Alex de Jesus/O Tempo
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População contaminada pelo coronavírus em BH é duas vezes e meia maior que no estado, diz pesquisa

Minas Gerais tem 21 milhões de habitantes, enquanto na capital são 2,5 milhões de pessoas

Leonardo Augusto, Especial para o Estadão

23 de junho de 2020 | 10h00

BELO HORIZONTE - A população contaminada pelo novo coronavírus em Belo Horizonte é duas vezes e meia maior que os registros confirmados de infectados em todo o estado conforme aponta pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que tem como base amostras de esgoto coletadas em 17 pontos da cidade nas duas bacias que cortam o município (Ribeirão Arrudas e Ribeirão do Onça). Minas Gerais tem 21 milhões de habitantes, enquanto na capital são 2,5 milhões de pessoas.

O levantamento da UFMG, que leva em conta as semanas epidemiológicas, mostrou que, processada a coleta mais recente, finalizada em 12 de junho, mais de 50 mil pessoas estavam contaminadas pelo vírus na cidade. Na mesma data, conforme o boletim diário da Secretaria de Estado de Saúde, o total de infectados em todo o estado de Minas Gerais era de 20.106 casos.

Na data da coleta, o número de casos confirmados na capital era de 3.028. Nessa comparação, a cidade tinha, conforme o estudo da universidade, quase 17 vezes mais casos que todo o estado. As amostras foram recolhidas em 8 pontos da bacia do Onça, 7 pontos na bacia do Arrudas e em pontos de entrada das estações de tratamento de esgoto que existem nos dois ribeirões.

Segundo uma das professoras da UFMG responsáveis pelo estudo, Juliana Calábria, do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da escola, as amostras identificaram material genético do novo coronavírus a partir de fezes e urina da população. "É uma forma de testagem indireta", diz a especialista.  "Se foi encontrado no esgoto, é porque as pessoas estão excretando o novo coronavírus", explica.

Procurada pelo Estadão, a Prefeitura de Belo Horizonte se posicionou por meio de nota. "A tomada de decisões para políticas de enfrentamento à pandemia do Coronavírus em Belo Horizonte leva em consideração os números qualificados pela Secretaria Municipal de Saúde. Os casos divulgados no Boletim Epidemiológico e Assistencial se referem a pessoas sintomáticas e com a COVID confirmada por meio de exame laboratorial. Já a pesquisa da Universidade Federal de Minas traça uma estimativa indireta que inclui os casos assintomáticos, que são mais de 80% dos portadores do coronavírus. A Secretaria Municipal de Saúde destaca que nos pontos de amostragem não se pode separar de maneira clara e objetiva a carga viral decorrente da capital e de Contagem. Por isso, a SMSA sugeriu aos pesquisadores que nas próximas coletas fossem estabelecidos pontos mais definidos. A Prefeitura reconhece a importância destes estudos que possibilitam o acúmulo de conhecimentos que podem nortear as políticas públicas."

O diagnóstico apresentado pela UFMG é feito utilizando-se o volume total de esgoto que entra no sistema dividido pelo que cada morador da cidade que contribui para a rede expele individualmente. Esse número relativo a cada habitante é referencial e determinado a partir de estudos laboratoriais. "Assim, dividimos a carga viral que chega nas estações de tratamento de esgoto pela carga viral individual, e alcançamos um bom grau de segurança nas estimativas", diz o professor Carlos Chernicharo, também responsável pelo estudo.

A diferença entre o número de casos projetados pela coleta das amostras no esgoto e os registrados pela Secretaria de Estado de Saúde ocorre porque os resultados alcançados a partir do trabalho da UFMG captam moradores da cidade assintomáticos para a doença e os que apresentam os sintomas. No caso dos registros da Secretaria de Estado de Saúde, os números espelham apenas os que apresentam os sintomas e procuram tratamento.

O resultado é mais uma prova da baixa testagem registrada no estado. "Todos os países que conseguiram conter minimamente a disseminação do vírus fizeram testagem muito alta, para implementação  de medidas de isolamento", afirma a professora da UFMG.

Em alta

Os dados da UFMG mostram que o número de infectados em Belo Horizonte vem aumentando de forma bastante expressiva. O levantamento da semana anterior da universidade apontava para 20 mil pessoas com o vírus, contra as 50 mil apontadas como infectadas pelos números da edição mais recente da pesquisa. "A curva epidêmica ainda está subindo. As medidas de isolamento e distanciamento devem ser mantidas", alerta a professora."Não é hora de as pessoas saírem às ruas achando que a pandemia está acabando", acrescenta a especialista.

Outra prova do avanço da disseminação do novo coronavírus na cidade é que, no levantamento que pegou como base as amostras coletadas na semana epidemiológica encerrada no dia 12 de junho, pela primeira vez 100% das amostras da bacia do Arrudas continham o material genético do novo coronavírus. Na semana anterior, o material foi encontrado em 86% das amostras. Quanto à coleta na bacia do Onça, 100% do material enviado aos laboratório dá positivo desde a semana epidemiológica encerrada em 29 de maio, ou seja, há quase um mês.

Os estudos alcançam a população atendida por coleta de esgoto de 102 bairros da cidade, e envolve 14 córregos das duas bacias. "Estamos em contato com a Secretaria de Saúde para informar sobre quais regiões apresentam aumento e ajudar na adoção de medidas para evitar a disseminação do vírus", relata a professora Juliana.

O balanço de hoje, 22, da Secretaria de Estado da Saúde registra 28.918 casos confirmados de covid-19 no estado, 1277 a mais que os 27.641 do relatório divulgado neste domingo, 21. O número de mortes passou de 661 para 688. Na capital, o total de casos é de 4.332 com 96 mortes. Ontem eram 3.987. O relatório de hoje não registra nenhuma morte na capital em relação a este domingo. O acompanhamento da presença do novo coronavírus no esgoto de Belo Horizonte é feito pela UFMG, a Agência Nacional de Águas (ANA), em parceria com o Instituto Mineiro de Gestão das Aguas (Igam) e da Secretaria de Estado de Saúde.

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