Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

‘Pressa é inimiga da perfeição’, diz Queiroga sobre vacinação de crianças

Decisão sobre imunização das crianças só deve ser tomada no dia 5 de janeiro, após uma consulta pública sobre o assunto. Aprovação da vacina para crianças foi dada pela Anvisa na última semana

Eduardo Gayer, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2021 | 13h22

BRASÍLIA - Após o governo decidir submeter a vacinação de crianças de 5 a 11 anos a uma consulta pública, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, afirmou que "a pressa é inimiga da perfeição". A imunização dessa faixa etária com doses pediátricas da Pfizer já foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas ainda não tem data para começar no Brasil.

“Colocaremos em consulta pública esse assunto para que a sociedade tome conhecimento e registre sua opinião. Não é eleição para saber quem quer e quem não quer, é ouvir a sociedade”, afirmou Queiroga na chegada ao ministério nesta segunda-feira. Uma decisão sobre a imunização das crianças, portanto, só deve ser tomada no dia 5 de janeiro, após o resultado da consulta.

De acordo com Queiroga, a vacinação de crianças - criticada pelo presidente Jair Bolsonaro - precisa ser discutida profundamente e “sem açodamento”. “Depois [da consulta pública], as contribuições serão discutidas pela área técnica. Se faz audiência pública onde se discutirá aprofundadamente esse assunto. Depois o Ministério da Saúde fará suas considerações ou recomendações”, disse o chefe da Saúde. “Minha preocupação hoje é ampliar a segunda dose e a dose de reforço”, acrescentou.

O ministro ainda se irritou ao ser cobrado por jornalistas sobre um prazo para o início da vacinação de crianças. “A pressa é inimiga da perfeição. O principal é a segurança. Você tem filho? Quando você tiver um filho de cinco a 11 anos, você vai entender o porquê eu to fazendo isso”, disse a um repórter. “Cronograma acontece no âmbito do ministério da Saúde. Eu não abro mão de nenhuma prerrogativa aqui”, completou, deixando claro que as análises da pasta e da Anvisa são “distintas”.  

Neste domingo, 19, Bolsonaro voltou a criticar a aprovação da Anvisa para a vacinação infantil contra a covid durante passeio por Praia Grande, no litoral paulista, na tarde deste domingo, 19. Em conversa com apoiadores e acompanhado de Pedro Guimarães, presidente da Caixa Econômica Federal, ele afirmou que a imunização de crianças é "coisa muita séria" e defendeu que haja autorização dos pais e receita médica para aplicar a vacina na população pediátrica.

"É o pai que decide, se depender de mim, e com receita médica também. É você quem decide, não o governador", disse. "Criança é uma coisa muito séria. Não se sabe os possíveis efeitos adversos futuros."

Bolsonaro disse ainda que teria conversado com Queiroga, sobre o tema. "Liguei às 4h para o Queiroga, dei uma diretriz para ele. Obviamente ele bate o martelo porque é o médico da equipe. Vacina para criança primeiro só autorizada pelo pai. Se algum prefeito, governador, ditador quiser impor é outra história. Mas, do governo federal, tem que ter autorização dos pais, tem que ter uma receita médica", comentou, afirmando que a pasta "vai anunciar nos próximos dias isso daí".

Em seguida, Bolsonaro voltou a atacar a Anvisa, afirmando que é "inacreditável" o que o órgão fez. "O controle da farmacovigilância é a Saúde que vai ver isso, tem que ser exercido pela Anvisa. Tem uma nota de 4 ou 5 dias da Anvisa, onde tem 15 itens, e não estamos divulgando. Não estou fazendo juízo de valor, só falando o que a Anvisa está fazendo." Apesar de reconhecer que "o controle da farmacovigilância tem que ser exercido pela Anvisa", Bolsonaro ameaçou durante sua transmissão divulgar "extraoficialmente" os nomes dos servidores e diretores responsáveis pelo aval.

A fala de Bolsonaro foi recebida com repúdio pela Anvisa, que, em nota, reforçou que "seu ambiente de trabalho é isento de pressões internas e avesso a pressões externas". Já neste domingo, o diretor-presidente da agência, Antonio Barra Torres, publicou um novo documento co-assinado pelos diretores da autarquia, no qual relata um aumento nas ameaças físicas contra servidores do órgão desde a intimidação do presidente.

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