GABRIELA BILO / ESTADAO
O general Eduardo Pazuello é o terceiro titular da Saúde do governo Bolsonaro GABRIELA BILO / ESTADAO

Posse de Pazuello é marcada por defesa da cloroquina e crítica ao isolamento social

General tomou posse como ministro da Saúde após 122 dias como interino no cargo. Bolsonaro voltou a pregar uso de medicamento que não tem eficácia contra a covid-19, segundo estudos científicos

Marlla Sabino, Emilly Behnke e Jussara Soares, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2020 | 20h14

BRASÍLIA - Após 122 dias na condição de interino, o general Eduardo Pazuello tomou posse nesta quarta-feira, 16, como ministro da Saúde e disse na cerimônia que o mote “Fique em Casa” não era o melhor remédio para o tratamento do coronavírus. Na mesma linha, o presidente Jair Bolsonaro usou a solenidade, no Palácio do Planalto, para defender suas decisões na condução da crise da covid-19, que contrariaram orientações de autoridades sanitárias em todo o mundo.

Bolsonaro pregou novamente o uso da cloroquina, criticou a adoção do isolamento social e governadores que adotaram a quarentena, além do ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. O slogan “Fique em Casa” foi criado na gestão de Mandetta, demitido em abril, após vários embates com o presidente.

Pazuello é o terceiro titular da Saúde do governo Bolsonaro. Passou a comandar o ministério após a saída de Nelson Teich, que ficou menos de um mês à frente da pasta, e da demissão de Mandetta. Em maio, quando o general assumiu a Saúde de forma interina, o Brasil registrava 14,8 mil mortes por covid-19. Nesta quarta-feira, quando tomou posse como ministro, já estava em 134.106. O número não foi citado na cerimônia.

Em seu primeiro discurso após ser efetivado como titular da Saúde, Pazuello pregou a  necessidade de diagnóstico precoce no tratamento de pacientes infectados pelo coronavírus e disse que as pessoas não deveriam ficar em casa “esperando a falta de ar”.

O ministro afirmou que o “Fica em Casa” não era o melhor remédio. “O aprendizado, ao longo da pandemia, nos mostrou que quanto mais cedo atendermos os pacientes, melhor. O tratamento precoce salva vida. Por isso, temos falado dia após dia: 'Não fique em casa esperando falta de ar. Procure um médico logo após os primeiros sintomas’”, destacou Pazuello, ao assegurar que o governo está “preparado” para enfrentar o período posterior à pandemia.

De acordo com o ministro,  o governo avalia várias vacinas, e não apenas aquela que foi produzida pela Universidade de Oxford e pela AstraZeneca. "Não medimos esforços na busca da vacina. Uma vacina segura e comprovadamente eficaz o mais rápido possível e para todos os brasileiros. A solução definitiva virá com as vacinas e as medidas serão tomadas”.

Bolsonaro, por sua vez, disse que a pandemia poderia ter sido tratada de forma diferente e criticou o fechamento do comércio e das escolas. "Eu não sou palpiteiro, eu converso com meus ministros e, na maioria das vezes, de forma reservada, onde procuramos nos acertar. Com o ministro da Saúde anterior nada foi resolvido nas nossas conversas. Eu aprendi que pior que uma decisão mal tomada, é uma indecisão”, afirmou ele, defendendo o uso da cloroquina. 

Foi nesse momento que Bolsonaro citou divergências com Mandetta. "O primeiro problema com o primeiro ministro (Mandetta) foi a questão da nossa conhecida hidroxicloroquina. Aceito mesmo não sendo médico qualquer crítica a ela, mas por parte de pessoas que possam apresentar uma alternativa”, disse. Bolsonaro também criticou a imprensa, chamada por ele de “mídia catastrófica”.

Por fim, o presidente também fez sinalizações políticas ao ministro da Economia, Paulo Guedes, com quem tem tido atritos nos últimas semanas. Elogiou, por exemplo, medidas de isenção de impostos de medicamentos, como os com base em vitamina D, adotadas com o aval de Guedes. "Quero cumprimentar a equipe econômica desse ministro Paulo Guedes, que tomou uma série de medidas para conter os empregos no Brasil. Parabéns, Paulo Guedes, parabéns à nossa equipe de ministros", afirmou.

Cloroquina poderá ser distribuída no programa Farmácia Popular

O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, confirmou nesta quarta-feira, 16, que está em discussão o fornecimento de cloroquina no Programa Aqui Tem Farmácia Popular.  "Isso está sendo discutido também, no programa Aqui Tem Farmácia Popular, que é uma estrutura de não só cloroquina. Todos os medicamentos do kit covid estão sendo discutidos para distribuir também na farmácia popular", disse ele, após tomar posse, no Palácio do Planalto.

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'Reserva é uma possibilidade, não uma obrigação', diz general Pazuello ao tomar posse como ministro

A presença de um militar da ativa em postos do primeiro escalão do governo gera incômodo entre integrantes das Forças Armadas. General assume definitivamente o posto na Saúde após quatro meses como interino

Jussara Soares e Emilly Benkhe, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2020 | 19h30
Atualizado 16 de setembro de 2020 | 19h39

BRASÍLIA – Após ser efetivado nesta quarta-feira, 16, como ministro da Saúde, depois de quase quatro meses como interino, o general Eduardo Pazuello não quis responder se fará a a passagem para a reserva remunerada. A presença de um militar da ativa em postos do primeiro escalão do governo gera incômodo entre integrantes das Forças Armadas.

“Reserva é uma possibilidade não é uma obrigação”, respondeu Pazuello ao ser questionado por jornalistas logo após a cerimônia.  

Em julho, Pazuello se tornou alvo de uma crise com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, que disse que o Exército estava se associando a um "genocídio", se referindo à crise sanitária.

Diante das críticas à militarização da Saúde durante a pandemia, Bolsonaro passou a ser pressionado para substituir Pazuello. Integrantes do Exército temiam pela imagem da Força e queriam  que o general pedisse a transferência para a reserva caso resolvesse assumir o cargo em definitivo.

O desconforto entre integrantes das Forças Armadas com militares da ativa em postos de comando foi crucial para que o ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, antecipasse sua ida para a reserva remunerada em junho deste ano. Ramos é o responsável pela articulação política do governo.

Entretanto, em meio à crise envolvendo o ministro Gilmar Mendes, o presidente Bolsonaro saiu em defesa de Pazuello nas redes sociais e elogiou a experiência do general em logística e administração. “Quis o destino que Gen. Pazuello assumisse a interinidade da Saúde em maio último. Com 5.500 servidores no Ministério, o Gen. levou consigo apenas 15 militares para a pasta. Grupo esse que já o acompanhava desde antes das Olimpíadas”, escreveu. Em maio, Bolsonaro já havia sinalizado que o general poderia ficar no cargo ao dizer que  ele ficaria "por muito tempo" no Ministério da Saúde.

Ministro volta a falar em vacinação em janeiro

Pazuello voltou a falar que a previsão é que a vacinação contra a covid-19 se inicie em janeiro. No entanto, ele afirmou que ela pode ser antecipada se os testes forem concluídos antes do programado. “O cronograma assinado é a partir de janeiro, com possibilidade de antecipar caso os testes e a conclusão da vacina seja antecipada”, disse.

O ministro afirmou que ainda não há uma estratégia fechada para o início da vacinação, mas citou que tem a expertise do Plano Nacional de Imunização (PNI) e que já há um público-alvo bem definido.

“Nós temos o maior plano de imunização do mundo, em termos de área atendida e vacinada. Então, essa expertise logística nós temos e temos também já bem claro os públicos-alvo. Então com certeza durante a pandemia nós pudemos verificar quais são os públicos-alvo mais sensíveis e você pode a partir daí avaliar que a gente tem já uma linha de trabalho em cima de públicos-alvo”, disse.

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Mortes por covid-19 cresceram nove vezes no período da gestão interina do general Pazuello

Marca da gestão até agora foi a defesa do uso da cloroquina. Militar tem como principal aposta acordo por vacina desenvolvida pela Oxford e AstraZeneca

João Prata, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2020 | 21h48

Depois de afastar dois médicos do cargo de ministro da Saúde, o presidente Jair Bolsonaro optou por colocar o general do Exército Eduardo Pazuello no comando. Ele assumiu a pasta em 15 de maio, logo após a saída de Nelson Teich, de quem era secretário-executivo. Pazuello é o terceiro titular da pasta durante a pandemia do novo coronavírus. 

Em maio, no primeiro dia dele no cargo, o número de mortes pelo novo coronavírus no Brasil era de 14.817 e os casos confirmados, 218.223, segundo o próprio Ministério da Saúde. Na quarta-feira, 16, data em que Pazuello tomou posse como ministro, são 134.174 mortes confirmadas e 4,4 milhões de casos confirmados, segundo o consórcio de veículos de imprensa. O total de vítimas cresceu nove vezes no período. 

A primeira ação efetiva de Pazuello no cargo, em maio, foi atender ao pedido de Bolsonaro que Luiz Henrique Mandetta e Teich, os dois antecessores, se recusaram: recomendar a cloroquina para todos os pacientes de covid-19. Em documento divulgado em 20 de maio, o ministério orientou a prescrição do medicamento desde os primeiros sinais da doença, apesar de vários estudos terem mostrado a falta de eficácia do medicamento. Pouco depois, o Ministério das Relações Exteriores informou que o governo dos Estados Unidos entregou ao Brasil 2 milhões de doses de hidroxicloroquina.

Em seguida, Pazuello acabou com as entrevistas coletivas diárias. Desde que havia começado a pandemia no Brasil, em março, o ministério concedia diariamente uma coletiva para a imprensa com números e novas informações sobre o combate à doença.

Em junho, após o governo Bolsonaro restringir o acesso a dados sobre a pandemia de covid-19, foi articulada uma parceria entre veículos de imprensa para manter a atualização diária dos números, com base nos dados das secretarias estaduais de Saúde. Os veículos Estadão, Folha de S.Paulo, O Globo, Extra, G1 e UOL fazem parte desse consórcio. Após essa iniciativa, o governo retomou a apresentação dos dados, mas sem entrevista coletiva.

Em seu primeiro discurso após ser efetivado como titular da Saúde, Pazuello pregou, nesta quarta-feira, a  necessidade de diagnóstico precoce no tratamento de pacientes infectados pelo coronavírus e disse que as pessoas não deveriam ficar em casa “esperando a falta de ar”. Ele assegurou que o governo está preparado para enfrentar o período posterior à pandemia

Acordo por imunizante é principal aposta

A principal aposta de Pazuello no cargo é que a vacina que está sendo produzida pela Universidade de Oxford (Reino Unido), em parceria com o laboratório AstraZeneca, dê certo. Em 8 de setembro, foi firmado um contrato de encomenda tecnológica, que garante acesso a mais de 100 milhões de doses do ingrediente farmacêutico ativo para o processamento final do imunizante, e também a transferência total da tecnologia.

Em troca, o Brasil autorizou que sua população seja testada. A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) coordena os testes em 10 mil voluntários pelo País. A vacina deve ser aplicada em duas doses.

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