Governo do Estado de São Paulo/Divulgação
Governo do Estado de São Paulo/Divulgação

Por dentro do Centro de Contingência contra covid de SP: ciência e política na pandemia

Das medidas de isolamento social às polêmicas sobre reabertura de templos ou realização da Copa América, conheça a rotina do grupo que sugere as ações de Saúde Pública no Estado

Angélica Santa Cruz, especial para o Estadão 

10 de julho de 2021 | 14h00

   

Devorador de livros, o infectologista Carlos Magno Fortaleza tem 49 anos, é professor da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu e integra o Centro de Contingência do Coronavírus do Estado de São Paulo desde a sua primeira reunião, em fevereiro do ano passado. Se tivesse que escolher uma de suas obras literárias preferidas para fazer um paralelo com o que testemunha nesse grupo de médicos que assessora o governo nas medidas de combate à covid-19, diria: “A Ilíada, com certeza! Porque é a história de uma guerra imensa, demorada, cansativa, com perdas incalculáveis – exatamente como essa pandemia. E, apesar do cenário sangrento, estamos ali acompanhados de alguns Aquiles e Ulisses da Saúde Pública”.

Toda terça-feira, às 10 horas da manhã, Fortaleza junta-se, em encontro virtual, aos outros 20 consultores que integram o Centro de Contingência. O grupo é basicamente um comitê formado por luminares da Saúde Pública recrutados para sugerir maneiras de segurar em todo o Estado os efeitos da maior pandemia dos últimos 100 anos. Todos trabalham – e muito – como consultores sem remuneração, com exceção do médico João Gabbardo, contratado pelo governador para o cargo de coordenador-executivo do grupo.

Não se pode dizer que São Paulo, com mais de 130 mil mortes, tenha se destacado no controle da covid-19 em meio à péssima média nacional. Mas se pode afirmar que sem a atuação – e muitas vezes pressão – feita por esse grupo de cientistas o Estado teria visto uma catástrofe ainda mais tenebrosa. Cálculos feitos pelo infectologista Julio Croda, professor da Faculdade da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul e também integrante do Centro de Contingência, mostram que, sem a quarentena recomendada pelo grupo no início do ano passado, o número de mortes e de ocupação de leitos de UTI poderia ter sido de dez a cem vezes maior só na Grande São Paulo.

Nesses meses de trabalho, os membros do Centro de Contingência precisaram encarar duas frentes no combate à pandemia, ambas duríssimas.

Uma delas foi a agonia de tentar conhecer uma doença nova, em uma taxa de aprendizado que avançava muito mais lentamente do que o número de contágios e mortes. A outra foi lidar com um governo premido pelas necessidades dos setores produtivos que pediam a flexibilização das regras e reabertura dos serviços – o que algumas vezes resultou em um clima tenso com o governador e até em desavenças internas.

“Agora estamos de bem, pacificados. Mas tivemos momentos difíceis”, lembra o infectologista Marcos Boulos, de 75 anos, professor da Faculdade de Medicina da USP (“e o sênior do grupo”).

Hoje, cada reunião do centro começa com uma projeção que dá um panorama da doença no Estado, com as variações da última semana, mês e ano e com comparativos entre os surtos de julho de 2020 e março de 2021. Com base nessa numeralha, os médicos calculam o quanto o contágio está subindo ou descendo nos últimos dias e horas e deliberam sobre medidas que pretendem recomendar, às vezes em debates acalorados. Em alguns casos, discutem demandas feitas por áreas do governo. Semana retrasada, por exemplo, o tema era o futebol, que queria voltar a receber público.

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Essa máquina é alimentada por grupos de apoio que produzem dados de ocupação de leitos de UTI, novas internações por dia, óbitos por semana, novos casos por cem mil habitantes a cada 14 dias divididos por região e isolamento social, medido a partir de informações de deslocamentos dos celulares.

“É um trabalho que envolve milhares de pessoas, dos funcionários dos municípios que atualizam dados às empresas de Big Data que prestaram consultoria voluntária para dar agilidade ao sistema de dados”, explica o epidemiologista e psiquiatra Paulo Menezes, professor da Faculdade de Medicina da USP e há seis meses coordenador do Centro de Contingência.

Na paralela dessa usina de dados, os médicos do grupo fuçam pesquisas e artigos internacionais e trocam experiências com médicos de outros países. Algumas vezes, formam subgrupos de estudo sobre temas específicos – já houve alguns para decidir sobre escolas, bares, visitas a presídios, eventos esportivos, cultos.

Outras vezes, a contribuição vem do que eles observam trabalhando na linha de frente. Em meados de janeiro, o infectologista Benedito Fonseca, professor da Faculdade de Medicina e coordenador do laboratório da covid-19 do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, sequenciou a primeira amostra positiva da variante Gama, também chamada de P.1 (identificada originalmente em Manaus), em um dos seus pacientes e avisou rapidamente os colegas do Centro de Contingência.

“Em pouco tempo percebemos que a nova variante estava aumentando paulatinamente, tanto que hoje é predominante em todas as regiões do Estado.” Fonseca também foi um dos primeiros a notar o aumento de pessoas mais jovens indo para UTIs. Há duas semanas, chegou na reunião com mais uma percepção: o aumento da incidência grave da doença em gestantes e puérperas.

De maneira geral, os integrantes do Centro de Contingência descrevem as reuniões como um ambiente de colaboração extrema e troca de aprendizado entre colegas renomados. O que tensiona essa convivência é que, no final das contas, as principais sugestões para conter a pandemia invariavelmente mexem num vespeiro. “E por que é um trabalho tão difícil – e já foi até pior? Porque as recomendações nunca são boas, sempre são de medidas que têm um impacto social e econômico gigantesco”, resume Paulo Menezes.

Os médicos do Centro de Contingência, claro, são afetados pela pandemia. Menezes ficou meses longe da mulher e do filho de 4 anos, para evitar risco de contágio. Julio Croda perdeu parentes e cuidou de um tio que permaneceu internado por três semanas na UTI. Rodrigo Angerami, professor de Epidemiologia e Doenças Infecciosas da Unicamp, não encontra os pais há quase dois anos e vê os dois filhos trancados em casa – além, claro, de lidar com o drama de seus pacientes. E assim por diante.

Apesar da alta carga de trabalho, os integrantes do Centro de Contingência nunca perdem do horizonte o fato de que são apenas consultores – e cabe ao governador ouvir as outras áreas e decidir o que fazer com suas recomendações. No começo na pandemia, os médicos chegaram a trabalhar em modelos de lockdown. Mas foram chamados pelo governo e avisados de que, sem o apoio do governo federal e do Exército, seria impossível bancar uma coisa assim.

Nos momentos mais críticos, fizeram várias reuniões por semana, quatro delas com o próprio governador, no período da noite. Vez por outra, esses encontros começam com os integrantes do governo reportando o desespero de algum setor para abrir ou avisando que o governador decidiu acatar um pedido.

“Cheguei a ver nas redes sociais comentários como: 'Esses caras são funcionários públicos que têm salário garantido e por isso querem fechar tudo'. Também vivemos na pele o que está acontecendo!", diz Carlos Magno Fortaleza – que, além dos dramas que presencia na linha de frente com os pacientes, sentiu a fundo os efeitos da pandemia ao ver, por exemplo, o irmão perder subitamente a fonte de renda e ter de ir morar com os sogros. "Um dos nossos momentos mais difíceis foi a recomendação da quarentena no ano passado. Sabíamos e, claro, discutíamos isso, que a medida teria consequências sociais, psicológicas e econômicas terríveis. Mas era a única maneira de evitar o colapso da Saúde que já tínhamos visto na Itália e na Espanha, com pessoas morrendo sem tratamento. Não era exercício de adivinhação.”

Ao longo dos meses, apareceram discordâncias entre os próprios médicos, sempre em torno do tema nevrálgico das medidas de isolamento social. As recomendações de Centro de Contingência saem sempre das reuniões às terças e são levadas pelos dois coordenadores do grupo, Paulo Menezes e João Gabbardo, para o Comitê de Crise. Depois, em entrevista coletiva, o governador anuncia as novas medidas.

À certa altura, os médicos entraram em modo revolta porque Doria comunicava flexibilizações contrárias às suas diretrizes e usava a frase “seguindo recomendações do Centro de Contingência”. Teve início um ruidoso mal-estar, os grupos de WhatsApp pegaram fogo.

Alguns dos médicos suspeitaram que os coordenadores não estavam levando adequadamente suas recomendações e pediram uma reunião presencial com o governo. O vice-governador, Rodrigo Garcia (PSDB), esclareceu que não era isso – Doria tomava as decisões mesmo sabendo que os médicos eram contrários. O mal-entendido foi desfeito e o climão se encerrou quando o governador começou a usar nessas situações frases como: “a despeito do Centro de Contingência ser contrário, nós vamos fazer”. Entre as medidas que aterrorizam os infectologistas estavam, por exemplo, a abertura de templos religiosos.

No começo deste ano, dois episódios embolaram de novo o meio de campo. Um deles gerou o maior desgaste com o governo desde o início do Centro de Contingência. Em dezembro, curvas já apontavam para um aumento dos estragos feitos pelo vírus. Os médicos defenderam que era hora de restringir tudo de maneira rígida, inclusive festas de fim de ano e viagens de férias. Em janeiro, entraram em conversas frenéticas com o governo, avisando: “fecha, o sistema de saúde não vai aguentar” – e aí foram ouvidos. Nos meses seguintes, de fato, os leitos de UTIs chegaram ao máximo de ocupação.

O outro imbróglio se deu no mês passado, quando os médicos souberam pela imprensa que o governador havia autorizado a realização da Copa América no Estado. Desesperados, bombardearam o governo com dados que esmiuçaram os perigos da competição. Doria, então, decidiu voltar atrás e vetá-la.

Como o Estado sempre se manteve em um platô elevado – as taxas de contágio e de mortes nunca desabaram –, os cientistas ainda correm incansavelmente nessa partida cheia de prorrogações. E há a conclusão generalizada de que, sem um plano nacional, como aconteceu em todos os países que conseguiram controlar a pandemia, São Paulo não teria feito muito mais. “O país foi uma lástima porque o nosso líder maior joga contra. Aí não tem jeito. É como entrar numa guerra com o Marechal abrindo fronteiras para os inimigos”, diz Marcos Boulos.

Também leitor voraz, o infectologista Rodrigo Angerami aponta semelhanças entre essa rotina frenética no Centro de Contingência e outro livro: Um Diário do Ano da Peste, de Daniel Defoe. “Porque é um relato duro e detalhado de uma rotina em meio a métricas e caracterizações de óbitos, à explosão de casos e de como as pessoas lidam de maneiras diferentes com os números.”

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