Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Presença de madeireiros pressiona povos indígenas na Amazônia

Atualmente, há seis casos confirmados de contaminação por covid-19 entre indígenas e dois óbitos; desmatamento continua em alta na floresta

André Borges, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2020 | 05h00

BRASÍLIA – O coronavírus já entrou nas terras indígenas. Atualmente, há seis casos confirmados de contaminação por covid-19 entre indígenas e dois óbitos, segundo informações da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), subordinada ao Ministério da Saúde .

O pesquisador do Instituto Socioambiental (ISA), Antonio Oviedo, afirma que o avanço do crime organizado sobre a floresta continua, o que potencializa ainda mais o risco de contaminação dos indígenas, já que é dentro das terras demarcadas que estão as madeiras mais nobres da Amazônia, como o ipê. Entre agosto de 2019 e março deste ano, o desmate explodiu na Amazônia e já é quase o dobro do que no ano anterior.

“Temos registros novos de abertura de picadas na mata. O madeireiro entra na floresta de quadriciclo, de moto, durante a chuva mesmo. Não esperam mais a seca. O crime agora acontece o ano todo, e mesmo com uma pandemia avançando pelo país. O garimpo também segue a pleno”, diz Oviedo. 

A Funai informou que impediu a entrada de qualquer não índio em todas as terras indígenas do País. A fiscalização, no entanto, é mínima.  Oviedo lembra que os índios são, naturalmente, mais vulneráveis a epidemias por causa de condições precárias sociais e de saúde. Além disso, vivem em áreas com dificuldade de acesso a serviços de saúde, seja pela distância ou pela falta de aparato médico.

Nesta quarta-feira, as organizações Greenpeace, Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e Apoika emitiram uma nota para alertar sobre o risco de iminente invasão da terra indígena Karipuna, em Rondônia. Os índios da aldeia, afirmam as organizações, foram surpreendidos com quatro invasores limpando uma área de floresta, a menos de dez quilômetros da aldeia onde vivem e, atualmente, estão em isolamento, para se proteger da pandemia do novo coronavírus.

Na semana passada, 115 instituições da Amazônia e demais regiões do Brasil emitiram um manifesto de alerta ao governo, para cobrar ações emergenciais para evitar que a pandemia da covid-19 se alastre entre os 800 mil indígenas do País. No manifesto publicado pelo Fórum Nacional Permanente em Defesa da Amazônia (FNPDA), as instituições pedem medidas imediatas de prevenção e assistência à saúde, com o encaminhamento de profissionais de saúde e medicamentos, máscaras e kits de teste rápido, além de materiais de higiene.

A Secretaria Especial de Saúde Indígena, do governo federal, orientou indígenas a evitarem deslocamentos das aldeias a centros urbanos, assim como não permitirem a entrada de pessoas externas em suas terras. Conforme o ministério, 800 mil indígenas vivem em aldeias sob responsabilidade de atendimento dos 34 distritos sanitários especiais em todo o País.

Na semana passada, após a confirmação de infecção por covid-19 em uma agente de saúde indígena no Amazonas, o governo federal decidiu reformular o comitê de crise para enfrentar a pandemia entre esses povos. Com a mudança foi criado um Comitê de Crise Nacional, composto por dois subcomitês: o Comitê de Crise Central, que funcionará no âmbito da própria Sesai, e os comitês de crise distritais, para cada um dos 34 distritos sanitários especiais indígenas do País.

 

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