Matthew Farrell
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Fernando Reinach
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Por que os albatrozes se divorciam

Estudo indica como causas o fracasso reprodutivo e o estresse por fatores ambientais

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2021 | 05h00

Mais de 90% das espécies de pássaros são monogâmicas. Os pares se formam no início da vida e se mantêm. Novos pares se formam quando um membro do casal morre, o que é chamado de viuvez, mas também existem casos de divórcio. Os cientistas acreditam que a monogamia evita o gasto de energia necessário para encontrar e conquistar novos parceiros. Essa explicação levou muitos a acreditar que os casos de divórcio se deviam ao fracasso reprodutivo a cada ano: se a reprodução funciona e os filhotes sobrevivem, o casal se mantém e repete a receita no ano seguinte. Senão, o parceiro é substituído. O fato é que essa explicação é de difícil demonstração.

A novidade é que um grupo de cientistas fez exatamente isso em uma colônia de albatrozes nas Ilhas Falklands. Desde 2003, os cientistas estudam 15.500 casais. Todos os anos eles capturam as aves, colocam uma argola na pata para identificação e soltam. Desde 2008, os animais também recebem um rádio com GPS para monitorar o que eles fazem durante a parte do ano em que não estão colocando e chocando ovos. A cada ano, animais são recapturados e seu comportamento é anotado. Assim, os cientistas identificam os indivíduos que fizeram o ninho, colocaram os ovos e cuidaram dos filhotes. Isso permite que o sucesso reprodutivo de cada casal seja avaliado e os casos de divórcio e de viuvez sejam identificados.

Os cientistas descobriram que a taxa de divórcio se altera a cada ano. Na média 3,7% dos casais se divorciam a cada ano, mas esse número varia de 0,8% a 7% por ano. Outra descoberta é que o insucesso reprodutivo, principalmente durante o início da fase reprodutiva, aumenta muito as chances de o casal se divorciar. Casais em que os ovos não eclodiam tem uma chance cinco vezes maior de se divorciarem no ano seguinte, mas esse aumento fica menor se o insucesso vem mais tarde, como por exemplo no caso de os ovos eclodirem, mas os filhotes morrerem antes de deixarem o ninho.

O mais interessante é que, além do sucesso reprodutivo, fatores ambientais também afetam a taxa. Nos anos em que ocorre um aquecimento anormal na superfície do oceano, a taxa de divórcio também aumenta, mesmo em casais que tiveram sucesso reprodutivo no ano anterior. Ou seja, a dificuldade do casal em se alimentar, e o estresse causado por essa dificuldade, leva a um aumento na taxa.

A conclusão é de que a principal causa para o divórcio entre os albatrozes é o fracasso reprodutivo no ano anterior e o estresse causado por mudanças ambientais que dificultam a alimentação durante o ano. Não sei o quanto nós humanos podemos aprender com o que ocorre com os albatrozes, mas vale pensar no assunto. 

*É BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL; FOLHA DE LÓTUS, ESCORREGADOR DE MOSQUITO; E A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS

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