DIDA SAMPAIO/ESTADAO
Ministro da Saúde concedeu informações à imprensa nesta quarta DIDA SAMPAIO/ESTADAO

Por receio de coronavírus, Ministério da Saúde decide antecipar vacinação contra gripe

Ação deverá ter início em 23 de março, e não em abril, como inicialmente planejado

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2020 | 17h11
Atualizado 27 de fevereiro de 2020 | 17h37

SÃO PAULO - O Ministério da Saúde irá antecipar a campanha de vacinação contra a gripe por causa do risco de surto de coronavírus (Covid-19), anunciou nesta quinta-feira, 27, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, em coletiva de imprensa realizada no Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo.

A campanha, inicialmente programada para começar no dia 13 de abril e ser realizada até meados de maio, deverá ter início já em 23 de março, segundo Mandetta.

Embora a gripe seja causada por um vírus diferente (influenza), o objetivo da antecipação é evitar aumento de doenças respiratórias e sobrecarga do sistema de saúde.

De acordo com Mandetta, serão 75 milhões de doses de vacina contra a gripe na campanha deste ano. Inicialmente, serão vacinadas crianças e gestantes. Em seguida, os idosos.

O ministro se reúne nesta quinta com o grupo criado para monitorar e coordenar ações contra a propagação do novo coronavírus no Estado. Nesta terça-feira, 25, o Ministério da Saúde confirmou o primeiro caso de Covid-19 no Brasil. O paciente é um idoso paulistano de 61 anos de idade que chegou recentemente da Itália.

Ele foi atendido no Hospital Israelita Albert Einstein, encaminhado para isolamento domiciliar e passa bem, segundo a Secretaria da Saúde de São Paulo.

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Cenário: A postos, Exército vê situação de coronavírus no Brasil sob controle

Treino considera possibilidade de escalada da doença no país, mas especialista afirma que estágio extremo não será atingido

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2020 | 05h00

O eventual envolvimento das Forças Armadas no novo patamar da emergência do coronavírus pode ter o tamanho, o foco e a intensidade necessários. Nesta quarta-feira, 26, o Ministério da Defesa limitou-se a informar que até agora, a tropa atuou "na coordenação e na execução do resgate dos brasileiros em Wuhan (China) e na posterior quarentena (na base aérea) em Anápolis (GO). A coordenação de todas as demais ações relativas ao coronavírus é do Ministério da Saúde". 

O tom neutro é um cuidado. A orientação do comando é evitar a percepção de que haja uma preocupação excessiva por parte do governo. A rigor, os ensaios realizados e atualizados ao longo do tempo consideram a possibilidade de uma escalada que pode chegar a situações limite como o isolamento de zonas urbanas dentro das regiões metropolitanas ou de cidades inteiras. 

Um técnico militar, ex-integrante do Instituto de Defesa Química, Biológica, Radiológica e Nuclear (IDQBRN), que o Exército mantém em Guaratiba, no Rio, sustenta, entretanto, que esse estágio extremo não será atingido. Para o especialista, "a autoridade sanitária está controlando integralmente a situação".

Há várias unidades, como o 1.º Batalhão de Defesa QBRN, do Rio, dedicadas ao trabalho de alta complexidade e quase sempre preventivo. Por causa dos grandes eventos no País entre 2007 e 2016  - visita do papa Bento 16, Conferência da ONU Rio+20, Copas de Futebol das Confederações e da Fifa, Jornada Mundial da Juventude, Jogos Olímpicos, Jogos Paralímpicos, Jogos Mundiais Militares - foram feitos significativos investimentos no setor.  

O Exército tem laboratórios, alguns deles móveis, que podem identificar agentes biológicos e realizar descontaminação. Foi assim em 2014 e de novo em 2015, quando o 1.º Batalhão esterilizou dois aviões da Força Aérea utilizados no transporte de pacientes sob suspeita de contaminação pelo vírus ebola, de alto índice de mortalidade. Um deles, brasileiro, homem de 46 anos, viajou da Guiné, na África, até a Base Aérea do Galeão, no Rio, a bordo de um cargueiro SC-105 Amazonas, acomodado em uma maca de isolamento máximo. Um ano antes, o guineano Souleymani Bah havia chegado ao Galeão nas mesmas condições, mas em um LearJet da FAB convertido em Unidade de Cuidados Intensivos.

Este ano, na fase do coronavírus, a operação de DQBRN se repetiu na Base Aérea de Anápolis, Goiás. Os dois jatos Emb-190/VC-2 da frota da Presidência da República despachados para Wuhan, na China, que pousaram em Anápolis no dia 9 transportando 58 pessoas logo em seguida submetidas ao regime de quarentena, nas instalações da FAB, foram descontaminados pelo "time amarelo", uma referência ao traje de isolamento usado pela equipe. Os recursos empregados no procedimento são modernos - preservam a integridade operacional dos sistemas eletrônicos e digitais. 

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Opas: Países devem se preparar para coronavírus mesmo sem declaração de pandemia

Medidas de isolamento têm de ser avaliadas com cautela, afirma brasileiro; aprendizado de surto de 2009 é importante

Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2020 | 09h00

BRASÍLIA - O médico Jarbas Barbosa, vice-diretor da Organização Pan Americana da Saúde (Opas), braço da Organização Mundial da Saúde (OMS), disse ao Estado nesta terça-feira, 25, que a classificação de pandemia é feita quando há "transmissão sustentável" em vários países da doença. Por enquanto, a entidade classifica o surto como emergência internacional. Mas ele advertiu que, independentemente da nova posição da OMS, países têm de estar preparados para reagir rapidamente à chegada do novo coronavírus.

"A OMS está avaliando (se é pandemia ou não), mas mesmo sem uma denominação formal de pandemia, é certo que pode-se transmitir para outros países com relativa velocidade como está ocorrendo", disse Barbosa. “É um aprendizado que tivemos na pandemia de 2009 (vírus H1N1). Alguns países da América Latina, quando já era perceptível que havia transmissão na comunidade, gastavam esforço para contenção. Analisavam a ponta do iceberg, em vez de já tomar decisões de mitigação, como adiar uma cirurgia eletiva para deixar um leito de UTI disponível”, completou o brasileiro, que atua na Opas em Washington.

Barbosa observou que o cenário é de redução de novos casos na China, epicentro do surto, mas há avanço em outros países. "Neste momento a gente tem boas e más notícias." Segundo ele, medidas restritivas, como isolar cidades, têm de ser avaliadas com extrema cautela. "No caso da China, dados que se têm até agora parecem ser favoráveis. Aquelas medidas de redução do contato social podem ter reduzido a transmissão", disse.

O médico destacou que o "estigma e a discriminação", além de "inaceitável", podem dificultar que um paciente busque um serviço de saúde por receio de sofrer represália. Ele também afirmou que impedir a circulação de mercadorias acabaria, em muitos casos, atrapalhando o tratamento de pacientes. A China, por exemplo, é grande exportadora de produtos para saúde e medicamentos.

Segundo Barbosa, a maior preocupação da Opas é com países das Américas que têm sistemas "frágeis" de saúde, como o Haiti, ou são pequenos e dependem do turismo como principal fonte de renda, como ilhas do Caribe. "Se chegar lá um cruzeiro com infectados, pode ser uma sobrecarga no sistema de saúde. Essas são as duas preocupações maiores."

O vice-diretor da Opas disse que o Brasil tem bom sistema de vigilância e que medidas que o Ministério da Saúde têm tomado são "adequadas". "Mas nenhum país está protegido de receber uma pessoa infectada."

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Coronavírus já é detectado em 45 países do mundo, em todos os continentes

Número de infectados chega a 83 mil em 51 países de todo o mundo e 2.856 mortes; novos casos de Covid-19 aparecem na Dinamarca, Noruega e Paquistão

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2020 | 12h52
Atualizado 28 de fevereiro de 2020 | 13h46

SÃO PAULO -  A rápida expansão global do novo coronavírus começa a dar sinais de que não é mais possível contê-lo. A doença está presente em pelo menos 50 países, em todos os continentes, de acordo com o boletim diário divulgado pela Organização Mundial de Saúde. E países que ainda não estavam com uma transmissão interna sustentada já podem ter chegado a esse nível. Os Estados Unidos investigam o caso de uma mulher na Califórnia que contraiu a doença sem ter viajado ao exterior.

São mais de 83 mil casos confirmados em todo o mundo (78.926 na China e 4.404 em 51 países) e 2.856 mortes (66 fora da China). Novos países entraram na lista de casos da OMS nesta quinta-feira, 27, como Dinamarca, Estônia, Georgia, Grécia, Macedônia do Norte, Noruega, Romênia e Paquistão. O Brasil, que tinha registrado oficialmente o primeiro caso na quarta, também foi incluído agora. A Nigéria, país mais populoso da África, confirmou um caso nesta sexta-feira, 28.

“Todo país deve estar pronto para seu primeiro caso, seu primeiro cluster, a primeira evidência de transmissão comunitária e para lidar com a transmissão comunitária sustentada. E deve estar se preparando para todos esses cenários ao mesmo tempo”, afirmou nesta quinta o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, na coletiva de imprensa diária que tem dado desde o início da crise.

Segundo ele, este é um momento decisivo, quando já há mais novos casos fora da China no período de 24 horas (746) do que onde surgiu a epidemia (439). “Nenhum país deve assumir que não receberá casos. Isso pode ser um erro fatal, literalmente. Este vírus não respeita fronteiras. Não faz distinção entre raças ou etnias. Não considera o PIB ou o nível de desenvolvimento de um país. A questão não é apenas impedir que casos cheguem às costas. O ponto é o que você faz quando tem casos”, disse.

Ele se dirigiu aos novos países com casos. “Minha mensagem para cada um é: está na sua janela de oportunidade. Se você agir agressivamente agora, pode conter esse vírus. Você pode impedir pessoas de ficarem doentes. Pode salvar vidas. Então meu conselho para esses países é se mover rapidamente”, afirmou Tedros.

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“Com as medidas corretas, pode ser contido. Essa é uma das principais mensagens da China. A evidência que temos é de que não parece haver uma ampla transmissão”, disse. E citou que na cidade de Guangdong, cientistas testaram mais de 320 mil amostras da população e apenas 0,14% deu positivo. “Isso sugere que a contenção é possível”, relatou o diretor-geral.

O segundo país com mais casos é a Coreia do Sul, com 2.022 relatos (e 13 mortes). Só lá houve um aumento de 505 casos em 24 horas. A Itália já soma 650 casos, com 17 mortes, de acordo com o Ministério da Saúde local. O Irã tem 141 casos, com 26 mortes. No Japão são relatados 186 casos em terra, além dos 705 que estão em um navio no porto de Yokohama.

"Nossos epidemiologistas têm monitorado esses desenvolvimentos continuamente e agora nós aumentamos a nossa avaliação de risco de dispersão e risco de impacto do Covid-19 para muito alto, no nível global", afirmou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, durante coletiva de imprensa nesta sexta-feira, 28.

Ao todo, 24 casos foram exportados da Itália para 14 países. Outros 97 casos foram exportados do Irã para 11 países, desde quinta-feira.

Sobrecarga

O avanço acelerado da epidemia preocupa por poder sobrecarregar os sistemas de saúde em todo o mundo. A principal análise feita até agora sobre os pacientes, conduzida pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças chinês, apontou que, lá, a maior parte dos casos é leve. Dos 44.672 casos confirmados no país até 11 de fevereiro, mais de 36 mil – 81% – tiveram esse diagnóstico. Mas o coronavírus tem se apresentado como mais severo que uma gripe sazonal e os casos mais graves e críticos podem depender de internação – 15% podem precisar de tratamento em hospital e 5% podem requerer cuidado intensivo. Por esse mesmo estudo, a mortalidade local estava em torno de 2,3%. A maior parte das vítimas tem mais de 60 anos. 

Fora da China, a taxa de letalidade está em 1,55%. Especialistas acreditam que muito provavelmente esse valor será o mais próximo da realidade quando a epidemia se estabilizar, porque provavelmente muitas pessoas sem sintomas ou com sintomas muito leves na China acabaram nem sendo relatadas. A influenza sazonal, apesar de mais espalhada por todo o mundo, mata em apenas 0,1% dos casos. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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