EFE/EPA/SALVATORE DI NOLFI
EFE/EPA/SALVATORE DI NOLFI

Por que a OMS não decreta pandemia de coronavírus?

Possível mudança dos países no esforço para conter doença é justificativa; posição divide especialistas e autoridades

Giovana Girardi e Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2020 | 05h00

SÃO PAULO - A ocorrência de cada vez mais casos do novo coronavírus e seu aparecimento em cada vez mais países têm feito muita gente questionar se já não estamos vivendo uma pandemia. A dúvida foi levantada diversas vezes na coletiva de imprensa da Organização Mundial da Saúde (OMS) nesta segunda-feira, 9, e já tinha aparecido em outras ocasiões.

A covid-19 está espalhada por mais de cem países, já foi confirmada em cerca de 110 mil pessoas e é transmitida localmente em 61 países. Nesta segunda, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que, diante deste quadro, “a ameaça de uma pandemia é real”. A organização, porém, não tem uma regra clara do que faz uma doença ser considerada uma pandemia.

Em linhas gerais, é pandemia uma doença espalhada em todo o mundo, que afeta um grande número de pessoas e que tenha transmissão sustentada de novos casos nesses locais. Não há, no entanto, um número fixo de casos ou de países afetados para que a situação seja caracterizada.

Em 2009, por exemplo, a OMS declarou pandemia de gripe H1N1 quando o surto estava menos disseminado do que o atual. Na época, o cenário foi declarado dois meses após o início da epidemia, quando havia 30 mil casos confirmados e 74 países com circulação do vírus.

A declaração ou não de pandemia divide especialistas. O Ministério da Saúde do Brasil, por exemplo, já pediu pelo menos duas vezes à OMS para atualizar a classificação. “Esta mudança (para pandemia) vai implicar numa redução de busca de relação com o local provável de infecção e vai nos permitir focar principalmente nos grupos etários mais vulneráveis, que são adultos com mais de 60 anos”, afirmou o secretário de Vigilância da Saúde do ministério, Wanderson Kleber de Oliveira no fim de fevereiro, quando o risco de dispersão no mundo foi elevado de alto para muito alto.

A justificativa da OMS é que a mudança de status pode alterar a forma como os países estão hoje lutando contra a doença. Neste momento, ainda há um grande esforço para tentar conter a dispersão da doença por todo o mundo. A China fez isso com Wuhan, isolando a cidade que foi o epicentro da epidemia, e com isso conseguiu evitar que mas províncias do país vivessem o problema com a mesma dimensão.

A Itália começou a adotar medidas dramáticas de restrição de movimentação de seus habitantes neste domingo. Em todo o mundo, eventos estão sendo cancelados, escolas fechadas, grandes concentrações de pessoas inibidas a fim de tentar evitar a dispersão.

Para a OMS, há o temor de que, ao declarar a pandemia, os países relaxem esses esforços e comecem a atuar somente na mitigação do problema, tentando evitar o pior. Se vivemos uma pandemia, para que se esforçar em conter o vírus, eles podem se perguntar, na visão daorganização.

Ghebreyesus defende que, mesmo se for considerada uma pandemia, a atitude não deveria mudar.  “Seria a primeira pandemia na história que poderia ser controlada. Não estamos à mercê deste vírus”, declarou.

“Não temos problema com a palavra, ela é importante, mas pode fazer com que os países comecem a agir só na mitigação de casos. A palavra não é o problema, mas qual vai ser a reação do mundo: usar isso como uma chamada para agir ou vão desistir?”, disse o diretor executivo do programa de emergências da OMS, Michael Ryan.

Ghebreyesus frisou que independentemente dessa definição, “a regra do jogo é nunca desistir” em tentar desacelerar a expansão de casos. A ideia é que ao retardar o máximo possível a expansão de novos casos é possível dar mais tempo para que as cidades e estados possam se preparar para a chegada de casos. E que, acima de tudo, não cheguem muitos pacientes ao mesmo tempo aos hospitais, sob risco de colapso do sistema.

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