FELIPE RAU/ESTADAO
FELIPE RAU/ESTADAO

Por que a pandemia simultânea de covid-19 e gripe talvez nunca ocorra

Exposição a um vírus respiratório pode colocar as defesas imunológicas do corpo em alerta máximo, impedindo que outros invasores entrem nas vias aéreas

Apoorva Mandavilli, The New York Times

15 de abril de 2022 | 15h00

Uma teoria intrigante pode ajudar a explicar por que a gripe e a covid-19 nunca atingiram um mesmo país simultaneamente – a chamada pandemia-gêmea que muitos especialistas em saúde pública temiam. A ideia é que não foram apenas as máscaras, o distanciamento social ou outras restrições pandêmicas que fizeram com que a gripe e outros vírus respiratórios desaparecessem enquanto o coronavírus reinava – e ressurgissem à medida que a covid recuava.

Em vez disso, a exposição a um vírus respiratório pode colocar as defesas imunológicas do corpo em alerta máximo, impedindo que outros invasores entrem nas vias aéreas. Esse fenômeno biológico, chamado de interferência viral, pode limitar a quantidade de vírus respiratórios circulando em determinada região a qualquer momento.

“Meu pressentimento – e meu sentimento baseado na nossa pesquisa recente – é que a interferência viral existe de fato”, disse a Dra. Ellen Foxman, imunologista da Escola de Medicina de Yale. “Não acho que veremos o pico da gripe e do coronavírus ao mesmo tempo”.

No nível individual, disse ela, pode haver algumas pessoas que acabam infectadas com dois ou até três vírus ao mesmo tempo. Mas, no nível populacional, de acordo com essa teoria, um vírus tende a superar os outros. Ainda assim, ela alertou: “O sistema de saúde pode ficar sobrecarregado bem antes que se atinja o limite superior de circulação, como mostrou a onda Ômicron”.

A interferência viral pode ajudar a explicar os padrões de infecção observados em grandes populações, incluindo aqueles que podem surgir à medida que o coronavírus se torna endêmico. Mas a pesquisa ainda está nos seus primórdios, e os cientistas ainda estão tentando entender como ela funciona.

Antes de o coronavírus se tornar uma ameaça global, a gripe estava entre as infecções respiratórias graves mais comuns a cada ano. Na temporada 2018-2019, por exemplo, a gripe foi responsável por 13 milhões de consultas médicas, 380 mil internações e 28 mil mortes.

A temporada de gripe 2019-2020 estava se encerrando quando o coronavírus começou a se espalhar pelo mundo, então não ficou claro como os dois vírus poderiam influenciar um ao outro. Muitos especialistas temiam que os vírus colidissem no ano seguinte em hospitais lotados pela pandemia-gêmea.

Essas preocupações não se concretizaram. Apesar de um pequeno esforço para aumentar a vacinação contra a gripe, os casos permaneceram excepcionalmente baixos durante a temporada de gripe 2020-2021, enquanto o coronavírus continuava a circular, de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças.

Apenas 0,2% das amostras deram positivo para influenza de setembro a maio, em comparação com cerca de 30% nas últimas temporadas, e as hospitalizações por gripe foram as mais baixas já registradas desde que a agência começou a coletar esses dados, em 2005.

Muitos especialistas atribuíram a temporada livre de gripe às máscaras, ao distanciamento social e à quarentena – especialmente nos casos de crianças pequenas e adultos mais velhos, ambos os grupos com maior risco de gripe grave. Os números da gripe aumentaram um ano depois, na temporada 2021-2022, quando muitos estados dispensaram as restrições, mas os números ainda eram inferiores à média pré-pandemia.

Até agora este ano, o país registrou cerca de 5 milhões de casos, 2 milhões de consultas médicas e menos de 65 mil hospitalizações e 5.800 mortes relacionadas à gripe. Em vez disso, o coronavírus continuou dominando os invernos, muito mais comum que o vírus da gripe, o vírus sincicial respiratório, o rinovírus e o vírus do resfriado comum.

O vírus sincicial respiratório geralmente surge em setembro e atinge o pico do final de dezembro a fevereiro, mas a pandemia distorceu seu padrão sazonal. Ele permaneceu baixo durante todo o ano de 2020 e atingiu seu pico no verão de 2021 – quando o coronavírus despencara a seus níveis mais baixos desde o início da pandemia.

A noção de que existe uma espécie de interação entre os vírus surgiu pela primeira vez na década de 1960, quando as vacinas contra a poliomielite, que contêm poliovírus enfraquecidos, reduziram significativamente o número de infecções respiratórias. A ideia ganhou novo terreno em 2009: a Europa estava preparada para um aumento nos casos de gripe suína no final daquele verão, mas, quando as escolas reabriram, os resfriados de rinovírus pareceram de alguma forma interromper a epidemia de gripe.

“Na época, isso levou muitas pessoas a especular sobre essa ideia de interferência viral”, disse Foxman. Mesmo em um ano típico, o pico do rinovírus ocorre em outubro ou novembro e depois só em março, em ambas as extremidades da temporada de gripe.

No ano passado, uma equipe de pesquisadores começou a estudar o papel de uma resposta imune existente no combate ao vírus da gripe. Como seria antiético infectar deliberadamente crianças com gripe, eles deram às crianças da Gâmbia uma vacina com uma cepa enfraquecida do vírus.

A infecção por vírus desencadeia uma complexa cascata de respostas imunes, mas a primeira defesa vem de um conjunto de defensores não específicos chamados interferons. As crianças que já tinham altos níveis de interferon acabaram com muito menos vírus da gripe em seus corpos do que aquelas com níveis mais baixos de interferon, descobriu a equipe. As descobertas sugeriram que infecções virais anteriores preparavam o sistema imunológico das crianças para combater o vírus da gripe.

“A maioria dos vírus que vimos nessas crianças antes de dar a vacina eram rinovírus”, disse o Dr. Thushan de Silva, especialista em doenças infecciosas da Universidade de Sheffield, na Inglaterra, que liderou o estudo.

Essa dinâmica pode explicar pelo menos em parte por que as crianças, que tendem a ter mais infecções respiratórias do que os adultos, parecem menos propensas a se infectar com o coronavírus. A gripe também pode prevenir infecções por coronavírus em adultos, disse o Dr. Guy Boivin, especialista em vírus e em doenças infecciosas da Universidade Laval, no Canadá.

Estudos recentes mostraram que as coinfecções de gripe e coronavírus são raras, e as pessoas com infecção ativa por influenza têm quase 60% menos probabilidade de testar positivo para coronavírus, observou ele.

“Agora vemos um aumento na atividade da gripe na Europa e na América do Norte, e será interessante ver se isso leva a uma diminuição na circulação do SARS-CoV-2 nas próximas semanas”, disse ele.

Os avanços da tecnologia na última década viabilizaram a apresentação da base biológica dessa interferência. A equipe de Foxman usou um modelo de tecido das vias aéreas humanas para mostrar que a infecção por rinovírus estimula os interferons que podem afastar o coronavírus.

“A proteção é transitória por um certo período de tempo enquanto você tem a resposta do interferon desencadeada pelo rinovírus”, disse o Dr. Pablo Murcia, especialista em vírus do Centro MRC de Pesquisa de Vírus da Universidade de Glasgow, cuja equipe encontrou resultados semelhantes.

Mas Murcia também descobriu uma distorção na teoria da interferência viral: um ataque com o coronavírus não parecia impedir a infecção por outros vírus. Isso pode ter algo a ver com a habilidade do coronavírus em evadir as defesas iniciais do sistema imunológico, disse ele.

“Em comparação com a gripe, o coronavírus tende a ativar menos esses interferons antivirais”, disse De Silva. Essa descoberta sugere que faz diferença qual vírus aparece primeiro em determinada população.

De Silva e seus colegas coletaram dados adicionais da Gâmbia – que não tinha restrições relacionadas à pandemia que pudessem afetar os padrões virais observados – indicando que o rinovírus, o influenza e o coronavírus atingiram o pico em momentos diferentes entre abril de 2020 e junho de 2021. Esses dados “me deixaram um pouco mais convencido de que a interferência pode desempenhar um papel importante”, disse ele.

Ainda assim, o comportamento dos vírus pode ser muito influenciado por sua rápida evolução e por restrições sociais e padrões de vacinação. Portanto, é improvável que o potencial impacto da interferência viral se torne aparente até que o coronavírus se submeta a um padrão endêmico previsível, disseram especialistas.

O vírus sincicial respiratório, o rinovírus e o vírus da gripe coexistem há anos, observou a Dra. Nasia Safdar, especialista em infecções associadas à assistência de saúde da Universidade de Wisconsin-Madison.

“É o que vai acabar acontecendo com este vírus também: o coronavírus vai se tornar um dos muitos vírus que circulam por aí”, disse Safdar. Alguns vírus podem atenuar os efeitos dos outros, disse ela, mas os padrões talvez não fiquem aparentes de imediato.

Observando os coronavírus do resfriado comum, alguns pesquisadores previram que o SARS-CoV-2 se tornará uma infecção sazonal de inverno que pode coincidir com a gripe. Mas o coronavírus que causa a covid-19 já se mostrou diferente de seus primos.

Por exemplo, o SARS-CoV-2 raramente é visto em coinfecções, enquanto um dos quatro coronavírus do resfriado comum aparece com frequência em coinfecções com os outros três.

“É o tipo de exemplo interessante que nos faz hesitar em fazer generalizações sobre outros vírus”, disse Jeffrey Townsend, bioestatístico da Escola de Saúde Pública de Yale que estudou os coronavírus e suas sazonalidades. “Essas coisas parecem específicas para cada vírus”.

*Este artigo foi originalmente publicado no New York Times. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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