Preço faz Anvisa vetar remédio para câncer de cólon retal

Uma disputa de preços está adiando a chegada do bevacizumabe, remédio de nova geração para câncer de cólon retal, o quarto de maior incidência no Brasil - serão 25 mil novos casos em 2006 no País, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca). Fabricado pelo laboratório Roche, ele já é usado em pelo menos 50 países como tratamento padrão nos casos avançados da doença, em que há metástase (espalhamento por outros órgãos). A novela começou em maio, quando o registro sanitário do Avastin (nome comercial do remédio) foi concedido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O entrave está na definição do preço. ?Todo remédio sem referência de valor passa por um setor especial de regulação?, explica Pedro Bernardo, gerente de Regulação de Mercado da Anvisa. Trata-se da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). R$ 300 versus R$ 1.200,00 O governo defende o valor a partir de cerca de R$ 300. O laboratório pede pelo menos quatro vezes mais. A decisão final, prevista para ocorrer neste trimestre, foi para um conselho de ministros. ?Como um julgamento de última instância, os ministros da Saúde, Fazenda, Justiça, do Desenvolvimento e da Casa Civil ou seus representantes, se reúnem para determinar definitivamente o preço?, afirma Bernardo. A Roche pode ainda pedir uma revisão do valor ao Judiciário, mas é difícil que isso ocorra. Em nota, a empresa divulgou: ?Estamos otimistas e empenhados em obter a aprovação o mais breve possível. Já tivemos outros remédios no conselho e se chegou a acordo.? No exterior O bevacizumabe foi aprovado pelo FDA, órgão americano que regula medicamentos, em fevereiro de 2004. No Brasil, para conseguir o remédio, o paciente tem de desembolsar cerca de R$ 7 mil pela dose em importadoras ou entrar com uma ação judicial contra planos de saúde ou governo. ?Dos meus 20 casos na Justiça, 10 são para conseguir o Avastin?, diz a advogada Renata Vilhena Silva, especialista na área. Só no ano passado, a Secretaria de Estado da Saúde recebeu 63 ações de pacientes para conseguir o remédio. A aposentada Júlia Maria Raineri, de 63 anos, é uma delas. ?Minha médica chegou dos Estados Unidos com a notícia do medicamento. ?Gastei minhas economias e me endividei nas primeiras cinco aplicações da dose?, diz ela, que ganhou liminar depois disso. ?Meu câncer regrediu e nunca estive tão disposta.? Proteína O remédio age como anticorpo de uma proteína chamada VEGF. ?Essa proteína tem como característica estimular a formação de vasos para aumentar a quantidade de nutrientes das células do câncer. É o primeiro a fazer isso?, diz Bernardo Garicochea, oncologista do Hospital Sírio-Libanês e diretor do serviço de oncologia da PUC do Rio Grande do Sul. Não significa, claro, a cura da doença. ?O câncer tem outras formas de crescer?, diz Vladmir Cordeiro de Lima, oncologista do Hospital do Câncer. ?O remédio adia o progresso da doença. O tempo é muito bom, de pelo menos seis meses.? Não é pouco. A expectativa média de vida para quem tem câncer de cólon retal com metástase é de 15 a 17 meses. O Avastin está sendo testado em tumores de mama e de pulmão.

Agencia Estado,

13 de janeiro de 2006 | 13h43

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