Por que a Ômicron não foi um 'presente de Natal'?

Embora não tenha causado o mesmo número de mortes do que outras ondas da pandemia, a sobrecarga no sistema de saúde e o surgimento de novas cepas são ameaças

Júnior Moreira Bordalo - O Estado de S.Paulo

Identificada originalmente na África do Sul em novembro, a variante Ômicron do coronavírus é responsável pela explosão de infectados com a covid-19 em várias partes do mundo, como na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil. Embora não apresente a mesma severidade do que outras ondas da pandemia, especialistas reforçam que o espalhamento da nova cepa requer cuidados e tem potencial de trazer sérios prejuízos. Por isso, não pode ser encarada como um "presente de Natal antecipado", conforme sugeriu no final de 2021 o epidemiologista e ministro da Saúde da Alemanha, Karl Lauterbach

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Veja o que já se aprendeu sobre a variante Ômicron:

Em estudos com camundongos e hamsters, a variante Ômicron produziu infecções menos nocivas, atingindo as vias aéreas superiores, como nariz, garganta e traquéia  Foto: Matias Delacroix/ AP

Sobrecarga no sistema de saúde

Em vários países, a Ômicron surpreendeu pela velocidade de contágio e a pressão sobre os sistemas de saúde foi rapidamente sentida. A França reduziu o tempo de quarentena de profissionais de saúde infectados para não desfalcar as equipes, enquanto o Reino Unido convocou militares para ajudar nos hospitais. 

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No Brasil, a Ômicron tem lotado postos de saúde e afastado profissionais da linha de frente. Diante disso, a Prefeitura de São Paulo fez a contratação emergencial de médicos, enquanto Rio e Ceará suspenderam cirurgias eletivas, para evitar sobrecarga no sistema. 

O Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) encaminhou na última quarta-feira, 12, ofício ao ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, argumentando que, caso não sejam tomadas decisões de âmbito nacional para combater a Ômicron, haverá aumento de pressão na rede hospitalar provocada, sobretudo, pelo crescimento repentino da demanda por testes, consultas e internações.

Como sua propagação é rápida, a tendência é de que o volume de internações aumente e os hospitais encontrem dificuldades de lidar com esse crescente número de casos, o que ocasionaria a elevação no número de mortes por causa da não garantia de acesso à internação.

Além disso, embora as UTIs não estejam cheias, o impacto sobre as emergências já é grande, bem como o desfalque de profissionais de saúde que adoecem. “Embora nossa população esteja em grande parte vacinada e a virulência da variante seja menor, a resiliência do nosso sistema de saúde é baixa, sobretudo diante de duas pandemias combinadas, de covid-19 e influenza (H3N2), como está acontecendo em vários lugares do País. Já estão faltando testes de diagnóstico e as filas de atendimento são enormes”, disse o infectologista Fernando Bozza, da Fiocruz, ao Estadão na semana passada. 

Casos menos graves (mas não significa que serão leves)

Grande parte das primeiras infecções pela variante Ômicron ocorreu entre jovens, que costumam adoecer menos quando contraem alguma versão do vírus. E muitos desses primeiros casos eram observados em pessoas que já apresentavam alguma imunidade, seja por já terem se infectado antes ou por terem se vacinado. 

Líder técnica da covid-19 na OMS, Maria Van Kerkhove disse que os casos da doença pelo mundo avançaram 71% no início de janeiro. Ela também apontou que a Ômicron leva, em geral, a quadros menos graves, "mas não significa que eles serão leves" necessariamente. 

Em um comunicado divulgado pela Universidade de Hong Kong em meados de dezembro, o médico Michael Chan Chi-wai, disse que “é importante notar que a gravidade da doença em humanos não é determinada apenas pela replicação do vírus”, mas também pela resposta imunológica de cada paciente à infecção, que às vezes evolui para uma inflamação que ameaça a vida.

Chan acrescentou: “Ao infectar muito mais pessoas, um vírus muito infeccioso pode causar doenças mais graves e morte, mesmo que o próprio vírus possa ser menos patogênico”.

Maior irritabilidade no trato respiratório superior

As pesquisas mostram que a Ômicron afeta com mais intensidade o trato respiratório superior do que os pulmões. O que significa dizer maior irritabilidade no nariz, seios da face e garganta. 

Essa combinação de mudanças – a preferência pela via aérea superior, evasão imunológica mais alta e grande transmissibilidade – reflete como a evolução impulsiona o vírus para garantir seu próprio futuro, mesmo que isso não deixe os indivíduos mais doentes.

“Não importa para o vírus: uma vez replicado, se a pessoa vive ou morre, desde que ele possa chegar ao próximo hospedeiro”, explica John Moore, especialista em vírus da Weill Cornell Medicine, em Nova York, Estados Unidos. “É tudo sobre a replicação do genoma.”

Em comparação com a variante Delta, a Ômicron se multiplica 70 vezes mais rapidamente nos tecidos das vias aéreas, o que pode facilitar a propagação de pessoa para pessoa, segundo informações de pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Hong Kong.

Vacinas funcionam - e a dose de reforço é importante

Pessoas com comorbidades ou sistemas imunológicos comprometidos também continuam mais vulneráveis, assim como as não vacinadas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o grupo dos não imunizados representou 80% dos casos graves da doença no início de janeiro.

Embora haja perda de eficácia dos imunizantes na prevenção de sintomas da Ômicron em relação ao que se observava com a Delta, o relatório do Reino Unido descobriu que as pessoas que receberam reforço total tinham até 88% menos probabilidade de serem hospitalizadas com a nova cepa em comparação com não vacinados.

Principal especialista em doenças infeccionas dos Estados Unidos, Anthony Fauci disse que os não vacinados são 20 vezes mais propensos a morrer, 17 vezes mais propensos a serem hospitalizados e 10 vezes mais propensos a serem infectados do que os vacinados. "E embora seja menos grave caso a caso, quando você tem quantitativamente tantas pessoas infectadas, uma fração delas vai morrer”, lembrou. 

Risco de novas variantes 

Uma onda global de infecções em um mundo onde bilhões de pessoas continuam sem vacina - sobretudo em países pobres da África, da Ásia e da América Latina - não só ameaça a saúde de indivíduos vulneráveis, mas também aumenta a oportunidade para o surgimento de ainda mais variantes. Novas cepas representam a permanência da doença e a possibilidade do enfraquecimento das vacinas. 

A Ômicron, por exemplo, desenvolveu mutações que permitem aderir mais facilmente às células humanas, e, por isso, se tornou mais contagiosa do que a Delta. Ela também é melhor em evadir os anticorpos desenvolvidos a partir das vacinas, e é por isso que está causando tantas infecções em vacinados.

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Por que a Ômicron não foi um 'presente de Natal'?

Embora não tenha causado o mesmo número de mortes do que outras ondas da pandemia, a sobrecarga no sistema de saúde e o surgimento de novas cepas são ameaças

Júnior Moreira Bordalo - O Estado de S.Paulo

Identificada originalmente na África do Sul em novembro, a variante Ômicron do coronavírus é responsável pela explosão de infectados com a covid-19 em várias partes do mundo, como na Europa, nos Estados Unidos e no Brasil. Embora não apresente a mesma severidade do que outras ondas da pandemia, especialistas reforçam que o espalhamento da nova cepa requer cuidados e tem potencial de trazer sérios prejuízos. Por isso, não pode ser encarada como um "presente de Natal antecipado", conforme sugeriu no final de 2021 o epidemiologista e ministro da Saúde da Alemanha, Karl Lauterbach

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Veja o que já se aprendeu sobre a variante Ômicron:

Em estudos com camundongos e hamsters, a variante Ômicron produziu infecções menos nocivas, atingindo as vias aéreas superiores, como nariz, garganta e traquéia  Foto: Matias Delacroix/ AP

Sobrecarga no sistema de saúde

Em vários países, a Ômicron surpreendeu pela velocidade de contágio e a pressão sobre os sistemas de saúde foi rapidamente sentida. A França reduziu o tempo de quarentena de profissionais de saúde infectados para não desfalcar as equipes, enquanto o Reino Unido convocou militares para ajudar nos hospitais. 

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No Brasil, a Ômicron tem lotado postos de saúde e afastado profissionais da linha de frente. Diante disso, a Prefeitura de São Paulo fez a contratação emergencial de médicos, enquanto Rio e Ceará suspenderam cirurgias eletivas, para evitar sobrecarga no sistema. 

O Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) encaminhou na última quarta-feira, 12, ofício ao ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, argumentando que, caso não sejam tomadas decisões de âmbito nacional para combater a Ômicron, haverá aumento de pressão na rede hospitalar provocada, sobretudo, pelo crescimento repentino da demanda por testes, consultas e internações.

Como sua propagação é rápida, a tendência é de que o volume de internações aumente e os hospitais encontrem dificuldades de lidar com esse crescente número de casos, o que ocasionaria a elevação no número de mortes por causa da não garantia de acesso à internação.

Além disso, embora as UTIs não estejam cheias, o impacto sobre as emergências já é grande, bem como o desfalque de profissionais de saúde que adoecem. “Embora nossa população esteja em grande parte vacinada e a virulência da variante seja menor, a resiliência do nosso sistema de saúde é baixa, sobretudo diante de duas pandemias combinadas, de covid-19 e influenza (H3N2), como está acontecendo em vários lugares do País. Já estão faltando testes de diagnóstico e as filas de atendimento são enormes”, disse o infectologista Fernando Bozza, da Fiocruz, ao Estadão na semana passada. 

Casos menos graves (mas não significa que serão leves)

Grande parte das primeiras infecções pela variante Ômicron ocorreu entre jovens, que costumam adoecer menos quando contraem alguma versão do vírus. E muitos desses primeiros casos eram observados em pessoas que já apresentavam alguma imunidade, seja por já terem se infectado antes ou por terem se vacinado. 

Líder técnica da covid-19 na OMS, Maria Van Kerkhove disse que os casos da doença pelo mundo avançaram 71% no início de janeiro. Ela também apontou que a Ômicron leva, em geral, a quadros menos graves, "mas não significa que eles serão leves" necessariamente. 

Em um comunicado divulgado pela Universidade de Hong Kong em meados de dezembro, o médico Michael Chan Chi-wai, disse que “é importante notar que a gravidade da doença em humanos não é determinada apenas pela replicação do vírus”, mas também pela resposta imunológica de cada paciente à infecção, que às vezes evolui para uma inflamação que ameaça a vida.

Chan acrescentou: “Ao infectar muito mais pessoas, um vírus muito infeccioso pode causar doenças mais graves e morte, mesmo que o próprio vírus possa ser menos patogênico”.

Maior irritabilidade no trato respiratório superior

As pesquisas mostram que a Ômicron afeta com mais intensidade o trato respiratório superior do que os pulmões. O que significa dizer maior irritabilidade no nariz, seios da face e garganta. 

Essa combinação de mudanças – a preferência pela via aérea superior, evasão imunológica mais alta e grande transmissibilidade – reflete como a evolução impulsiona o vírus para garantir seu próprio futuro, mesmo que isso não deixe os indivíduos mais doentes.

“Não importa para o vírus: uma vez replicado, se a pessoa vive ou morre, desde que ele possa chegar ao próximo hospedeiro”, explica John Moore, especialista em vírus da Weill Cornell Medicine, em Nova York, Estados Unidos. “É tudo sobre a replicação do genoma.”

Em comparação com a variante Delta, a Ômicron se multiplica 70 vezes mais rapidamente nos tecidos das vias aéreas, o que pode facilitar a propagação de pessoa para pessoa, segundo informações de pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Hong Kong.

Vacinas funcionam - e a dose de reforço é importante

Pessoas com comorbidades ou sistemas imunológicos comprometidos também continuam mais vulneráveis, assim como as não vacinadas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o grupo dos não imunizados representou 80% dos casos graves da doença no início de janeiro.

Embora haja perda de eficácia dos imunizantes na prevenção de sintomas da Ômicron em relação ao que se observava com a Delta, o relatório do Reino Unido descobriu que as pessoas que receberam reforço total tinham até 88% menos probabilidade de serem hospitalizadas com a nova cepa em comparação com não vacinados.

Principal especialista em doenças infeccionas dos Estados Unidos, Anthony Fauci disse que os não vacinados são 20 vezes mais propensos a morrer, 17 vezes mais propensos a serem hospitalizados e 10 vezes mais propensos a serem infectados do que os vacinados. "E embora seja menos grave caso a caso, quando você tem quantitativamente tantas pessoas infectadas, uma fração delas vai morrer”, lembrou. 

Risco de novas variantes 

Uma onda global de infecções em um mundo onde bilhões de pessoas continuam sem vacina - sobretudo em países pobres da África, da Ásia e da América Latina - não só ameaça a saúde de indivíduos vulneráveis, mas também aumenta a oportunidade para o surgimento de ainda mais variantes. Novas cepas representam a permanência da doença e a possibilidade do enfraquecimento das vacinas. 

A Ômicron, por exemplo, desenvolveu mutações que permitem aderir mais facilmente às células humanas, e, por isso, se tornou mais contagiosa do que a Delta. Ela também é melhor em evadir os anticorpos desenvolvidos a partir das vacinas, e é por isso que está causando tantas infecções em vacinados.

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