Tiago Queiroz/Estadão
Drive thru para vacinação contra covid-19 de idosos em Osasco. Tiago Queiroz/Estadão

Plano de imunização contra covid trava no Brasil por escassez de doses e incerteza sobre cronograma

País, que espera receber 200 milhões de doses até julho, tem capacidade de vacinar 2 milhões de pessoas por dia, mas aplicou pouco mais de 350 mil doses diárias na última semana

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2021 | 10h00

O atraso do Brasil em contratar vacinas, a oferta a conta-gotas – com poucas doses chegando para os Estados a cada semana – e a incerteza sobre o cronograma de novas entregas, cuja previsão é alterada com frequência pelo ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, têm impedido que o País acelere seu programa de vacinação contra a covid-19. Isso nos deixa cada vez mais dependentes de um isolamento social rigoroso para frear a circulação do coronavírus no País.

Com capacidade de vacinar 2 milhões de pessoas por dia e um programa nacional de imunização (PNI) cantado em verso e prosa como um dos mais competentes do mundo, o Brasil aplicou na última semana, em média, pouco mais de 350 mil doses por dia (entre a primeira e a segunda dose). Até domingo, 14, foram aplicadas 5,37 doses para cada 100 pessoas, ou 4,5% da população, de acordo com levantamento feito pelo site Our World in Data, ligado à Universidade de Oxford.

Israel, que lidera entre os países, já vacinou 108,3 pessoas para cada cem habitantes. Reino Unido vacinou 38/100. Mas não são somente os países ricos que estão à nossa frente. No domingo, o Chile já tinha vacinado 34,48 vacinados a cada 100 habitantes, à frente até mesmo de Estados Unidos e União Europeia.

O problema é tão óbvio quanto dramático: ainda não temos vacina para acelerar esse processo. Enquanto os americanos correram para comprar vacinas e hoje contam com contratos de doses suficientes para imunizar o dobro da população, e o Chile assegurou doses para mais de 240% de seus cidadãos – segundo dados levantados pelo projeto Launch & Scale Speedometer, da Universidade Duke, da Carolina do Norte (EUA) até o dia 8 –, o Brasil tem, neste momento, a expectativa de receber, até julho, se tudo der certo, pouco mais de 200 milhões de doses. 

Esse é o número que se pode estimar do cronograma mais recente divulgado pelo Ministério da Saúde, considerando as previsões de compra e produção nacional da vacina de Oxford, da Coronavac e da Sputnik V (cujo contrato de 10 milhões de doses foi fechado na última sexta-feira e tem as primeiras 400 mil doses esperadas até o fim de abril). Entra na previsão também a entrega de uma parte do filão brasileiro do consórcio Covax, da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Em um cálculo matemático simples, seria o suficiente para vacinar cerca de metade da população – o que ainda é pouco, tendo em vista o avanço da dispersão da vírus –, mas o cenário é bem mais complexo, visto que essas previsões mudam o tempo todo e não há segurança de que essas doses realmente estarão disponíveis até lá. Seja por causa de atraso no fornecimento das doses ou do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA).

Não é um problema exclusivo do Brasil. A União Europeia tem se queixado frequentemente da demora na entrega de vacinas já compradas. Mas o fato de termos poucas alternativas de fornecimento piora a nossa situação. Especialistas em imunização no Brasil se queixam especialmente da falta de previsibilidade da chegada de doses, em parte por causa de diversos anúncios por parte do governo federal que não se confirmam depois.

No último dia 6, por exemplo, Pazuello reduziu a previsão de entrega para março para 30 milhões de doses. Até dois dias antes ele falava em 38 milhões, contando com a entrega da indiana Covaxin, que teve acordo de compra fechado antes mesmo de se saber a eficácia do produto. No dia 8, ele anunciou que chegariam entre 25 a 28 milhões de doses no mês e, no dia 10, reduziu novamente a expectativa, afirmando que, garantidas mesmo, estão entre 22 e 25 milhões de doses.

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'É difícil essa política de distribuir vacina a conta-gotas', diz epidemiologista

Para os especialistas ouvidos pelo Estadão, o maior erro do governo foi não ter comprado as vacinas quando elas estavam disponíveis, ainda no ano passado

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2021 | 10h00

O cenário de incerteza e imprevisibilidade sobre quando novas doses da vacina contra covid-19 estarão disponíveis no Brasil e em quais quantidades têm deixado especialistas em imunização do País aflitos. Na semana passada, o Estadão conversou com três deles, todos envolvidos nos últimos anos com campanhas de vacinação e a posição de todos foi a mesma: é urgente que o Brasil compre vacinas e que seja transparente sobre o cronograma.

“Não sabemos de verdade com o que podemos contar. E é muito difícil trabalhar com essa política de distribuir a vacina a conta-gotas”, afirma a epidemiologista Carla Domingues, que coordenou o Programa Nacional de Imunizações (PNI) de 2011 a 2019. “A falta de um cronograma confiável impede qualquer planejamento adequado”, concorda Isabella Ballalai, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações.

“As pessoas estão sendo chamadas aos pouquinhos, numa decisão a cada semana, porque não se sabe se e quanto vai de fato ter de vacina. Agora vêm os de 90, depois 89, depois 81. É triste isso. No Rio, a prefeitura tinha anunciado ao longo da semana que na sexta seria a vez das pessoas de 75. Na véspera se percebeu que não teria vacina para aplicar, e a vacinação foi suspensa”, exemplifica.

O Chile, país que já vacina 6 vezes mais que o Brasil, já está imunizando doentes crônicos da faixa dos 40 anos – em outro exemplo de sucesso na sua campanha.

À parte alguns erros pontuais já observados no País, como a vacinação de mais de cem mil pessoas que não fazem parte dos grupos prioritários ou a dificuldade de alcançar o grupo de 90+, Isabella opina que o processo está funcionando dentro do que é possível. 

“Mas as pessoas que estão na ponta têm muita dificuldade de planejar. Como é que se planeja uma vacinação sem ter em mãos a matéria-prima fundamental, que é a vacina”, questiona?

Campanhas de vacinação no Brasil costumam trabalhar com a definição de públicos-alvo e faixas etárias, mas nunca de forma tão estreita. Para a vacina da gripe, por exemplo, todos os idosos são convocados de uma vez. Agora, com a vacina anti-covid, tem gente de 90 ou mais que por uma série de questões acabou ainda não sendo vacinada - seja por dificuldade de mobilidade ou por não se convencer da importância. 

Já com o público acima de 75, ao menos no Rio, aponta a pesquisadora, acredita-se que a adesão foi maior do que a esperada, o que levou ao fim mais rápido da vacina.

Com a experiência de planejar campanhas de imunização desde 1975, José Cássio de Moraes, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e membro do Observatório Covid-19, lembra que, anualmente, são aplicadas cerca de 300 milhões de doses em 40 mil salas em todo o País.

“Mas isso tem de ser bem planejado meses antes da campanha começar. No caso da covid-19, claro que tem o fato de a doença ser nova, mas o governo não ter investido na compra antecipada de vacinas impediu esse planejamento. Não tem como o programa não caminhar lentamente”, afirma o médico.

Como as duas vacinas disponíveis no Brasil demandam duas doses, é preciso planejar para que não falte a segunda para quem tomou a primeira. “Não temos como vacinar o maior número de pessoas com a primeira dose se não temos nenhuma garantia de quando vamos ter a segunda”, comenta.

“O que deixa a gente triste é que existe estrutura para aplicar vacina no Brasil. Não precisa criar sala, comprar geladeira, treinar aplicador. Temos tudo isso, menos vacina e os insumos”, lamenta.

Para os especialistas ouvidos pelo Estadão, o maior erro do governo foi não ter comprado as vacinas quando elas estavam disponíveis, ainda no ano passado. Agora, nenhum dos novos acordos em discussão – com a Pfizer, a Covaxin e a Janssen – serão para pronta entrega. Essas doses, se de fato forem contratadas, só chegarão a partir do segundo semestre.

Mas eles criticam que neste momento ainda há muita intenção de compra, mas poucos contratos firmados, com garantia de entrega, para poder fazer de fato um planejamento. Mesmo a Sputnik, que acabou de ter o acordo firmado, ainda não teve o uso emergencial autorizado pela Anvisa.

Os pesquisadores afirmam que diante da falta de perspectiva de aumentarmos imediatamente a vacinação, é caso de adotar medidas extremas. “Nesse momento, só as vacinas que temos não vão resolver. É preciso mitigar. A única saída é o distanciamento social, é usar máscara”, diz Carla.

“Isso que estamos vivendo não aconteceu por acaso, não foi uma desgraça, um castigo de Deus aos brasileiros. É resultado de déficit de vacinas e de não termos adotado as medidas não farmacêuticas do controle da pandemia. Estamos colhendo os frutos por toda a descoordenação que vivemos. E hoje somos os campeões de produção de vírus, um título nada honroso”, lamenta Moraes.

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