Preconceito prejudica debate sobre aids no Brasil, diz pesquisadora

Enquanto em cidades dos Estados Unidos, 60% decidiu tomar o medicamento; no Brasil, 51,2% se interessou pelo método

Isabela Palhares e Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

05 Agosto 2015 | 03h00

A coordenadora nacional da PrEP Brasil, Beatriz Grinsztejn, diz que, em comparação com outros países, falta informação sobre aids no Brasil. Em algumas cidades norte-americanas, por exemplo, onde também são desenvolvidas PrEPs, o engajamento dos voluntários é maior do que em São Paulo e no Rio de Janeiro. Estudos realizados em São Francisco, Miami e Washington mostraram que a decisão de tomar o medicamento foi de 60% - nas cidades brasileiras o envolvimento de participantes é 51,2%.

“Lógico que temos diferenças culturais. A nossa população tem menos informação em relação à PrEP do que outras comunidades”, afirma a infectologista. Segundo ela, a decisão de tomar PrEP em outros locais do mundo é maior entre pessoas que são mais conscientes e têm mais percepção do seu próprio risco. “O que nos traduz que precisamos ter trabalho continuado de educação comunitária para que as pessoas tenham mais conhecimento e possam tomar decisões informadas”, disse Beatriz.

Apesar da aceitação maior em outros países, infectologista e coordenador médico do projeto PrEP Brasil, Ricardo Vasconcelos, lembra que o uso do medicamento como forma de prevenção sofreu preconceito quando foi aprovado para esse uso nos Estados Unidos, em 2012. Alguns grupos previam que o Truvada estimularia o não uso da camisinha, o que poderia levar ao aumento de ocorrências de outras DSTs, como sífilis e gonorreia.

“A ideia não é que se deixe de usar a camisinha, mas nós sabemos que existe um grupo que já não usa o preservativo, apesar das campanhas e da indicação. Se a pessoa não vai usar de maneira alguma, é melhor ter outra opção de prevenção, que é o Truvada, que previne uma doença sem cura, que tem estigma e preconceito”, disse Vasconcelos.

Jean Gorinchteyn, infectologista do Instituto Emílio Ribas, também disse acreditar que na batalha contra a aids todas as armas são válidas. “Se nós queremos trilhar na prevenção contra a doença temos que usar todos os meios. É muito mais caro você tratar uma pessoa com aids, fora as complicações que traz pra vida do indivíduo, do que investir em qualquer medicação.

No Brasil, o medicamento, que é fabricado nos Estados Unidos, chegou a custar R$ 2 mil por 30 comprimidos. Segundo Vasconcelos, no entanto, na última semana uma parceria entre o fabricante e o importador fez com que o preço caísse para R$ 420,15.

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