Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

Prematuro recebe afeto de 'pai canguru'

Com a participação paterna, a recuperação do bebê é mais rápida, afirma médica

Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

15 Março 2014 | 20h21

RIO - Heitor nasceu aos sete meses de uma gestação até então tranquila. Tinha 40 centímetros e pesava 1,625 quilo. Com pré-eclâmpsia e pancreatite, Caroline de Souza, de 27 anos, teve de ser operada às pressas e foi direto para a UTI. Coube ao pai, o aplicador de película para vidros Carlos Vinícius de Lima Silva, de 29 anos, o papel de acolher Heitor – primeiramente com carinhos na incubadora, até poder depois aninhar seu filho no colo.

Silva é um "pai canguru", uma adaptação da estratégia de assistência ao prematuro em que o bebê é retirado da incubadora em alguns momentos do dia para ter contato pele a pele, geralmente com a mãe.

Heitor nasceu na Maternidade do Hospital Rocha Faria, primeiro da rede estadual do Rio a ter o "pai canguru". Hospitais da rede municipal e federal já oferecem esse atendimento. "Os bebês têm a recuperação mais rápida quando o pai participa do processo. Mas a grande função é a integração da família. O pai passa a participar mais dos cuidados", afirma a coordenadora de neonatologia da unidade, Angélica Svaiter.

Silva diz que logo depois do nascimento do filho, mal olhou o bebê. "Minha prima morreu de eclâmpsia, eu só queria saber se minha mulher estava viva", lembra. Quando o bebê ficou estável e deixou a UTI, as sessões de canguru começaram. Três vezes por dia, Heitor é preso ao corpo do pai com ataduras. Ficam ao menos uma hora assim, três vezes por dia. "A primeira vez foi indescritível. Dá para sentir o batimento do coraçãozinho, o calor do corpo", conta. Na quarta-feira, Heitor chorava na incubadora, mas acalmou-se quando foi para o colo do pai. Silva se afastou do trabalho.

A estudante Raiane Batista Martinez, de 16 anos, diz que a filha, Eloah, ganhou peso mais rápido depois que passou a ter contato com o pai, o vendedor Sidney Monteiro Júnior, de 22 anos. Aos dois meses, ela pesa 1,8 quilo, mas nasceu com somente 950 gramas. "Eles estão mais ligados. Ela é a vida dele. Hoje ele troca fralda, segura a seringa para dar o leite", afirma.

O Ministério da Saúde estabelece uma meta de internação em UTI neonatal por, no máximo, 14 dias. Em 2012, esse tempo chegava a 22 dias no Rocha Faria. Baixou para 13, em 2014. "Seguimos as boas práticas: o bebê mama na primeira hora de nascido, temos estratégia canguru, oferecemos o ofurô, shantala (massagem). Tudo isso contribuiu para o tempo de internação menor", diz Miliene Evangelista, coordenadora de enfermagem da UTI neonatal.

Família. A estratégia canguru se mostrou tão eficiente que o Instituto Fernandes Figueira, da Fundação Oswaldo Cruz, ampliou a técnica também para as avós – é a "família canguru". Em 2012, foi inaugurada a Unidade Canguru, fora da UTI, para esse tipo de atendimento.

"Os colombianos são os criadores do método canguru. Fomos a Bogotá conhecer o trabalho e, por lá, a experiência é com a família toda. Tem muita mãe adolescente, solteira, e a avó participa dos cuidados. Essa é uma realidade próxima da que temos na população de baixa renda do Rio", diz João Henrique Leme, chefe de atenção clínica ao recém-nascido do IFF.

Na Unidade Canguru, as mães passam o dia com os bebês junto ao corpo. Pais têm livre acesso. Para que a mãe não fique estressada com o longo tempo de internação, a avó fica com o bebê enquanto ela sai. "Com a ‘família canguru’, o bebê ganha peso e há fortalecimento do vínculo familiar", resume Leme. Cem bebês já passaram pela Unidade Canguru.

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