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Por que alguém não se vacinaria contra a covid-19?

Apesar de nossos políticos e graças ao Instituto Butantã e à Fundação Oswaldo Cruz, a Anvisa aprovou as vacinas fabricadas pela Sinovac chinesa e pela Astra Zeneca/Oxford inglesa

Gonzalo Vecina*, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2021 | 05h00

Habemus Vaccinum. O Brasil está de parabéns, o Butantã, a Fiocruz e a Anvisa estão de parabéns. Apesar de nossos políticos e graças ao Instituto Butantã e à Fundação Oswaldo Cruz, a Anvisa aprovou as vacinas fabricadas pela Sinovac chinesa e pela Astra Zeneca/Oxford inglesa. Foi uma maratona cheia de politicagem, questões técnicas muito complexas e também de equívocos. A falta de tempo para analisar as alternativas custou caro a todos os jogadores. 

Mas deu a lógica. Após iniciarem seus estudos clínicos de fase 3 no Brasil e entregarem seus resultados à Anvisa, e após a fiscalização de boas práticas de produção nas respectivas fábricas, os dois laboratórios estatais tiveram aprovados com restrições os respectivos pedidos. Era o esperado, embora se discutisse se a política poderia fazer a agência pender para algum lado. Prevaleceram o valor dos técnicos e a necessidade do povo brasileiro.

Devem ser assinados termos de responsabilidade e compromissos de entrega de dados sobre imunogenicidade que deverão ser fornecidos e, até onde entendi, estes são muito pacíficos, ou seja, devidos. Sim, existem dúvidas - sobre a ação da vacina em determinados grupos populacionais como os muito idosos e sobre a capacidade de evitar casos graves. São estas respostas que usualmente são fornecidas na fase 4 da utilização de uma vacina. Para isso, devem ser acompanhados o uso e os efeitos da vacinação a partir de agora. Tanto sobre segurança como sobre eficácia. 

Também devem ser desenhadas pesquisas complementares sobre os grupos populacionais não testados - crianças, jovens abaixo de 18 anos, grávidas e os muito idosos.  Muitas questões sobre a imunogenicidade deverão continuar a ser estudadas - quanto tempo duram os anticorpos, como se comporta a imunidade tecidual, as reincidências; e, principalmente, teremos que nos preocupar com as mutações - inglesas ou amazônicas e todas que ainda surgirem enquanto o vírus estiver circulando.

 

Agora, a questão do momento: por que alguém não se vacinaria? A primeira parte da resposta é mais fácil de dar e difícil de cumprir - por inépcia dos governantes, falta de planejamento das autoridades sanitárias federais, estaduais e municipais. Com certeza o peso maior será federal. Receber o cronograma de entrega das vacinas das duas instituições e casar este cronograma com os grupos prioritários. Aqui não está ainda pacificado o que é o melhor a ser realizado, teremos vacina ao longo do ano, mas não o suficiente para diminuir o tempo de vacinação. Assim a proposta da Indonésia de vacinar quem mais se movimenta, ao invés dos mais idosos, tem uma lógica que deve ser considerada por nós. 

Ou então, quando os profissionais da educação serão vacinados? Ou vamos ter uma longa batalha e alunos sem aula mais um semestre, na melhor das hipóteses? Mas além de acertar cronograma de entrega, os alvos do imunizante, as seringas, a distribuição racional das vacinas e insumos, a obtenção de software de controle de quem foi vacinado com a primeira e depois a segunda dose, ainda temos que conseguir convencer as pessoas a irem se vacinar. 

Existe a necessidade de divulgar a importância de vacinar, do valor da vacina. E aí tem, no meu entendimento, uma decisão complicada adotada pela Anvisa, de exigir que a pessoa assine previamente um termo de responsabilidade anterior à vacinação. Se essa imposição continuar, deverá ser juridicamente cassada, pois se transformará em obstáculo à vacinação em todo o País.

* FUNDADOR E EX-PRESIDENTE DA ANVISA, EX-SECRETÁRIO MUNICIPAL DE SP E PROFESSOR DO MESTRADO PROFISSIONAL DA EAESP/FGV E DA FSP

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