GABRIELA BILO / ESTADAO
GABRIELA BILO / ESTADAO

Prefeitura fará mutirão antimosquito em Pinheiros

Para prefeito regional, situação criada por insetos na zona oeste é ‘caótica’ e ‘absurda'

Giovana Girardi, Edison Veiga e Pedro Venceslau, O Estado de S. Paulo

11 Janeiro 2017 | 03h00
Atualizado 12 Janeiro 2017 | 16h26

SÃO PAULO - Basta esquentar e chover para os pernilongos ganharem a cidade. A cena comum a todo verão parece, no entanto, ter saído do controle neste ano. A proliferação dos mosquitos é assunto nas redes sociais, nas reclamações à prefeitura regional e motivou um abaixo-assinado com mais de 8.300 assinaturas pedindo dedetização da margem do Rio Pinheiros. Diante da comoção, o prefeito João Doria (PSDB) conversou nesta terça-feira com assessores para saber a logística da operação de pulverização do rio. Amanhã, deve haver um novo fumacê na região.

Na avaliação do prefeito regional de Pinheiros, Paulo Mathias, a situação “é caótica”. “Já vi 40, 50 (mosquitos) em um poste de luz. É uma coisa absurda”, diz ele, que também deve participar da ação de amanhã, ao lado do secretário municipal de Saúde, Wilson Pollara.

Em seguida, a Prefeitura planeja uma reunião para definir os pontos estratégicos e um plano de ação para o combate ao mosquito. No abaixo-assinado, moradores questionam se o controle da margem do rio vinha sendo feito. De acordo com a assessoria da gestão Haddad, a aplicação de larvicidas biológicos era quinzenal e não foi interrompida, mas disse que o efeito pode ter sido enfraquecido pelas chuvas do fim do ano. 

Por meio de nota, a Secretaria de Saúde da gestão municipal atual também citou o intervalo de 15 dias como praxe para garantir a manutenção do poder larvicida residual. Questionada sobre qual poderia ser o motivo para o aumento das queixas dos moradores, a pasta informou, também por nota, que “o volume de reclamações tende a subir no verão, com temperaturas mais altas e mais chuvas, fatores que predispõem a altas proliferações de mosquitos”.

A entomologista (especialista em insetos) Maria Anice Sallum, professora da Universidade de São Paulo (USP), lembrou que este verão está mais quente que o normal. E confirmou que a aplicação de larvicidas e do inseticida para adultos depende das condições climáticas (mais informações abaixo).

Onda de calor. De acordo com dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a capital paulista completou nesta terça 23 dias de temperaturas máximas maiores ou iguais a 30°C. Bem acima da média histórica das máximas, que para dezembro é de 26,9°C e para janeiro, de 27,8°C. A condição que pode estar favorecendo o mosquito, juntamente com a água acumulada em criadores.

Na percepção da analista de seguros Thaís Villas Boas, de 37 anos, que iniciou o abaixo-assinado, o problema ficou mais evidente justamente quando começou a onda de calor. 

“Eu e meu filho somos alérgicos a picadas, sou síndica do meu prédio (na Vila Madalena) e todo mundo só falava nisso. Na semana passada, ficou muito pior, de não conseguir dormir de janela aberta, o que eu fazia antes. Aí resolvi fazer um desabafo, achei que recolheria umas cem assinaturas, mas aí vi que o problema é muito maior.”

A artista plástica Beth Klock, de 62 anos, que mora há 22 anos em uma casa no Alto da Lapa, também conta que nunca viu nada igual. “Cheguei a encher uma pá de lixo com mosquitos mortos num único cômodo da casa. Um verdadeiro absurdo. São ‘Culex’ gigantes. E o veneno de tomada não faz o menor efeito. Alguns aerossóis também não. Eles caem, mas logo ‘ressuscitam’. Descobri que tinha de pisar neles, ou então, matá-los afogados”, diz. “Minha estratégia agora é manter vidros fechados e dormir com o ar ligado em no máximo 20 graus. A conta do pernilongo vai ser salgada.”

Grávida de oito meses, a psicóloga Luisa Flosi Godoy, de 30 anos, moradora da Pompeia, não sabe mais o que é ter uma boa noite de sono. É um ritual: a aplicação do repelente corporal de quatro em quatro horas, somada a toda sorte de inseticidas. O spray automático, ligado o tempo todo dentro da casa. Aquele de tomada, no plugue todas as noites. E, sempre que necessário, um reforço do spray manual também. Fora a raquete elétrica sempre à mão.

Na tarde desta terça, técnicos instalaram tela mosquiteira em todas as janelas de sua casa. “Espero resolver agora. Porque não tenho sossego: é dia e noite”, conta ela, que investiu R$ 3 mil no sistema para tentar proteger a casa.

QUATRO PERGUNTAS PARA...

Maria Anice Sallum, professora do Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública da USP

1. Vários moradores da zona oeste de São Paulo vêm relatando um número maior de mosquitos neste verão, em comparação com os anos anteriores. Isso é só impressão ou a quantidade pode realmente ter aumentado?

As reclamações dos moradores e as imagens apresentadas nos meios de comunicação indicam que ocorreu aumento da quantidade de pernilongos nos ambientes mostrados. A presença de mosquitos em área urbana tropical é normal, pois tanto a temperatura como a umidade são elevadas, especialmente no verão e, portanto, propícias para a proliferação desses insetos. Em temperaturas mais elevadas, o desenvolvimento das fases iniciais de vida (larvas e pupas) é mais rápido. Esse fato, juntamente com a maior oferta de criadouros, por causa da água que se acumula no ambiente, incluindo em recipientes diversos, favorecem a proliferação de pernilongos. Águas ricas em matéria orgânica são ideais para o desenvolvimento das larvas dos pernilongos (Culex quinquefasciatus). Dessa maneira, é fácil entender a presença de grande quantidade de Culex em áreas próximas dos rios poluídos do município de São Paulo. 

2. O aquecimento global pode estar colaborando?

Sim, a temperatura mais elevada ajuda bastante na proliferação de mosquitos. Além disso, as condições climáticas do ano 2016 foram favoráveis aos mosquitos, com chuvas e poucas semanas apresentando temperaturas baixas. Com isso a proliferação pode ter começado antes do início do verão. O Culex, o pernilongo comum, que está sendo apontado pelos moradores da cidade de São Paulo, necessita de água rica em matéria orgânica para o desenvolvimento das fases iniciais de vida. As fossas sépticas, calhas entupidas, galerias de água pluvial entupidas, rios e córregos contaminados com esgoto, piscinões, e recipientes, pequenos e grandes representam excelentes ambientes para a proliferação do Culex. Como não temos reciclagem adequada, recipientes que acumulam água podem ser utilizados como criadouros pelo Culex. 

3. O mosquito pode estar resistente ao fumacê?

Sim, os mosquitos podem ficar resistentes aos inseticidas usados no “fumacê”. Além desse problema, há também o fato de que nem sempre é possível utilizar o fumacê, pois as condições climáticas podem não ser as mais adequadas. As partículas do inseticida têm de permanecer suspensas no ar por certo período para que eliminem os mosquitos. Por exemplo, se estiver chovendo ou ventando, não é possível fazer a aplicação, pois ocorrerá a perda do produto, agravada pela contaminação do ambiente, sem ter o resultado esperado. Além disso, o inseticida deve ser aplicado durante o período de maior atividade dos mosquitos. Durante o dia, o fumacê atingiria os adultos de Aedes, mas não os de Culex. A aplicação de inseticidas pode ser feita durante o dia nas margens de rios e córregos poluídos, pois visa eliminar os pernilongos que estão em repouso na vegetação. Para matar tanto adultos de Aedes, como do pernilongo, o fumacê teria de ser aplicado durante o dia e também à noite. O controle seria mais efetivo com a aplicação de larvicidas, pois afetaria uma população maior, mas as condições climáticas devem ser avaliadas para evitar a perda do produto por causa das chuvas.

4. Nessas condições, o que fazer, então?

Utilizar medidas de proteção individual, como mosquiteiros, instalação de telas nas janelas e portas das casas, uso de repelentes de longa duração e armadilhas para captura de mosquitos adultos no ambiente domiciliar. As telas devem ser de boa qualidade e ter perfeita adaptação às janelas e portas, ou os pernilongos e o Aedes ultrapassarão as barreiras com facilidade. Devemos considerar que os processos evolutivos do pernilongo (Culex) e do Aedes estão associados ao comportamento do ser humano e ao processo de urbanização. Na realidade, esses insetos “conhecem muito bem” o ambiente humano.

 

 

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