Alissa Eckert, MS; Dan Higgins, MAM/CDC/via REUTERS
Alissa Eckert, MS; Dan Higgins, MAM/CDC/via REUTERS

Por que o período do 5º ao 10º dia é tão importante quando você tem coronavírus?

Monitorar os seus sintomas diários pode ajudá-lo e aos seus médicos a tomar decisões mais adequadas quanto à necessidade de sua ida a um hospital

Tara Parker-Pope, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2020 | 12h00

Quando um parente meu ficou gravemente doente com o que parecia ser uma infecção por coronavírus, minha primeira pergunta foi a respeito do momento em que ela se manifestou. Há quantos dias surgiram os primeiros sintomas?

Manter um calendário dos primeiros sinais da doença, e marcar a febre e os níveis de oxigênio, são etapas importantes no monitoramento deste tipo de infecção. O covid-19, a moléstia causada pelo coronavírus, tem se mostrado imprevisível na variedade de sintomas que pode apresentar. Mas quando vai se agravando, ele obedece a um padrão persistente.

Embora a maioria dos pacientes seja hospitalizada no prazo de uma semana, uma considerável minoria entra “em uma segunda fase tremendamente incômoda” da doença, segundo Ilan Schwartz, professor assistente de moléstias infecciosas da Universidade de Alberta. “Depois dos sintomas iniciais a situação se estabiliza e quem sabe até melhora um pouco; depois, segue-se uma segunda fase aguda”.

Embora um paciente seja diferente do outro, os médicos afirmam que do quinto ao décimo dia da doença é a época mais preocupante, muitas vezes por causa de complicações respiratórias, principalmente para pacientes idosos e os que têm problemas de saúde pré-existentes, como pressão alta, obesidade ou diabete. Pacientes mais jovens que apresentam complicações começam a lutar muitas vezes um pouco mais tarde, do 10º ao 12º dia. A maioria das pessoas que chega ao 14º dia sem sintomas preocupantes (apenas uma fraqueza extrema) provavelmente estará a caminho da recuperação.

“No caso de outras doenças, a maioria das pessoas, depois de uma semana de sintomas, começa a se sentir melhor”, disse Leora Horwitz, professora assistente de saúde e medicina da população na NYU Langone Health. “Com o covid, falo para as pessoas que depois de uma semana eu quero que prestem realmente atenção  a como estão se sentindo. Não sejam complacentes achando que tudo acabou”.

É importante chamar um médico se a respiração começar a ficar difícil ou se aparecer qualquer outro sintoma preocupante, independentemente do dia no cronograma da doença em que os pacientes se encontram. E não entrem em pânico e ainda se sentirem horríveis depois de uma semana. É comum que os sintomas do covid se mantenham, e sentir-se mal por mais de uma semana não significa sempre que as pessoas precisem de tratamento médico.

Mas controlar os sintomas e prestar atenção principalmente quando a doença se aproxima da segunda semana será uma medida urgente porque os médicos veem pacientes chegando ao hospital com uma forma insidiosa de pneumonia. 

Nos raios-X, os que têm pneumonia da covid apresentam “opacidades como em um vidro fosco”, uma névoa na parte inferior de ambos os pulmões. Os níveis de oxigênio caem tão lentamente que o paciente sequer nota, a chamada  hipóxia silenciosa. Muitas vezes, somente depois que a saturação de oxigênio chega a níveis perigosamente baixos, causando grave dificuldade de respiração, é que os pacientes procuram finalmente os cuidados médicos.

A melhor maneira de monitorar a sua saúde durante este período é usando o oxímetro de pulso, um pequeno aparelho que prende o dedo do paciente e mede os níveis de oxigênio no sangue. (Existem aplicativos de celular que fazem isto, mas os seus testes se revelaram imprecisos.) A saturação de oxigênio normal  varia de cerca de 96%  a 99%. Se o seu nível de oxigênio cai para 92%, está na hora de chamar um médico.

Enquanto a pessoa ainda está em casa, também pode aumentar o fluxo de oxigênio nos pulmões não deitando de costas. Descansar sobre o estômago, na posição de bruços, pode abrir as partes dos pulmões que estão comprimidas quando deitamos de costas. Ou também deitar sobre o lado esquerdo ou o direito, ou sentar reta em uma cadeira.

Anna Marie Chang, professora assistente de medicina de emergência e diretora de pesquisa clínica da Universidade Thomas Jefferson, ficou doente por uma semana aproximadamente antes que os seus níveis de oxigênio caíssem para 88% no nono dia da doença. Foi ao hospital onde foi tratada com oxigênio e deitou principalmente de barriga para baixo por quatro dias para se recuperar.

Não está claro por que motivo pacientes relativamente jovens como Chang, que tem 38 anos, às vezes pioram.

“A primeira parte é uma doença viral e tudo mais”, disse Chang. “O seu corpo desenvolve uma reação inflamatória autoimune e tenta combater a infecção. Este sistema pode ser excessivamente estimulado, e parece ser isto que causa o agravamento. Vemos esta reação por volta do 7º ao 10º dia”.

Ela recomendou que os pacientes prestem atenção àquilo que os seus corpos dizem e  não sigam muito rigorosamente o desenrolar-se dos sintomas. “O corpo humano não segue o manual perfeito”, afirmou.

O problema, segundo os médicos, é que a orientação médica em geral até o momento tem sido recomendar aos pacientes que tratem da doença em casa e busquem cuidados médicos ou retornem somente se experimentarem insuficiência respiratória grave. É por isso que um número enorme de pacientes espera demais para procurar um médico.

“Da perspectiva da saúde pública, nós erramos em dizer às pessoas que voltem somente se sentirem grande dificuldade para respirar”, disse Richard Levitan, conhecido médico de emergências de New Hampshire, que pediu um amplo uso dos oxímetros de pulso em casa nas duas primeiras semanas do covid-19. “Aguentar ao máximo não é uma boa estratégia”.

Levitam observa que embora as condições de muitos pacientes possam agravar-se do quinto ao décimo dia da doença, ele hesita em ser demasiado específico a respeito do prazo porque nem todos os pacientes têm uma noção clara de quando a sua  doença começou.

“Às vezes, os pacientes definem um prazo da doença diferente do que nós esperaríamos”, disse Levitan. “Quando perguntamos há quanto tempo ele está doente, um paciente dirá poucos dias e sua esposa dirá, não, ele está doente há uma semana”.

Mas, e se você não tiver o oxímetro de pulso para monitorar a sua saúde? Atualmente, estes aparelhos são escassos no mercado ou a sua entrega leva semanas.

Alguns médicos  mandam enviam aos seus pacientes que ficam em casa kits que incluem oxímetros de pulso, portanto perguntem ao seu médico se você deveria ser monitorado. Peça aos amigos se eles têm um oxímetro para emprestar por duas semanas no caso de ficarem doente (o aparelho pode ser facilmente higienizado).

Se você continua sentindo-se péssimo uma semana depois do início da doença e não tem oxímetro, também pode procurar uma clínica de urgências e pedir que verifiquem o seu nível de oxigênio. Se estiver preocupado, fale com o seu médico sobre a necessidade de procurar um centro médico de urgências ou um pronto socorro.

Na falta de um oxímetro, uma medida aproximada da função respiratória é por meio de um teste chamado “Roth score”, que você mesmo pode fazer. Para isto deve inspirar e segurar o fôlego contando até 30. 

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Se o paciente não consegue contar até 10 (ou sete segundos) sem respirar de novo, o seu nível de oxigênio pode estar abaixo de 95. Se não consegue contar até 7 (cinco segundos), o seu nível de oxigênio pode estar abaixo de 90%. O teste não é perfeito, e nem foi estudado no covid-19. Uma equipe da Universidade de Oxford disse que o Roth score não deveria ser usado porque não foi validado e poderia dar falsas esperanças.

Outro sintoma físico, mas sutil da queda do oxigênio é quando os pacientes começam a respirar rapidamente e com inspirações curtas a fim de compensar, embora sem perceber o que estão fazendo. Os pacientes com baixos níveis de oxigênio também podem apresentar lábios ou pele azulada. É por isso que uma videoconferência com o seu médico pode ajudar se a pessoa não sabe ao certo se precisa ir ao hospital.

Abaixo há o cronograma dos sintomas do covid-19. Embora isto possa servir como guia geral, os sintomas podem aparecer a qualquer momento. Preste sempre atenção ao que o seu corpo diz e consulte um médico para saber como se orientar no seu caso específico.

DIA 1 A 3

Os primeiros sintomas do covid-19 variam consideravelmente. Podem começar com uma coceira na garganta, tosse, febre, dor de cabeça, falta de ar ou uma ligeira pressão no peito. Às vezes, começa com diarreia. Algumas pessoas se sentem apenas cansadas e perdem o paladar e o olfato. Muitas apresentam vários sintomas, mas não febre. Alguns pacientes com sintomas gastrointestinais passarão a sentir sintomas respiratórios, outros não.

DIA 4 A 6

Alguns pacientes nunca apresentam mais do que sintomas leves, ou mesmo nenhum. Outros começam a se sentir péssimos, com febre constante, dores no corpo, calafrios, tosse e não conseguem sentir-se confortáveis.

Algumas crianças e adultos jovens com uma forma leve da doença podem apresentar erupções cutâneas, inclusive manchas vermelhas com coceira, inchaço ou bolhas nos dedos dos pés ou das mãos, semelhantes a queimaduras de frio. 

O momento exato não está claro, e o sintoma pode aparecer no início da infecção ou depois que ela passou. Foi o que aconteceu com Schwartz, que teve sintomas respiratórios e depois bolhas nos pés. “Parece que muitos destes indivíduos, inclusive eu mesmo, testam negativo” nos testes de swab para o coronavírus, afirmou. “Suponho que se trate de um falso negativo. Talvez o que estamos vendo seja um fenômeno imunológico que ocorre depois que a infecção inicial começa a sarar”.

DIA 7 A 8

Para alguns pacientes que têm a sorte de ter uma forma leve da doença, o pior acaba depois de uma semana. De acordo com as diretrizes dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, os pacientes cujos sintomas melhoraram e que não tiveram febre durante três dias podem sair do isolamento.

Mas outros que se sentiram muito mal, continuarão sentindo-se mal ou mesmo piorar. E outros podem começar sentir-se melhor por breve tempo e depois se agravar.

Os pacientes deveriam monitorar os seus níveis de oxigênio e procurar um médico para ver se estão começando a piorar. “Nós deveríamos aconselhar os pacientes a não esperarem muito para procurar um médico”, disse Levitan. “Acredito que deveriam procurar o médico a fim de ter um monitoramento ao perceber que estão piorando.”

DIAS 8 A 12

O monitoramento deveria continuar na segunda semana de doença. Os pacientes podem sentir-se melhor dormindo de bruços ou de lado.

“É nos dias 8 a 12 que nós temos realmente  como saber se a pessoa está melhorando ou piorando”, disse Charles A. Powell, diretor do Mount Sinai-National Jewish Health Respiratory Institute. “A nossa maior preocupação é um agravamento do dia 8 ao 12 – maior dificuldade para respirar, uma tosse cada vez pior”.

Powell disse que um monitor de oxigênio em casa pode indicar se alguém precisa procurar o hospital. Caso contrário, os pacientes devem falar com os seus médicos.

“É difícil para a pessoa em casa sentir-se confortável, e é difícil para a família achar que pode dar conta do recado, e isto fará com que o médico sugira que o paciente o procure para uma avaliação”, disse Powell. “Não queremos esperar muito até os níveis de oxigênio baixarem demais e ele piorar”.

DIAS 13 A 14

A esta altura, os pacientes que tiveram uma forma leve da doença deveriam estar bastante recuperados. Os que tiveram sintomas mais graves, mas mantiveram níveis de oxigênio normais deveriam se sentir bastante recuperados depois de duas semanas. 

No entanto, os pacientes com sintomas graves e os que precisaram de tratamento adicional por causa do nível baixo de oxigênio talvez ainda se sintam mal e fatigados e poderão demorar mais para se recuperar. / Tradução de Anna Capovilla

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