Dharcules Pinheiro / Estadão
No Acre, o Complexo de Psicultura da Amazônia, um frigorífico de peixes que está desativado, em Senador Guiomard, vai armazenar vacinas contra covid-19 Dharcules Pinheiro / Estadão

Planos de vacinação pelo País incluem barco, drive-thru e até freezer de peixe

Logística envolve transporte em temperatura adequada, com escolta e a locais remotos; necessidade de ampliar pontos de imunização leva a uso de escolas, igrejas e quartéis

Felipe Resk e João Renato Jácome / Especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2021 | 14h00
Atualizado 09 de janeiro de 2021 | 15h22

Enquanto esperam aprovação de alguma vacina contra a covid-19 no Brasil, Estados e municípios correm contra o tempo para garantir que a campanha de imunização comece assim que for dado o aval. Planos especiais preveem desde transformar escolas, igrejas ou quartéis em salas de vacinação a investir em sistema de drive-thru. Em alguns locais, a logística inclui transportar doses de barco ou avião e até armazená-las em frigorífico de peixe.

Governos estaduais dizem que as seringas e agulhas em estoque já seriam suficientes para as primeiras fases de imunização. Ao menos 15 das 27 unidades federativas – entre elas, São Paulo, Pará e Bahia – também fecharam contrato com farmacêuticas, assinaram memorando ou reservaram orçamento para compra direta de vacina.

Um dos objetivos dessas negociações é não depender exclusivamente das doses que devem ser distribuídas pelo Ministério da Saúde. O governo Jair Bolsonaro apresentou o Plano Nacional da Vacinação Contra a Covid-19 no dia 16 de dezembro, mas ainda sem data oficial de início da campanha.

Professor de Administração Hospitalar e Sistemas de Saúde da FGV, Walter Cintra analisa que o cenário destoa do histórico de campanhas anteriores. “A grande diferença é a condução desastrosa do governo federal. Em vez de coordenar um programa integrado e dar credibilidade às vacinas, como sempre foi, ele fez o contrário”, diz. “Isso forçou Estados a se mobilizar para garantir o mínimo.”

Em São Paulo, o acordo com um laboratório chinês é para produzir a Coronavac, que aguarda autorização de uso emergencial da Anvisa. A gestão João Doria (PSDB) prevê começar a vacinar no dia 25, com meta de 9 milhões de pessoas até o fim de março. Para cumprir o cronograma, precisa tirar do papel uma operação de guerra. Só na proteção de estoques e escolta de veículos refrigerados, que levam vacinas aos municípios, foram empenhados 25 mil agentes de segurança pública – mais de 20% dos 113 mil homens e mulheres que compõem as tropas paulista.

O governo estadual também se prepara para dobrar o número de salas de vacinação, passando das atuais 5,2 mil para até 10 mil. Entre as alternativas há farmácias, terminais de transportes públicos e quartéis da PM. Até clubes de futebol, como Corinthians e São Paulo, colocaram seus estádios à disposição.

No Rio, caso necessário, o plano prevê postos em escolas, instituições religiosas, associação de moradores, shoppings, aeroportos e unidades do Detran. Já Minas aposta em vacinação à noite e nos fins de semana. Ginásios e condomínios são outras alternativas citadas no País. Pelos programas, equipes de saúde devem ir, ainda, a pacientes acamados e centros de idosos.

Contra aglomerações, o mais comum é a vacinação por drive-thru: modalidade em que não é preciso sair do carro. Além de São Paulo, o sistema foi sugerido por Maranhão, Rio Grande do Norte, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Goiás. Neste último, o governo também diz que desenvolve aplicativo para agendamento por celular.

Desafios logísticos

Em Rondônia e no Amazonas, algumas comunidades só podem ser acessadas por barco. O Acre também vai precisar de aeronaves e embarcações para o transporte de doses. Para evitar que estraguem, a gestão Gladson Cameli (PP) comprou novas câmaras frias e, como retaguarda, deve usar um frigorífico de peixes que estava fechado desde 2018. “Sairemos de uma capacidade de armazenamento de doses de vacina de 600 mil para 1,6 milhão de doses”, diz Renata Quiles, coordenadora do Programa Nacional de Imunização (PNI) no Acre.

Imunizantes elaborados com o vírus atenuado, a exemplo da Coronavac e da vacina da AstraZeneca e Oxford, devem ficar conservados entre 2ºC e 8ºC. Por sua vez, a da Pfizer, feita com base em extração de RNA, precisa de temperaturas ainda mais baixas, caso o armazenamento dure mais de cinco dias.

A infraestrutura necessária fez o governo de Sergipe repensar as alternativas no mercado. “Exceto a vacina da Pfizer, que exige armazenamento a – 70º, todas as demais vacinas atendem a nossa logística”, diz, em nota. Já Ceará e Rio Grande do Sul negociam usar ultra-freezers de universidades.

“Se a vacina da covid chegar agora, podemos usar a rede da influenza (gripe), que já é boa”, diz diretora Cynthia Bastos, do Centro Estadual de Vigilância em Saúde do Rio Grande do Sul. Para acelerar a logística, o governo estuda alugar mais caminhões refrigerados e incluir farmácias na rede de aplicação.

“Em 6 horas, conseguimos fazer o deslocamento pelo Estado inteiro. Podemos vacinar até com a Pfizer, sem estocar”, afirma. “Se os municípios deixarem as pessoas organizadas, chegamos vacinando.”

Idosos são prioritários

O Ministério da Saúde prevê iniciar a vacinação com profissionais de saúde, idosos com mais de 75 anos e indígenas. A pasta ainda não definiu uma data para começar a aplicação de doses – projeta 20 de janeiro no cenário mais otimista. A gestão paulista planeja começar a vacinar em 25 de janeiro ou até antes, se houver autorização para uso emergencial pela Anvisa. Não há impedimento para que os Estados comecem a vacinar antes da campanha nacional. 

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Estados dizem ter estoque de 192 milhões de seringas

Governos veem volume suficiente para iniciar campanha; MG e RS vão convocar estudantes da Saúde para vacinar

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2021 | 14h00

Secretarias estaduais de saúde declaram ter pelo menos 192,4 milhões de seringas e agulhas em estoque que poderiam ser usadas na vacinação contra a covid-19 no País. Ainda de acordo com as pastas, mais 165,2 milhões de kits estariam em processo de compra ou entrega. 

Para os Estados, o quantitativo seria suficiente para começar a campanha. Com 71 milhões de seringas, São Paulo é responsável pelo maior volume declarado, segundo levantamento do Estadão. Em seguida, aparecem Minas (50 milhões), Bahia (13) Paraná (11) e Rio (8). Apesar de ser uma das cinco unidades que não detalharam os insumos, Sergipe também diz ter “estoque para iniciar nos grupos prioritários.”

Sem data definida, o Plano Nacional de Vacinação prevê imunizar 49,6 milhões de pessoas no intervalo de quatro meses. Para isso, o Ministério da Saúde planejou comprar 331 milhões de seringas. Em dezembro, no entanto, um pregão eletrônico fracassou e só 7,9 milhões de itens, ou 2,4% do previsto, foram adquiridos pelo governo federal. Já na semana passada, o presidente Jair Bolsonaro usou as redes sociais para responsabilizar a indústria e dizer que a compra está suspensa até que “os preços voltem à normalidade”.

“O Brasil tem uma experiência muito grande em vacinação. A campanha pode ser muito tranquila em termos de acesso, contanto que tenha disponibilidade de insumos”, afirma Walter Cintra, pesquisador da FGV. “É importante considerar que as vacinas que estão no mercado precisam de duas doses.”

Ainda de acordo com o plano, o Ministério estima a perda operacional de 5% de doses da AstraZeneca e Oxford, com quem o governo federal tem acordo. Para o imunizante da Pfizer, armazenado em baixas temperaturas, a taxa calculada é de 10%.

Na ponta da linha, Estados correm para reforçar as equipes de vacinação. Para a campanha, Minas e Rio Grande do Sul pretendem convocar estudantes de cursos de saúde. Em Rondônia, cidades trabalham no remanejamento de profissionais.

A posição do Ministério da Saúde

Em nota, o Ministério da Saúde diz saber de “cerca de 80 milhões de seringas e agulhas nos Estados e municípios” – quantidade que representa cerca de 40% do informado pelos governos locais à reportagem. “O número é suficiente para iniciar a vacinação ainda em janeiro”, afirma a pasta.

Segundo o ministério, mais 40 milhões de unidades teriam sido garantidas pela Organização Panamericana de Saúde (OPAS). Oito milhões delas com entrega entre o fim de janeiro e o início de fevereiro. Outras 30 milhões foram requisitadas à Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos e Odontológicos (ABIMO). “Um novo pregão está em andamento para aquisição de mais produtos”. 

“O Ministério da Saúde reforça que todos os Estados brasileiros serão tratados de forma igualitária e proporcional e o início da vacinação ocorrerá após a autorização temporária de uso emergencial ou do registro de vacinas concedidos pela Anvisa”, afirma a pasta. “As vacinas serão enviadas aos Estados, que serão encarregados de distribuir aos municípios.”

Já para qualificar as equipes de saúde que atuarão na campanha, o governo federal aposta em um curso no modelo de Educação a Distância (EAD). “A capacitação será realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com o PNI e a Secretaria de Atenção Primária à Saúde”, diz

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