Dado Ruvic/Reuters
Dado Ruvic/Reuters

Pfizer quer armazenar vacinas em freezer comum e fará testes com grávidas no Brasil

A presidente da empresa no Brasil disse que há espaço para o governo negociar com a farmacêutica a entrega de mais doses além das 100 milhões já adquiridas

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2021 | 10h00

BRASÍLIA - Presidente da Pfizer no Brasil, a espanhola Marta Díez afirmou que a farmacêutica irá pedir autorização à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para armazenar a vacina contra a covid-19 no País em freezer comum, com temperaturas de -15ºC a -25ºC. A medida deve facilitar o transporte do imunizante a regiões mais remotas. "Vai ser muito importante para armazenamento nos pontos finais de vacinação", disse Díez ao Estadão. Ela contou que a Pfizer fará testes no Brasil sobre a eficácia da vacina em mulheres grávidas. Serão aplicadas doses em 350 voluntárias.

A companhia também avalia, em outros países, os resultados em crianças e  pacientes imunodeprimidos. Díez assumiu o comando da farmacêutica no País em 1º de fevereiro deste ano. O Ministério da Saúde recusou três ofertas da empresa, que esperava entregar 4 milhões de doses no primeiro trimestre, suficientes para imunizar 2 milhões de pessoas. "Teria sido melhor se chegasse antes, sim, mas a legislação não permitia", destacou Díez, que antes chefiava a unidade da Pfizer no Chile.

A espanhola observou que há espaço para o governo negociar com a farmacêutica a entrega de mais doses, além das 100 milhões já adquiridas, no contrato assinado no último dia 19. "Vai depender da capacidade de produção e do interesse do governo", disse ela.

Para negar por meses a compra da Pfizer, o presidente Jair Bolsonaro classificou como "abusiva" a exigência da empresa, segundo a qual a  legislação deveria ser alterada para o governo assumir riscos e custos por eventuais efeitos adversos das vacinas. Trata-se da mesma cláusula colocada por fornecedoras do consórcio Covax Facility, entre outras companhias, como a Janssen.

“Lá no contrato da Pfizer está bem claro: ‘Não nos responsabilizamos por qualquer efeito colateral. Se você virar um jacaré, é problema de você’”, afirmou o presidente, em 17 de dezembro do ano passado. Como revelou o Estadão, um dispositivo para destravar a compra foi inserido em minuta da medida provisória 1026/2021, com respaldo da Saúde, mas acabou excluído da versão final, publicada em janeiro.

Pelo pedido que será feito à Anvisa, a vacina poderia ser armazenada por 20 dias sob nova temperatura. O aval já foi dado pelo FDA, a agência de medicamentos dos Estados Unidos. Antes, a vacina seria armazenada apenas entre 60 a 80 graus negativos. Nestas condições, a validade é de 6 meses. A baixíssima temperatura era apontada como barreira pelo governo Bolsonaro para a compra.

A Pfizer também desenhou uma caixa que conserva a vacina em cerca de 70 graus negativos por um mês. Após deixar as baixas temperaturas, o imunizante ainda pode ser mantido por cinco dias em refrigeradores comuns, de 2 a 8 graus, já usados na rede do SUS. A vacina da Pfizer tem eficácia global de 95%. Na população acima de 65, alcança 94%, segundo avaliou a Anvisa.

Para garantir esse resultado são aplicadas duas doses, em intervalo de 21 dias. A empresa afirma que, neste momento, não negocia a venda do produto com prefeitos, governadores e iniciativa privada. "É uma questão de saúde pública, para evitar que as nações, regiões mais ricas, concentrem as vacinas", argumentou Díez.

Como foi a negociação com o governo brasileiro para a venda da vacina?

A negociação foi muito longa. Eu cheguei ao Brasil em fevereiro. Mas a equipe já negociava desde junho do ano passado. A legislação teve que mudar para, efetivamente, fechar o contrato de 100 milhões de doses. A oferta foi aumentada. Era de 70 milhões. Melhoramos a quantidade e calendário de doses. Entendendo a urgência no Brasil, o calendário que temos agora é muito bom.

Há possibilidade de o Brasil comprar mais doses? A Pfizer teria produção para ampliar essa oferta?

O contrato é de 100 milhões de doses. Mas outros países fecharam contratos e depois fizeram aditivos. Essa é uma possibilidade. O governo, pelo momento, não solicitou. É possível discutir no futuro. As 100 milhões de doses já incluem o 'extra' que pedimos ao Brasil. A produção é bem dinâmica. Começamos o ano passado pensando que iríamos produzir 1,3 bilhão de doses (para todo o planeta). Há dois meses, já dissemos que poderemos chegar a 2 bilhões. A perspectiva é que talvez possamos ter mais. Então, vai depender muito de quando o governo pedir, se necessitar de mais doses. Vamos ver se, efetivamente, poderemos ter capacidade de entregar mais doses. Vai depender da capacidade e do interesse do governo.

A vacina da Pfizer é eficaz para as variações do vírus? Há estudos para ampliar o público-alvo?

A Pfizer publicou um estudo, recentemente, e mostrou que a vacina consegue neutralizar os vírus das três variantes (da África do Sul, Reino Unido e do Brasil). Estamos otimistas. É algo que todos estavam interessados em saber. A companhia tem um estudo principal, que já acabou, e fazemos estudos com as variantes. Também há outros. Vão começar os testes com crianças, mulheres grávidas e pessoas com sistemas imunodeprimidos. O estudo com mulheres grávidas será também feito no Brasil.

O Brasil precisa fazer adaptações na rede de armazenamento do SUS, na logística, ou está preparado para receber uma vacina que demanda temperatura mais baixa de armazenamento?

Depende muito de como o governo vai querer organizar a campanha de vacinação. A companhia desenhou uma caixa isotérmica, onde vão cerca de 5 mil doses, e mantém temperatura de 70 graus negativos. Podemos usar durante 30 dias essa caixa, com a temperatura ambiente abaixo de 25 graus. Outros governos colocaram refrigeradores especiais (também em baixíssima temperatura), muito usados em laboratórios de amostras médicas. Também estamos esperando para trabalhar com a Anvisa nessa melhora de condições de armazenamento (em freezer comum). Vai ser muito importante para armazenamento nos pontos finais de vacinação.

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro Pazuello afirmavam que eram abusivas as exigências da Pfizer para a venda da vacina. Uma delas, por exemplo, previa que o governo assumiria riscos de efeitos adversos. É uma cláusula que dá margem para ser considerada abusiva ou faz sentido na pandemia?

Faz sentido no contexto da pandemia. Temos outras vacinas sem essas cláusulas, que não estão no contexto de pandemia. Tiveram um estudo clínico muito longo. Há todo um sistema que permite que estes contratos não incluam essas cláusulas. Agora é uma situação diferente. Não é exclusivo da Pfizer. Todas as companhias, em negociações com o governo, têm de fazer o governo entender que tem de compartilhar o risco.

O governo pode ter exagerado? Fez acusações, até em forma de piadas, sobre virar jacaré. Como a Pfizer recebeu esse tipo de afirmação?  

Na pandemia é muito difícil julgar o que está bem ou mal. Temos de olhar para frente. Temos um contrato, vacinas que vão começar a chegar.  Teria sido melhor se chegasse antes, sim, mas a legislação não permitia.

Existe alguma possibilidade de a Pfizer, em 2021, vender vacinas para prefeitos, governadores e até para a iniciativa privada?

Hoje a companhia é clara: a preferência, em todos os países, é o governo central. É uma questão de saúde pública, para evitar que as nações, regiões mais ricas, concentrem as vacinas. Quando houver mais vacinas no mundo, um excesso, esperamos que em algum momento isso ocorra. Poderemos começar a falar se outras entidades, regiões e até se a iniciativa privada poderá comprar. Isso não depende só da Pfizer. Depende de quais outras companhias poderão ter vacinas aprovadas e produção. Se for só a Pfizer, em 2021, asseguro que não (haverá condição de ampliar a venda).

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