Yuri KADOBNOV / AFP
Yuri KADOBNOV / AFP

Hospitais relatam aumento abusivo de preços e exigência de pagamento à vista

Máscara N95, que antes custava cerca de R$ 5, hoje é comprada por R$ 28

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2020 | 14h46

Os preços dos insumos usados no tratamento da pandemia do coronavírus, como máscaras, testes e respiradores, dispararam por conta da grande procura que levou à escassez de produtos de uma hora para outra no mercado. Uma máscara N95, por exemplo, aquela que parece com um bico de pato e cujo uso é recomendado a profissionais da saúde, antes da pandemia custava R$ 5. Hoje, a unidade não sai por menos R$ 28.

A história se repete com a máscara cirúrgica, cujo preço não chegava a R$ 1, e agora varia entre R$ 4 e R$ 5 a unidade. Além da alta absurda, os vendedores exigem pagamento à vista e muitas vezes antecipado. Isso afeta tanto hospitais públicos como os privados.

“É máscara pra cá e dinheiro pra lá”, diz Aldevânio Francisco Morato, presidente da Federação Brasileira de Hospitais, ilustrando bem o tom das negociações com os fornecedores. A sua entidade representa 4.200 hospitais nos País, entre privados e filantrópicos.

Antes da pandemia, ele conta que os hospitais conseguiam parcelar o pagamento dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) em 30, 60, até 90 dias. Hoje, como os fornecedores tradicionais não têm o produto, é preciso buscar outros. E quem dita as regras são eles, com exigência de pagamento à vista, por exemplo. “Além do preço extremamente abusivo, não temos de quem comprar.”

O secretário da saúde do município de São Bernardo Campo, no ABC Paulista, Geraldo Reple, observa que o problema de falta de insumos e preços exorbitantes é generalizado: afeta tanto os hospitais da rede pública como os privados. Além das máscaras, ele cita o caso dos respiradores. “Os poucos que existem, antes da pandemia custavam R$ 60 mil e hoje o preço é 200 mil. Esse é o grande nó”, resume.

Para equipar os quatro hospitais do município, um deles com uma ala reservada só para os pacientes de covid-19, o secretário diz que está gastando muito mais. Antes da pandemia, os hospitais públicos da cidade utilizavam entre quatro mil e cinco mil máscaras cirúrgicas por mês. Hoje é essa quantidade por dia. São Bernardo do Campo é a terceira maior cidade do Estado de São Paulo com mais óbitos por conta do novo coronavírus.

O secretário ressalta que o grande problema para combater a pandemia é a falta de testes que identificam quem já foi contaminado. Também este insumo subiu de preço e a oferta é insuficiente.

Ele conta que os sete municípios do ABC paulista tinham se unido para comprar um milhão de testes. Foi feita a licitação, e quem ganhou foi um fornecedor chinês. Cada teste saía por R$ 4. Na hora de fechar o negócio, o preço pulou para quase R$ 200, o que inviabilizou a compra. “As pessoas estão perdendo a crítica, estão gananciosas”, afirma o secretário. Resultado: o município depende hoje de  testes enviados pelo governo federal, compra alguma coisa quando o preço está razoável e tenta fazer a testagem por meio de exames em  laboratórios.

Medicamentos

Tanto Morato como Reple dizem que não observaram aumentos nos preços dos medicamentos, até porque não existe um remédio único usado para o combate da doença. Neste caso, a pressão de preços dos insumos foi sentida pelos laboratórios que produzem a hidroxicloroquina, ao remédio apontado como uma das alternativas para curar a doença e que ainda é foco de muita controvérsia.

“Recebemos denúncias de laboratórios com aumentos de até 900% no preço dos insumos usados para a produção da hidroxicloroquina e estamos investigando”, afirma Fernando Capez, diretor da Fundação Procon-SP e que comanda a Secretaria Especial de Defesa do Consumidor, criada em São Paulo no início deste mês para atuar em questões de abusos de preços relacionados com a pandemia.  

O secretário conta que as empresas foram notificadas e que elas ainda têm prazo para responder. Caso se comprove o abuso, o Procon vai agir em conjunto com o Departamento de Polícia Estratégica, “porque é caso de crime, não apenas uma violação de direito do consumidor”, explica Capez.

Se confirmado, trata-se de um crime contra economia popular “violentíssimo”, diz o secretário. A pena prevista em lei é de dez anos de detenção. No caso dos EPIs,  foram recebidas denúncias de hospitais privados sobre de abuso de preços e no momento o processo está em fase investigação com a ação da polícia.

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