Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Prefeitura de Osasco monta tenda de higienização; conselho de química aponta risco

Mistura de extrato vegetal e hipoclorito de sódio com água pode causar irritação na pele e nos olhos

João Prata, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2020 | 17h46

A prefeitura de Osasco montou nesta segunda-feira uma tenda no centro da cidade para higienizar as pessoas borrifando uma solução com água sanitária. Infectologistas contestam a eficácia dessa medida contra o novo coronavírus, apontam riscos e dizem que a distribuição de máscaras de pano traria melhor resultado.

Desde o início da manhã, quem chega ou sai da estação de trem da CPTM em Osasco tem a opção de passar por uma estrutura de ferro que dispara uma mistura de extrato vegetal e hipoclorito de sódio com água. A medida foi inspirada em uma receita elaborada pelo Conselho Federal de Química (CFQ), que não foi consultado sobre a ação. Funcionários da prefeitura orientam os pedestres a atravessar a tenda de braços abertos.

Por meio de nota, o CFQ informou que a solução é feita para "para ser aplicada em superfícies inanimadas no interior de residências onde não hajam casos suspeitos ou confirmados da Covid-19". E também que não recomenda o uso em pessoas, pois o  "hipoclorito de sódio é corrosivo e pode causar irritação na pele e nos olhos".

Infectologistas ouvidos pelo Estado desconhecem a efetividade desta ação da prefeitura de Osasco no combate à pandemia. "Não tenho conhecimento científico sobre essa atitude. Também não sei se há outro país com essa prática", comentou Fábio Lopes Pedro, infectologista da Universidade Federal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul.

Amílcar Tanuri, professor titular do departamento de genética do Instituto de Biologia da UFRJ, se mostrou contrário à medida. "A quantidade de hipoclorito necessária para matar o vírus é alta. A concentração necessária seria lesiva para os olhos, por exemplo", analisou.

Para ele, seria importante testar essa mistura em laboratório. Amílcar alertou que há meios comprovadamente mais úteis para evitar o contágio. "A fonte de proliferação não está na roupa, na pele. Seria muito melhor que as pessoas pudessem lavar as mãos e usar máscaras. Não sei por que ainda não está havendo distribuição de máscaras em massa para a população. Máscaras caseiras, de pano mesmo. O efeito seria melhor. Não vejo eficácia em borrifar essa composição."  

Por meio de nota, a prefeitura de Osasco informou que o composto higieniza roupas, pertences pessoais, além dos sapatos. "O Conselho Federal de Química publicou um review que detalha informações que integram o 'Technical Brief' da Organização Mundial de Saúde (OMS), lançado neste mês, para auxiliar no enfrentamento à pandemia de coronavírus."

O documento em que a prefeitura utilizou como base informa que a "solução diluída de água sanitária em poucos segundos (15 a 20s) elimina o coronavírus da superfície dos objetos de sua casa". O documento ensina misturar 25ml de água sanitária em um litro de água e orienta passar a solução com pano úmido ou com frasco borrifador.

"Temos buscado alternativas para reduzir a disseminação do vírus. No entanto, ainda enfrentamos dificuldades do entendimento da população, que insiste em não respeitar o isolamento social, sendo que o isolamento é uma das medidas mais importantes no combate ao vírus", disse o prefeito Rogério Lins.

Segundo a prefeitura, a região central de Osasco tem registrado a movimentação de cerca de 80 mil pessoas por dia no período de quarentena - antes era de 350 mil pessoas/dia. O município pretende ampliar as estações de higienização nos próximos dias. A estação Presidente Altino deve receber a segunda tenda de higienização.

Confira a íntegra da nota do Conselho Federal de Química:

É importante destacar que o material divulgado pelo CFQ orienta o preparo de uma diluição da água sanitária (que tem o hipoclorito de sódio como principio ativo) para ser aplicada em superfícies inanimadas no interior de residências onde não hajam casos suspeitos ou confirmados da Covid-19.

Para desinfecção de ruas, e exclusivamente das áreas públicas excluindo-se os cidadãos que por elas circulam, as prefeituras devem se atentar à Nota Técnica n° 22/2020/SEI/COSAN/GHCOS/DIRE3/ANVISA.

Em momento algum foi recomendado pelo CFQ que a solução diluída de água sanitária fosse borrifada/vaporizada sobre pessoas. O hipoclorito de sódio é corrosivo e pode causar irritação na pele e nos olhos.

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