Alex Plavevski/EFE/EPA
Alex Plavevski/EFE/EPA

Por que o coronavírus poupa (principalmente) as crianças

Especialistas ainda estudam o assunto, mas fenômeno semelhante ocorreu na epidemia de Sars; adultos seriam mais suscetíveis por já terem outras doenças que podem enfraquecer o sistema imunológico

Apoorva Mandavilli, The New York Times

06 de fevereiro de 2020 | 12h19

O novo coronavírus infectou mais de 28 mil pessoas e pelo menos 564 pessoas morreram por causa da doença. Mas relativamente poucas crianças apresentaram sintomas graves até agora, de acordo com os dados disponíveis.

“A idade média dos pacientes está entre 49 e 56 anos”, segundo informe publicado na quarta-feira, 5, pelo Journal of American Medical Association. “Casos de crianças infectadas são raros”.

Então, por que as crianças têm sido poupadas?

“A minha opinião é de que os mais jovens estão sendo infectados, mas os sintomas são relativamente mais brandos”, disse Malik Peiris, diretor do departamento de virologia na Universidade de Hong Kong, que desenvolveu um teste para diagnosticar o novo coronavírus.

Os cientistas não têm observado um número maior de crianças que contraíram o vírus “porque não têm em mãos os dados sobre casos mais brandos.”

“Se este coronavírus se propagar pelo mundo e se intensificar, como ocorre com as gripes comuns, provavelmente o número deve aumentar”, ele acrescentou.

Em um caso publicado, um menino de 10 anos viajou para Wuhan, epicentro da epidemia, com sua família. Ao retornar a Shenzen, os  membros da família apresentaram febre, garganta irritada, diarreia e pneumonia. A idade deles variava entre 36 e 66 anos. A criança também manifestou sinais de pneumonia viral, constataram os médicos, mas nenhum sintoma particular do vírus. Alguns cientistas suspeitam que isso é normal na infecção por coronavírus em crianças.

“Certamente as crianças podem ser infectadas sem apresentar os sintomas ou a infecção é mais leve”, afirma Raina Macintyre, epidemiologista da Universidade de New South Wales em Sidney.

Em muitos aspectos, esse padrão é o mesmo verificado durante a epidemia da Sars e da Mers, síndrome respiratória do Oriente Médio, também resultado de um coronavírus. A epidemia da Mers na Arábia Saudita em 2002, e na Coreia do Sul em 2015 provocou mais de 800 mortes. E muitas crianças infectadas nunca desenvolveram os sintomas.

Nenhuma criança morreu durante o surto de Sars em 2003 e a maioria das 800 mortes por causa da doença eram de pessoas com idade acima de 45 anos, com os homens mais propensos a uma situação de risco.

Entre os mais de 8 mil casos de pessoas doentes por causa da Sars, os pesquisadores dos Centros de Prevenção e Controle de Doenças identificaram 135 crianças nos informes publicados.

Crianças com idade abaixo de 12 anos tiveram menos probabilidade de ser internadas ou necessitaram de oxigênio ou outros tratamentos. Aquelas com idade superior a 12 anos manifestaram sintomas semelhantes aos dos adultos.

“Não compreendemos bem a razão do aumento da gravidade da doença com relação à idade. Mas agora - e no caso da Sars - observamos isso de modo muito claro”, diz Peiris.

Não é incomum o fato de vírus provocarem infecções mais brandas em crianças e sintomas muito mais severos em adultos. A catapora, por exemplo, quase não tem consequências em crianças, mas é uma doença catastrófica no caso de adultos.

A influenza é diferente no sentido de que evoluiu com os humanos por milhares de anos e milhões de pessoas em todo o mundo contraem gripe a cada ano. Mas, embora milhares de crianças sejam internadas, somente uma pequena porcentagem delas vem a falecer, observou o médico.

Os adultos são mais suscetíveis porque podem ter outras doenças, como diabetes, pressão alta ou doença cardíaca que enfraquece sua capacidade de combater as infecções. A imunidade inata do corpo, crucial para combater os vírus, também deteriora com a idade e particularmente depois da meia idade.

“Alguma coisa ocorre aos 50 anos de idade. O corpo declina e isso ocorre exponencialmente, e é por isto que vemos a incidência mais alta nas pessoas mais idosas”.

Risco de transmissão

Uma pergunta chave no caso deste novo coronavírus é se crianças infectadas e assintomáticas podem passar o vírus para outras pessoas.

“Sabemos que os de menor idade em geral - não só crianças, mas adolescentes e jovens - socializam intensamente”, diz Macintyre. Os jovens não percebem que estão doentes e podem contribuir para o avanço da epidemia, disse ela.

Para entender plenamente a epidemia, ela e outros cientistas afirmam que há necessidade de dados mais detalhados: quando as pessoas foram expostas pela primeira vez ao vírus, quando começaram a mostrar sintomas, qual o número e que tipos de pessoas apresentaram sintomas mais brandos frente aos casos mais graves.

Com mais detalhes a respeito, algumas observações, como o risco maior no caso dos homens, podem mudar. Mas Mark Denison, especialista em doenças infecciosas pediátricas na Vanderbilt University, em Nashville, Tennessee, disse não esperar um repentino aumento no número de crianças infectadas.

“É difícil para mim imaginar que o número de casos notificados é menor do que o real no tocante a doenças clínicas em crianças, já que estamos ouvindo falar de apenas dois ou três casos. Acho que isto significa que há muito menos crianças infectadas na China e que elas não estão em situação de muito risco”, disse o médico. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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