PM pode arrombar porta de quem dificultar trabalho de agente

Decreto do governador Sérgio Cabral Filho classifica epidemia de dengue no Rio como 'situação de emergência'

Gustavo Miranda, estadao.com.br

26 de março de 2008 | 08h52

O governo estadual do Rio de Janeiro lançou mão de mais uma arma contra a epidemia de dengue que assola o Estado. A partir desta quarta-feira, 26, o governador Sérgio Cabral Filho autorizou os agentes de saúde credenciados a entrar em imóveis mesmo que sem a permissão do proprietário. De acordo com decreto publicado na terça-feira, no Diário Oficial do Rio de Janeiro, os agentes estão autorizados a chamar a Polícia Militar e até a convocar um chaveiro para arrombar o imóvel cujo proprietário se negar a abrir a porta.     VEJA TAMBÉM  Especial - A ameaça da dengue Cariocas terão cartão para acompanhar evolução da dengue Ministério vai contratar 660 para enfrentar dengue no Rio Temporão critica 'saúde precária' da Prefeitura do Rio Para infectologista, SP corre risco de epidemia de dengue Para governo, dengue cresce no Rio por falta de agentes Dengue atinge status de epidemia no Rio   O mesmo decreto põe o Estado em "situação de emergência e catástrofe" e classifica a epidemia de dengue que assola o Rio de Janeiro como um dos "principais problemas de saúde pública do mundo". No Estado, há 32.615 casos confirmados da doença e 47 mortes confirmadas em decorrência da dengue, desde janeiro deste ano. O Estado vem enfrentando nas últimas semanas um aumento vertiginoso do número de casos da doença, que atualmente apresenta uma taxa de 346 casos por 100 mil habitantes - média superior aos 300 casos por 100 mil habitantes sugeridos como dentro dos padrões estabelecidos pelo Ministério da Saúde.   O decreto vigora nas áreas "afetadas pelo desastre". Além do município, a lei vale para Campos, Angra, Natividade, Cantagalo, Belford Roxo, Caxias, Nilópolis, Niterói e São Gonçalo. "Caso o imóvel esteja vazio, o agente não pode entrar na primeira visita, e deixa aviso de retorno. Caso na segunda vez o responsável não seja encontrado, os agentes deixarão outra notificação e, na terceira vez, o imóvel será aberto". O agente de saúde poderá ser administrativamente responsabilizado se fizer vista grossa para o imóvel fechado. Depois de três meses, o decreto pode ser reeditado por mais 90 dias.   Na terça-feira, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, afirmou que pretende enviar até 400 homens das Forças Armadas para atuar em duas frentes (identificação dos focos e atendimento a pacientes). O número de pessoas contaminadas pela dengue no município do Rio nos primeiros meses de 2008 ultrapassou o registrado em todo o ano passado. O site da Secretaria Municipal da Saúde informou que 26.688 casos foram notificados em 13 semanas deste ano. Nos 12 meses de 2007 foram 25.107 notificações. O número de mortos pela doença também subiu na terça-feira, 25, para 31. Os dados do Estado serão atualizados nesta quarta-feira.   O índice de letalidade da dengue hemorrágica no município é ainda maior do que aquele divulgado pelo ministro José Gomes Temporão, na segunda-feira (5%). No Rio, quase um terço (29,4%) das pessoas que desenvolveram a dengue na forma mais grave morreram da doença neste ano. Foram registrados 68 casos de dengue hemorrágica e 20 desses pacientes morreram. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera aceitável índice de óbito até 1%.   Superlotação   Com média de 500 atendimentos diários de casos de dengue, o Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio, montou esquema especial para receber pacientes com suspeita de dengue. Eles são reunidos num auditório com ar-condicionado, onde é medida febre e pressão arterial.   De lá, vão para o laboratório testar as plaquetas. Os casos mais graves seguem para hidratação ou até mesmo internação. A epidemia provocou um crescimento de 70% do público que procura a emergência da unidade. A maioria é de moradores de Jacarepaguá, com o maior número de focos do mosquito transmissor, o Aedes aegypti. O sistema diminuiu o tempo de espera para atendimento, mas, mesmo assim, ontem ainda levava em média duas horas.   Já a coordenadora da Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) em Santa Cruz, também na zona oeste, a major do Corpo de Bombeiros Ana Ciarlini, comanda uma operação de guerra para dividir a pequena equipe de quatro clínicos gerais e três pediatras a fim de atender pacientes de rotina e vítimas da epidemia. "No mês passado diagnosticamos 500 casos de dengue e neste mês a tendência é de crescimento. Para piorar, um clínico e um pediatra entraram em licença médica hoje (terça-feira) porque estão com dengue", contou.   Com a rede hospitalar precária, a zona oeste do Rio mostra que os esquemas montados por Estado e prefeitura talvez não suportem o aumento da demanda no caso de crescimento da epidemia. Na UPA de Campo Grande houve bate-boca entre pacientes e médicos. "Meu filho está com crise de asma e fui informada de que não há previsão de atendimento, pois a prioridade é para quem corre risco de morte. Vou me endividar, mas vou ter que ir a um hospital particular", reclamou a dona de casa Alessandra da Silva Assis, de 30 anos, que deixou a unidade após discutir com médicos, com o filho Cauã, de um ano, no colo.   Queda-de-braço política   A troca de críticas e acusações entre as três esferas de governo - municipal, estadual e federal - por causa da epidemia de dengue está solta. Na terça-feira, o governador do Rio, Sérgio Cabral Filho (PMDB), afirmou que o trabalho de prevenção da dengue na capital "não aconteceu" e que agora não vai "ficar chorando o leite derramado". "Isso já passou, não adianta ficar reclamando. Tudo que acontecer dentro do Estado nós também temos responsabilidade. Não adianta ficar buscando culpado neste momento. A hora é de trabalhar e resolver o problema", declarou.   Em referência direta à prefeitura, ele criticou a falta de cobertura do Programa Saúde da Família na cidade. "Temos mais de 13 anos de crises consecutivas. Acho que é um trabalho de formiguinha que o município tem que fazer. Não pode ter ação de espasmo, tem que ser permanente." Cabral disse que recomendou ao secretário da Saúde, Sérgio Côrtes, que procure o secretário municipal da Saúde de Campo Grande. Apesar da epidemia do ano passado, a capital de Mato Grosso do Sul só registrou um óbito.   Já o secretário da Saúde do município, Jacob Kligerman, insistiu que o número de casos vai cair. Kligerman reconheceu que "ninguém previa um volume tão grande de dengue hemorrágica" nem "uma situação tão grave em relação a crianças".   (Colaborou Clarissa Thomé e Felipe Werneck, de O Estado de S. Paulo)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.