o sul-africano, na minha visão essas pessoas deveriam estar sendo mantidas em quarentena. Pode ser chato, mas é melhor ser um pouco exagerado diante do que não se conhece", analisou ele. Os Centros de Prevenção e Controle de Doenças (Centers for Disease Control and Prevention) , que isolou o vírus sul-africano no laboratório de Atlanta e é um dos principais órgãos do ministério da saúde norte-americano informa em seu site que alguns tipos de arenavírus podem ser transmitidos por via aerossol, "através de minúsculas partículas de secreções contaminadas, como sangue e saliva, suspensas no ar".  No hospital de Johannesburgo, foram registrados cinco casos de infecção pelo mesmo tipo desconhecido de arenavírus, no período de 12 de setembro a 24 de outubro de 2008. O caso primário foi o de uma agente de viagens que havia feito um safári em Zâmbia. Os outros quatro casos foram de médicos e enfermeiros que possivelmente tiveram contato com sangue ou outras secreções contaminados. Apenas uma enfermeira, a última a apresentar os sintomas, sobreviveu. Ela foi medicada com Ribavarina, medicamento usado para tratar a Febre de Lassa, outra infecção causada por arenavírus. A clínica não quis entrar em detalhes sobre a data da internação de Erasmus e nem sobre como ele teria sido infectado, mesmo depois do surto ter sido aparentemente controlado. Os resultados preliminares dos exames realizados pela Fiocruz para diagnosticar a doença febril hemorrágica que causou a morte do sul-africano devem ser divulgados pelo Ministério da Saúde na segunda-feira. Além do arenavírus, estão sendo investigadas as hipóteses de hantaviroses, hepatite e leptospirose. Malária, dengue e ebola foram descartados. Na Casa de Saúde São José, o clima desta quarta-feira, 3, era de medo entre os funcionários, que afirmavam que o paciente ficou pelo menos 24 horas sem nenhum tipo de isolamento, apesar de ter manifestado um quadro de gravidade desde o início. Na empresa Choice Technologies, para quem Erasmus prestou serviços de consultoria, o expediente foi suspenso. Segundo o diretor, Everaldo Costa, o motivo foi o assédio da imprensa, e não medo de alguém ter sido infectado. Ele disse que Erasmus, em nenhum momento em que esteve com funcionários da empresa, passou mal ou se queixou de algum problema de saúde.  Oficialmente, até o momento, nenhuma das pessoas que estão sendo monitoradas apresentou os sintomas da doença - febre, dor de cabeça e mialgia semelhantes a um resfriado comum, que rapidamente evolui para diarréia, faringite, insuficiência respiratória, alterações neurológicas e colapso circulatório. O corpo do sul-africano continuava até ontem à noite na Casa de Saúde, em um caixão de zinco lacrado, numa sala também lacrada, sem destino definido. O Instituto Médico-Legal não pôde recebe-lo por falta de instalações adequadas. O consulado da África do Sul defendia que o corpo fosse cremado no Rio, mas a mulher do empresário queria levá-lo de volta.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.