Poder da fofoca para mudar opiniões surpreende cientistas

Mesmo quando têm a informação correta, pessoas ajustam sua percepção para levar em conta a opinião alheia

Carlos Orsi, estadao.com.br

15 de outubro de 2007 | 19h15

Uma pessoa pode ter bons motivos para acreditar que você é honesto, mas ainda assim desistir de lhe dar confiança num momento crítico se ouvir uma única fofoca negativa a seu respeito.  Esse "forte potencial manipulador da fofoca" é a principal conclusão - considerada "surpreendente" pelos estudiosos - de uma pesquisa realizada por biólogos e matemáticos alemães e publicada nesta semana na edição online do periódico Proceedings of the National Academy os Sciences.   Para realizar o estudo, os cientistas recrutaram 126 estudantes e os submeteram a uma maratona de jogos onde, a cada rodada, os participantes eram divididos em duplas e recebiam a opção de "cooperar" ou "desertar". Com um capital de 10 euros (R$ 25), o jogador que decidisse cooperar perderia 1,25 euro (R$ 3) e faria com que o colega de dupla recebesse 2 euros (R$ 5).   Se ambos cooperassem, cada um terminaria a rodada com lucro de 0,75 euro (R$ 2), saldo final correspondente a R$ 27. Se os dois desertassem, ninguém ganharia nem perderia nada. Se um cooperasse e o outro desertasse, o desertor terminaria a rodada com o equivalente a R$ 30, e o cooperador amargaria um saldo final correspondente a R$ 22. Dadas as regras, desertar parece a decisão mais inteligente, exceto por dois fatores - primeiro, o outro jogador também sabe disso; segundo, o experimento levava em conta a construção de reputações.   "A teoria da reciprocidade indireta afirma que você deve levar em conta a reputação das outras pessoas, para dirigir sua ajuda para as pessoas que ajudam", explica o biólogo Ralf D. Sommerfeld, do Departamento de Ecologia Evolucionária do Instituto Max Planck da Alemanha e principal autor do trabalho. "Em outras palavras: quem dá, recebe".   Sommerfeld diz que o princípio já havia sido testado em experimentos onde os participantes tinham acesso a informações precisas sobre o comportamento pregresso uns dos outros. Faltava estudar uma variável presente na sociedade, mas até então ausente do laboratório: fofoca.   "Em uma situação natural é improvável que possamos observar todas as pessoas com quem interagimos todo o tempo. É particularmente impossível 'ter estado observando' pessoas com quem só vamos interagir no futuro", pondera. "Antropólogos e biólogos evolucionários supunham que essa informação (que não vem da observação) é adquirida por meio da fofoca".   Segundo o pesquisador, o novo estudo confirma a hipótese de que a fofoca transmite informação, e que essa informação é levada a sério. Só não se esperava que fosse levada tão a sério.   Em uma das rodadas do jogo, os participantes receberam relatórios com todas as jogadas anteriores feitas pelos colegas - quantas deserções e quantas cooperações - além de uma fofoca artificial, que podia ser tanto positiva quanto negativa. A expectativa dos cientistas era de que, tendo o relatório para se basear, os jogadores ignorariam a fofoca na hora de decidir como interagir com o colega.   A suposição se mostrou falsa: 44% dos participantes do jogo mudaram de decisão ao tomar conhecimento da fofoca. Desses, 79% (ou 35% do total) decidiram cooperar sob a influência de fofoca positiva ou desertar na presença de fofoca negativa. "Fofoca tem um forte potencial para manipulação, que pode ser usado por trapaceiros para mudar a reputação de terceiros ou a própria", diz o estudo.   Com o nível de cooperação médio do jogo na ausência de fofoca em 62%, a presença de fofoca positiva elevou a taxa a 75%. Já a de fofoca negativa reduziu-a a 50%.   "De acordo com a teoria, não esperaríamos efeito nenhum", disse Sommerfeld. "Se uma pessoa sabe exatamente o que a outra fez,  o que os outros dizem não deveria importar. No entanto, parece que as pessoas adaptam suas percepções pessoais de um certo comportamento à 'percepção geral' da população. Ajustamos nossas opiniões de acordo com a opinião dos outros".

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