Carlos Ezequiel Vannoni/ESTADAO
Carlos Ezequiel Vannoni/ESTADAO

Por covid, destinos turísticos do Nordeste viram 'cidades-fantasma' e polícia fiscaliza banho de mar

Praias de Pernambuco e Alagoas têm fechamento e restrição de transporte; sustento de muitos moradores, turismo tem queda de receita

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2020 | 12h00

RECIFE - O guia turístico Bruno Mendes, de 40 anos, vive em Porto de Galinhas, uma das praias mais badaladas de Pernambuco. Acostumado a conduzir visitantes por paraísos naturais, ele decidiu pegar uma câmera e sair filmando o novo cenário por lá. À beira-mar, onde guardas-sóis e banhistas disputam cada palmo de areia na alta estação, não se via ninguém. No centro comercial, idem. Até mesmo a Rua das Sombrinhas, enfeitada com adereços de frevo e queridinha da turma da selfie, estava vazia. Preocupado, ele desabafa: “Nunca vi isso aqui assim: está parecendo uma cidade-fantasma”.

Com o isolamento social e a suspensão de atividades turísticas por causa do novo coronavírus, o esvaziamento populacional é uma realidade enfrentada por vários destinos do Nordeste. Entre as medidas, há locais que só permitem entradas de moradores e proíbem expressamente o banho de mar. Para dar um mergulho, só escondido de policiais militares ou guardas-civis que fiscalizam a orla e se esforçam para retirar pessoas que não seguem as restrições.

Em Pernambuco, praias e parques estaduais estão temporariamente fechados desde a primeira semana do mês, por decreto do governador Paulo Câmara (PSB), que já foi prorrogado duas vezes. Iniciativas semelhantes também foram adotadas em outros Estados do Nordeste, como Bahia, Alagoas e Maranhão.

“Aqui, os salva-vidas estão pedindo para que as pessoas não fiquem na praia, até os surfistas precisam sair. Caso alguém se negue, aí chamam a guarda para retirar o pessoal”, conta Mendes. Localizada no município do Ipojuca, Porto de Galinhas mantém só serviços essenciais, como supermercados e farmácias, abertos. “Está tudo paralisado. A praia recebe cerca de 100 mil pessoas por mês e, de uma hora para outra, não têm mais ninguém.”

Mendes é natural de Minas e decidiu morar em Porto há seis anos, onde fatura uma média de R$ 5 mil por mês com passeios de lancha, segundo relata. Em 2019, o turismo da região já havia sofrido com o vazamento de óleo nas praias, mas foi o coronavírus quem reduziu seu ganho a zero. “O ano está bem complicado”, diz. “Consigo segurar até maio, depois disso vou ter de pescar ou arrumar outra forma para cumprir com as minhas responsabilidades. Não está entrando nada, só saindo: aluguel, energia, internet. As contas não param.”

Famosa pelas piscinas naturais de águas cristalinas e cenário paradisíaco, a Praia dos Carneiros, na cidade de Tamandaré, também virou “fantasma”. Pousadas, hotéis, bares e restaurantes cerraram as portas. Em lojas de conveniência, vendedores entregam produtos aos clientes através de janelas de proteção.

“Está vazio, vazio. Não vi 5% das pessoas que costumam frequentar a praia”, descreve o engenheiro civil Amadeu Bomman, de 29 anos, que visitou o local na semana passada. Um dos acessos à cidade foi bloqueado por caçambas, segundo moradores. Outras entradas são fiscalizadas por equipes municipais, que solicitam comprovante de residência. “É uma forma de só permitir quem tem casa por lá. Concordo com a restrição: se não tiver ação coletiva, a gente não vai combater a doença.”

Proprietário de três chalés e frequentador de Tamandaré desde a década de 1970, o aposentado Fernando Pessoa, de 64 anos, se surpreendeu com as fotos que recebeu por celular.  Na frente do condomínio, onde há mais de 200 casas, ninguém se aventurava na areia em uma manhã de céu aberto. “(A praia de) Carneiros costuma ter movimento o ano todo”, afirma. “Nunca tinha visto uma situação parecida com essa.”

O boletim do Ministério da Saúde desta terça-feira, 14, mostra 1.284 casos e 115 mortes por coronavírus em Pernambuco. Mesmo antes de confirmar seus dois primeiros casos de covid-19, equipes de vigilância em saúde da Ilha de Itamaracá, no litoral norte, fazia abordagens na estrada a carros, vans e ônibus, antes de entrar na cidade. Em rede social, a prefeitura incentiva, ainda, que a população denuncie ocorrências de desrespeitos ao isolamento social.

Em Alagoas, telefonemas de turistas vão a zero

Em Maceió, a guia turística Eliane Correia, de 57 anos, está ociosa. No verão, costuma atender cerca de 300 ligações por dia de turistas interessados em conhecer praias alagoanas. “Na baixa temporada, são 90, 80, 50 ligações… e agora está zero”, conta.

Um dos destinos mais procurados, a cerca de 127 quilômetros da capital, Maragogi está sem receber turistas, segundo conta. Em Alagoas, transportes públicos intermunicipais foram suspensos por ordem do governador Renan Filho (MDB).

“Na estrada, estão fiscalizando carros de empresas, táxis, ônibus”, relata Eliane. “Os turistas já foram todos embora, só está a população da terra. Alagoas é um Estado pobre, o turismo sustentava muito gente. Está muito difícil para todos: do vendedor de coco ao guia turístico.”

Com 776 casos confirmados e 25 óbitos na Bahia, 13 deles só na capital, o prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), mandou suspender no início do mês o comércio da orla e decretou fechamento das praias do Porto da Barra, Farol da Barra, Piatã, Itapuã, Rio Vermelho e Ribeira. Com guardas municipais destacados para fiscalizar os locais, a proibição está em vigor até o dia 18.

A medida também chegou a ser imposta em São Luís, no Maranhão, pelo prefeito Edivaldo Holanda Júnior (DEM). Já no Rio Grande do Norte, a governadora Fátima Bezerra (PT) restringiu o acesso a praia a atividades físicas individuais, como caminhadas. O Maranhão soma 630 casos, com 34 mortes. No Rio Grande do Norte, o número é de 376 casos, com 18 óbitos. 

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