Gerard Julien/ AFP
Gerard Julien/ AFP

Pivô da queda de Teich, cloroquina já se mostrou ineficaz contra covid-19 em diversos estudos

As mais conceituadas revistas médicas do mundo publicaram pesquisas com centenas de pacientes apontando que a droga não traz melhoras, na comparação com grupos que não a tomaram, e traz efeitos colaterais

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2020 | 15h37
Atualizado 15 de maio de 2020 | 18h29

SÃO PAULO - Um dos pivôs da queda de Nelson Teich do Ministério da Saúde, a hidroxicloroquina tem se revelado, estudo após estudo, pouco ou nada efetiva para tratar a covid-19. O presidente Jair Bolsonaro aumentou a pressão nos últimos dias para que Teich mudasse o protocolo do ministério, que recomenda o uso da droga em casos graves, e passasse a adotá-la amplamente.

O remédio usado originalmente contra malária e lúpus foi aplicado no começo da pandemia em alguns poucos pacientes na China com resultado promissor, foi defendido por um controverso cientista francês e incensado de modo precoce como solução contra o novo coronavírus pelo presidente americano Donald Trump e por Bolsonaro

Mas quanto mais são feitas pesquisas em todo o mundo com centenas de voluntários, algumas já de modo randomizado – em que metade do grupo não toma a droga, a fim de comparação –, a droga tem se mostrado não somente pouco eficaz, mas também com riscos a quem toma. Diante desses resultados, Trump já mudou de ideia

Somente neste mês de maio, alguma das mais importantes revistas médicas do mundo – New England Journal of Medicine (NEJM), o Journal of the American Medical Association (Jama) e o British Medical Journal (BMJ) – publicaram estudos com resultados nada promissores. São trabalhos que foram submetidos aos pares, o que aumenta seu nível de credibilidade.

"Já é hora de mudar o discurso de 'não temos evidências suficientes de que a cloroquina funciona e que precisamos de mais estudos'. Já temos evidências suficientes de que a hidroxicloroquina não é eficaz no tratamento de covid-19 e apresenta riscos cardíacos que não devem ser negligenciados", afirma Natalia Pasternak, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP.

"Os estudos deveriam ser encerrados para dar espaço para outros medicamentos mais promissores", complementa a bióloga, que tem acompanhado de perto os estudos com a droga e feito várias análises para o público leigo.

Nesta quinta, 14, o BMJ trouxe um trabalho de pesquisadores chineses que avaliaram 150 pacientes com quadros leve a moderados de covid-19. Metade recebeu a hidroxicloroquina com o tratamento padrão e metade somente o padrão. O estudo foi randomizado, sem que os pacientes soubessem em qual grupo eles estavam.

A droga não foi capaz de eliminar o vírus mesmo após 28 dias de tratamento, com a doença apresentando um desempenho similar nas pessoas que não receberam o remédio. Por outro lado, os voluntários que receberam a hidroxicloroquina tiveram mais efeitos adversos - 30% deles apresentaram reações, a mais comum delas sendo diarreia.

“Os resultados de nosso estudo não mostraram benefícios adicionais da eliminação do vírus da adição de hidroxicloroquina ao tratamento padrão. Eventos adversos, particularmente eventos gastrointestinais, foram relatados com mais frequência em pacientes que receberam a droga. No geral, esses dados não apoiam a adição de hidroxicloroquina ao tratamento de de pacientes com covid-19 persistente leve a moderada”, escrevem os autores liderados por Qing Xie, da Escola de Medicina da Universidade de Shanghai.

Um outro trabalho, também no BMJ desta quinta, considerou o efeito da doença em pacientes graves com a doença. O trabalho, conduzido em centros de tratamento da doença na França avaliou 181 pacientes com idades entre 18 e 80 anos, com quadro de pneumonia e que precisavam de oxigênio, mas não de UTI - 84 deles receberam a droga dentro de 48 horas após a hospitalização, 89, não. Outros 8 receberam depois de 48 horas de internação.

Os pesquisadores queriam checar se o remédio poderia provocar melhoras nos pacientes a ponto de eles não precisarem de transferência para o tratamento intensivo e também se haveria impacto sobre as taxas de sobrevivência. 

O estudo foi observacional, mas, assim como ocorreu com os pacientes leves a moderados do estudo chinês, o trabalho francês viu poucas diferenças entre o grupo que tomou o remédio e o controle. A hidroxicloroquina não foi capaz de reduzir as admissões em UTI nem aumentou a taxa de sobrevivência dos pacientes tratados com ela, em comparação com quem não foi medicado com a droga.

No dia 11, o Jama trouxe provavelmente o maior estudo até o momento indicando que a hidroxicloroquina não diminui a mortalidade dos pacientes com covid-19. Eles analisaram 1.438 pacientes internados em 25 hospitais de Nova York entre 15 e 28 de março e como a doença evoluiu em relação ao consumo de hidroxicloroquina, de azitromicina (um antibiótico), uma combinação das duas drogas e a comparação com nenhuma delas. 

As  taxas de mortalidade foram, respectivamente, de 19,9%, 10%, 25,7% e 12,7%. Mas, de acordo com os cientistas, quando feitos ajustes para equilibrar a análise, considerando a gravidade da doença em alguns pacientes e outras comorbidades), foi possível concluir que a mortalidade foi similar entre quem tomou as drogas e quem não as recebeu. 

O mesmo Jama havia publicado no fim de abril um trabalho de pesquisadores brasileiros realizado em Manaus com pacientes quadros severos de covid-19 que revelou riscos cardíacos da dose mais alta – trabalho que rendeu até ameaças de mortes aos cientistas. O estudo, liderado pela Fiocruz, foi acompanhado de um editorial do Jama, que defendeu, com base nos resultados, cautela no uso da substância 

Em outra pesquisa conduzida em Nova York, publicada no NEJM  no dia 7, feita com pacientes internados com covid-19 em um hospital da cidade, tampouco o remédio anti-malária se mostrou relevante. Foram avaliados 1.376 pacientes ao longo de 22 dias - 811 receberam hidroxicloroquina.

Os pesquisadores, liderados por Neil Schluger, da Universidade Columbia, ressaltam que os pacientes tratados com a droga estavam mais gravemente doentes no início do que aqueles que não receberam hidroxicloroquina. Não foi feito um trabalho randomizado: os médicos eram mais propensos a administrar o remédio nos pacientes mais doentes, mas ainda assim foi possível comparar os cenários.

Entre os pacientes que receberam a droga, 32,3% acabaram precisando de um ventilador ou morrendo, em comparação com 14,9% dos pacientes que não receberam o medicamento. Mas como havia a propensão a administrá-lo aos mais graves, os pesquisadores ajustaram as taxas para fazer a comparação. E concluíram que a hidroxicloroquina não foi capaz de diminuir a necessidade de entubação ou as mortes. O medicamento pode não ter ferido os pacientes, mas claramente não ajudou.

Os dois últimos estudos não foram randomizados, mas observacionais, o que traz limitações, como afirma Schluger. "Considerando o desenho observacional do estudo, nossos resultados não podem excluir completamente a possibilidade de benefício modesto ou dano do tratamento com hidroxicloroquina, mas os resultados não apoiam seu uso fora de ensaios clínicos randomizados", disse em comunicado à imprensa.

Vários estudos maiores e randomizados continuam sendo realizados. O maior deles, o Solidarity, coordenado pela Organização Mundial da Saúde, investiga a droga e outras quatro, em pacientes de vários países do mundo – Brasil entre eles.  Uma coalizão de grandes hospitais particulares do País  (Coalizão Covid Brasil) também faz estudos randomizados com a hidroxicloroquina, em diversos desenhos.

Mas até o momento a droga não parece ter efeito profilático, nem de tratamento, seja em pacientes leves e moderados, seja em graves, e ainda tem efeitos colaterais.

"Não temos elementos para expandir o uso. Não temos elementos para qualquer uso, de fato. Estudos randomizados, que são fundamentalmente aqueles que podemos confiar para tomar decisões sobre medicamentos, são pequenos e poucos, como o da BMJ. E o que temos até agora não aponta benefício", comenta Alexandre Biasi, do Hospital do Coração (HCor), que coordena um dos estudos da coalizão.

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