Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Por que as pessoas lotam as ruas durante a reabertura do comércio

Especialistas mencionam o estado de negação e a forma como o ser humano lida com o medo como duas possíveis explicações

Érika Motoda, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2020 | 10h00

Com máscara no rosto e sacolas nas mãos, os consumidores preencheram - bastante - as ruas das cidades que retomaram as atividades comerciais nesta semana, mesmo sem ter certeza se a pandemia do coronavírus no País já atingiu ou não o pico. A semana foi marcada pela flexibilização do isolamento em várias capitais brasileiras, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Belém (PA) e Fortaleza (CE). No interior paulista, também houve uma grande movimentação em Campinas e Ribeirão Preto.

Fora as questões econômicas que levaram à reabertura das lojas, por que houve a adesão de consumidores que foram aos shoppings para comprar itens não essenciais? Especialistas mencionam o estado de negação e a forma como o ser humano lida com o medo como duas possíveis explicações.

“Existe o medo amigo, que nos protege do real perigo. Por exemplo, não vou entrar em um beco escuro para não ser assaltada. Então, é a pessoa que aproveitou a liberdade recém-adquirida, mas se manteve segura”, explicou a psicóloga Ana Luiza Novis, coordenadora do Time Humanidades, que presta atendimento psicológico voluntário durante a pandemia. “Já aquelas que estão em negação parcial sabem da existência do coronavírus, mas banalizam a sua gravidade. São aquelas pessoas que saíram às ruas sem suas máscaras, por exemplo, como se a pandemia já tivesse acabado.”

A negação, como é chamada na psicologia, é ativada quando há uma situação de conflito em que a pessoa pode estar diante de um problema mais complexo do que é capaz de lidar, explicou a professora de psicologia da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), Mary Okamoto.

“No Brasil, a negação é em escala nacional. Se o governo fala que os dados oficiais não estão corretos para uma população que não aguenta mais ficar em casa, a flexibilização pode dar mais confiança a quem não dava credibilidade ao isolamento.”

Para Mary, não existe o antagonismo entre a prevenção da covid-19 com a situação econômica, pois, segundo ela, quanto mais as pessoas desrespeitarem as regras de distanciamento, mais tempo essa situação atípica vai se arrastar, atrasando a volta das atividades normais e, consequentemente, a retomada da economia.

Futuro

A história recente mostrou que a reabertura precoce pode levar ao aumento do número de casos, assim como foi com a cidade de Blumenau (Santa Catarina), que uma semana após abrir os shoppings, no fim de abril, viu seus casos de contaminações saltarem de 98 para 194.

Para que o problema não se repita, explicou Ana Luiza, é preciso que as pessoas entendam que a vida não vai voltar a ser como era até fevereiro, mês em que houve o primeiro registro da doença no País. “Depois de sofrer um infarto, o paciente é exemplar: tira a gordura da comida e se cuida. Mas, depois que viu que sobreviveu, ele vai voltando ao normal e relaxa no tratamento, quando o ideal é voltar ao normal com atitudes de um ‘novo normal’”, explicou.

Raquel Muarrek, infectologista da Rede D'Or, concorda que o retorno inadequado é um dos principais problemas. “Não podemos voltar a ter aglomeração. É preciso entender que a volta do comércio e dos shoppings não é um passeio. As pessoas voltaram a trabalhar pela sobrevivência econômica”, disse, acrescentando que os protocolos sanitários de triagem dos funcionários é um estímulo às pessoas se cuidarem.

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