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Precisamos voltar para a escola

É preciso prestar atenção em muitos detalhes para seguirmos com proteção segura aos estudantes

Sergio Cimerman*, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2020 | 12h00

Um tema que tem monopolizado atenções é o retorno às aulas de nossas crianças tanto no ensino publico quanto privado. Segundo dados do governo do Estado de São Paulo, são 12,3 milhões de alunos da educação infantil até o sistema profissionalizante e mais de 1 milhão de professores. As crianças aparentemente são menos afetadas pela covid-19 quando comparadas aos adultos. 

Vale lembrar que em qualquer idade podem surgir casos, sendo que a prevalência ao redor do mundo de testes positivos está entre 1 e 5%. A transmissão das crianças para outros indivíduos ainda não está esclarecida e frequentemente os casos são brandos não requerendo internação hospitalar. Baseado nestas assertivas acima nos indagamos a todo momento: e o retorno às aulas?

Como fazer? Em que época será o mais correto? Dúvidas como estas permeiam o mundo todo e já existem experiências internacionais e recomendações que provavelmente teremos de copiar e devem ser incorporadas em nossas futuras recomendações. Lições aprendidas, baseadas em evidências, em países como Israel, Alemanha, Japão, China e Dinamarca podem ser colocadas em prática no sistema brasileiro. Mas o que me parece mais bem delineado seja a do Centro de Controle de Doenças (CDC), nos Estados Unidos, que publicou em meados de junho orientações bem pontuais e que merecem atenção por parte de educadores e pais. Preferencialmente a opção pelo sistema à distância, regime este já adotado desde o início da pandemia. É verdade que por aqui já existe uma saturação e todos os envolvidos entendem que o aprendizado está defasado e é ruim quando comparado ao presencial. 

Mas vamos partir da premissa de que seja verdade e que a situação epidemiológica em algumas localidades está melhorando. Vejamos, como exemplo, a cidade de São Paulo, que está em fase de platô com risco de transmissão (R0) menor que um. Definimos o reinício das aulas presenciais no início de setembro. Segundo informações do governo do Estado de São Paulo, no sistema público as salas terão apenas 35% de ocupação. Já no sistema privado deverá imperar situação semelhante. Como base, evitar aglomeração será fundamental. Como proceder? Evitando intervalos conjuntos de várias salas de aula e alimentação em sistema de cantina das escolas. E dentro da sala de aula como fazer?  

Escalonar os jovens a virem em dias alternados com regime à distância me parece mais viável neste momento pandêmico. Inserir uma barreira mecânica de vidro ou acrílico entre as carteiras escolares, por exemplo, a fim de manter o distanciamento preconizado, uma solução também para maximizar a quantidade de alunos em sala e tentar eliminar o sistema à distância. 

Preferencialmente deixar janelas e portas abertas para entrada de ar com maior frequência outra modalidade que se faz necessária. Veja que existem muitas dúvidas e receios. Na entrada da escola aferir temperatura de modo global pode ser efetivo para detecção de casos que passaram desapercebidos pelos pais. Os pais aqui têm papel fundamental em informar a escola caso alguém na família seja um caso positivo para que medidas de testagem possam ser realizadas entre os escolares mais próximos. 

É preciso prestar atenção em muitos detalhes para seguirmos com proteção segura aos escolares. Exigir que o uso da máscara seja obrigatório a todos e a disponibilização de álcool em gel a 70% em salas de aulas e em todos ambientes da escola. Outro ponto importante é a desinfecção de superfícies que deve ser feita de modo vigoroso por parte dos funcionários da escola antes da entrada e na saída dos alunos. Com produtos de fácil acesso e custo baixo, conseguimos a realização com alta efetividade. Os alunos também devem realizar o procedimento e evitar manusear objetos.

São tantas as situações que parece no primeiro momento uma grande dificuldade, mas que depois vai sendo incorporada na rotina de todos. Necessitamos começar este processo, porém, devemos ter a humildade para retroceder se o aumento de casos em escolas começarem a brotar. No sistema privado o transporte escolar é outro foco de atenção. As peruas escolares como farão? Difícil conclusão. O mais plausível seja o transporte feito pelos pais, mas caso a opção recaia nas peruas manter vidros abertos no trajeto e ao menos um aluno pulando um assento e sem conversas paralelas. É isso o que vejo como ideal neste momento para minimizar a situação.

Atentem que são enormes as dificuldades neste retorno mesmo que programado, gradual e contencioso. Mas devemos ir ajustando as situações conforme aparecem e, resolvendo com bastante sapiência e resiliência em tempos de covid-19. 

Bom retorno às aulas!!!!

*Coordenador Científico da Sociedade Brasileira de Infectologia

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