Luis Acosta/AFP
Luis Acosta/AFP

Plano para vacinar crianças nos EUA mira compra de agulhas menores e resistência dos pais

Agência americana está perto de aprovar imunização faixa etária entre cinco e onze anos; parceria com escolas está entre as estratégias

Leon Ferrari, O Estado de S. Paulo

27 de outubro de 2021 | 17h15
Atualizado 28 de outubro de 2021 | 08h22

Vacinação nas escolas, com filas pequenas e uso de agulhas menores. Somadas a isso, a diversidade étnica e a resistência dos pais. São alguns dos desafios técnicos e sociais do plano de vacinação em 28 milhões de crianças nos Estados Unidos. Nesta semana, um comitê externo de aconselhamento do FDA (agência americana equivalente à Anvisa) recomendou a liberação de imunizante da Pfizer para crianças entre cinco e onze anos. 

Antes da aprovação definitiva do produto para a faixa etária, a Casa Branca já divulgou alguns planos para esse grupo, que promete ser bastante diferente da campanha para adultos. Mesmo com a agilidade em anunciar medidas, a Kaiser Family Foundation (KFF), organização sem fins lucrativos, avalia que haverá disparidades regionais na aplicação de doses. A proposta dos Estados Unidos também indica desafios para outros países. O Brasil tem mais tradição em campanhas nacionais de imunização, mas também tem profundas desigualdades regionais.  

A recomendação do conselho do FDA não é decisão final, porém, a agência costuma seguir as indicações desse órgão. A KFF estima que a orientação de aplicação já deva estar oficializada entre 3 e 4 de novembro. “Sabemos que o acesso será crítico”, disse Sonya Bernstein, consultora de política sênior da Equipe de Resposta à covid. Por isso, acrescenta, o governo explorou como tornar mais amigável a experiência de vacinação às crianças.

“As crianças têm necessidades diferentes das dos adultos, e nosso planejamento operacional é voltado para atender a essas necessidades específicas”, disse o coordenador de resposta ao coronavírus dos EUA, Jeffrey Zients, à imprensa. “Inclusive oferecendo vacinas em ambientes com os quais os pais e crianças estão familiarizados e confiam.”

Para garantir o fornecimento, o governo diz ter comprado doses suficientes e que pretende enviar 15 milhões de doses para os Estados imediatamente. Além disso, quer garantir que cerca de 25 mil consultórios pediátricos ou de cuidados primários, milhares de farmácias, centenas de escolas e clínicas de saúde rurais estejam prontas para administrar injeções quando e se a vacina receber autorização federal. 

A Pfizer disse nesta quinta-feira, 28, que pretende entregar mais 50 milhões de doses de sua vacina para o governo americano, por conta da iminente imunização de crianças. As entregas devem ser feitas até o final do mês de abril do próximo ano.

A KFF destaca que a agilidade da campanha deve variar entre os Estados, por causa do tempo necessário para preparar locais de vacinação e aplicadores. A organização também aponta que a politização sobre o uso do imunizante pode prejudicar o avanço, mas a resistência dos pais preocupa mais no longo prazo.

Agulhas e frascos menores

Um desafio técnico que se apresenta na campanha é a necessidade de usar agulhas e frascos de tamanhos diferentes. Isso porque a dose da Pfizer usada em crianças, conforme a farmacêutica, é de 10 microgramas, um terço menor do que a aplicada em pessoas com mais de 12 anos.  Os funcionários da Casa Branca adiantaram que os frascos das doses infantis podem ser armazenados por até dez semanas em refrigeração comum, e seis meses com temperaturas mais frias. 

A KFF aponta uma vantagem no novo produto: as embalagens contêm menos frascos, o que pode facilitar o armazenamento. Porém, a espera pela chegada do produto adequado a pontos de vacinação pode atrasar o andamento da campanha. “Até agora, quando um novo grupo foi priorizado ou autorizado para a vacinação contra covid, os aplicadores poderiam simplesmente usar o suprimento existente para administrar a vacina”, pontua em documento. 

Filas menores e novos pontos de vacinação

“Não queremos filas de crianças”, adiantou Bernstein. A consultora avalia que crianças são pacientes mais sensíveis, que não combinam com o modelo de vacinação em massa utilizado com adultos. O foco, agora, serão locais menores, como consultórios pediátricos, hospitais infantis, farmácias e escolas. Nesse ponto, a KFF se preocupa com dois outros entraves: o tempo de formação de novos aplicadores e a preparação de novos postos de vacinação. 

“Para jovens de 12 a 17 anos, alguns Estados, como Mississippi, incentivaram os fornecedores de vacinas a fazer parceria com escolas para oferecer vacinação no local”, aponta o documento da KFF. “Ao mesmo tempo, outros têm resistido à implementação de quaisquer requisitos de combate à covid nas escolas, inclusive o uso de máscara e a testagem.”

Resistência das famílias e fake news preocupam

Um ponto crucial para atingir altas taxas de vacinação é obter a confiança de pais ou responsáveis, pois as famílias precisam consentir com a vacinação das crianças. “Os hospitais infantis e o sistema de saúde serão uma parte crítica de nossos esforços para promover a equidade e garantir o acesso para as crianças de maior risco em nosso país, incluindo aquelas com obesidade, diabetes, asma ou imunossupressão”, diz o guia de medidas da Casa Branca. 

Segundo levantamento da KFF, em setembro, cerca de um terço dos pais (34%) com filhos na faixa etária de 5 a 11 anos está ansiosa para vaciná-los. Ainda assim, outros 24% dizem que definitivamente não irão levá-los aos pontos de imunização. Os dados, em relação a julho, aponta a KFF, representam o aumento na confiança da vacina, pois, naquele mês, as mesmas taxas eram de, respectivamente, 26% e 25%. 

A desinformação e as fake news que circulam nas redes sociais têm sido apontadas como vilões no combate à pandemia. No Brasil, boatos que relacionavam a vacina contra a covid-19 e mortes em adolescentes atrapalharam a imunização nesta faixa etária, que chegou a ser temporariamente suspensa pelo Ministério da Saúde. 

Diversidade étnica é outro desafio

Conforme a KFF, o governo americano deve estar atento à diversidade étnica desse contingente de 28 milhões de pessoas. Mais da metade do grupo etário é formado por crianças não brancas, a maioria é negra (14%) ou hispânica (26%). A KFF aponta que, ao longo da vacinação contra covid, negros e hispânicos tiveram menos probabilidade de serem vacinados em comparação com brancos, embora as disparidades tenham diminuído com o tempo. Nesse sentido, indica a importância de levantar dados sobre as disparidades e contar com a ajuda de lideranças comunitárias. 

“No nível federal, atualmente não há dados disponíveis sobre vacinações por raça, etnia e idade, e poucos Estados relatam essas informações”, pontua o relatório da organização. “Sem esses dados, as disparidades permanecerão invisíveis e mais difíceis de resolver.”

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