Federico Rios/The New York Times
Federico Rios/The New York Times

Por que essa mulher não teve Alzheimer? A resposta pode ser a chave para combater a doença

Apesar de ter perfil compatível com a doença, colombiana não teve declínio cognitivo; caso intrigou cientistas

Pam Belluck, The New York Times

08 de novembro de 2019 | 05h00

O perfil genético de uma mulher colombiana, cujo nome não foi revelado para proteger sua privacidade, mostrou que ela desenvolveria a doença de Alzheimer quando completasse 50 anos. Ela, como vários de seus parentes, nasceu com uma mutação genética que faz com que as pessoas comecem a ter problemas de memória e raciocínio aos 40 anos e se deteriorem rapidamente levando à morte por volta dos 60 anos. Mas, curiosamente, ela não apresentou nenhum declínio cognitivo até os 70 anos, quase três décadas depois do esperado. Como isso aconteceu?

Novas pesquisas fornecem uma resposta que, segundo especialistas, poderia mudar a compreensão científica da doença de Alzheimer e inspirar novas ideias sobre como preveni-la e tratá-la. Em um estudo publicado na segunda-feira na revista Nature Medicine, os pesquisadores dizem que a mulher tem outra mutação que a protegeu da demência, embora seu cérebro tenha desenvolvido importante característica neurológica da doença de Alzheimer.

Essa mutação extremamente rara parece ajudar a evitar a doença, minimizando a ligação de um composto de açúcar específico a um gene importante. Essa descoberta sugere que tratamentos poderiam ser desenvolvidos para dar a outras pessoas o mesmo mecanismo de proteção.

“Estou muito empolgado em ver esse novo estudo - o impacto é extraordinário”, disse o Yadong Huang, pesquisador sênior do Gladstone Institutes, que não participou da pesquisa. “Tanto para a pesquisa como para o desenvolvimento terapêutico, essa nova descoberta é muito importante.”

Uma droga ou terapia genética não estariam disponíveis em breve, porque os cientistas primeiro precisam replicar o mecanismo de proteção encontrado nessa paciente, testando-o em animais de laboratório e células cerebrais humanas.

Ainda assim, esse caso ocorre em um momento em que o campo da doença de Alzheimer anseia por novas abordagens, depois que bilhões de dólares foram gastos no desenvolvimento e teste de tratamentos - cerca de 200 testes com medicamentos fracassaram. Faz mais de 15 anos que o último tratamento para demência foi aprovado e os poucos medicamentos disponíveis não funcionam bem durante muito tempo.

A mulher tem quase 80 anos e vive em Medellín, o epicentro da maior família do mundo para testes com Alzheimer. É uma vasta família colombiana de cerca de 6 mil pessoas cujos membros são atormentados por demência há séculos, uma condição que chamam de “La Bobera” (a loucura) - e atribuída a causas supersticiosas.

Décadas atrás, o neurologista colombiano Francisco Lopera começou a coletar minuciosamente os registros de nascimento e morte da família em Medellín e nas remotas aldeias dos Andes. Ele documentou a extensa árvore genealógica e assumiu riscos em áreas de guerrilha e narcotráfico para persuadir parentes de pessoas que morreram com demência a lhe darem o cérebro para análise.

Por meio desse trabalho, Lopera, que possui um banco com 300 cérebros na Universidade de Antioquia, ajudou a descobrir que o Alzheimer foi causado por uma mutação em um gene chamado Presenilin 1.

Embora esse tipo de demência hereditária de início precoce responda por apenas uma pequena proporção dos cerca de 30 milhões de pessoas em todo o mundo com Alzheimer, é importante porque, ao contrário da maioria das formas de Alzheimer, a versão colombiana foi rastreada até uma causa específica e um padrão consistente. Assim, Lopera e uma equipe de cientistas americanos passaram anos estudando a família, buscando respostas para ajudar os colombianos e para enfrentar a crescente epidemia da mais típica doença de Alzheimer na terceira idade.

Descompasso

Quando descobriram que a mulher tinha a mutação Presenilin 1, mas ainda não havia desenvolvido uma condição pré-Alzheimer chamada comprometimento cognitivo leve, os cientistas ficaram confusos. “Temos uma única pessoa que é resistente à doença de Alzheimer quando ela deveria estar em situação de risco elevado”, disse Eric Reiman, diretor executivo do Instituto Banner Alzheimer em Phoenix e líder da equipe de pesquisa.

A mulher foi levada para Boston para exames cerebrais e outros testes. Tais resultados foram intrigantes, disse Yakeel Quiroz, uma neuropsicóloga colombiana do Massachusetts General Hospital. O cérebro da mulher estava carregado com a principal característica da doença de Alzheimer: placas de proteína beta amiloide, mas tinha poucos outros sinais neurológicos da doença. “Ela tem um segredo em sua biologia”, disse Lopera. “Este caso é uma grande oportunidade para descobrir novas abordagens.”

Arboleda-Velásquez, um biólogo celular, realizou extensivos testes genéticos e sequenciamento, determinando que a mulher tem uma mutação extremamente rara em um gene chamado APOE - a colombiana tem duas cópias do APOE3, a variante com a qual a maioria das pessoas nasce, mas ambas têm uma mutação chamada Christchurch. “O fato de ela ter duas cópias, não apenas uma, meio que encerrou o assunto”, disse Arboleda-Velásquez./Tradução de Claudia Bozzo

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