Tiago Queiroz/ Estadão
Tiago Queiroz/ Estadão

Primeiro dia de vacinação contra a gripe tem drive thru e filas com lugares demarcados

Movimento foi intenso nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) em São Paulo

Bruno Ribeiro e Gonçalo Jr., O Estado de S.Paulo

23 de março de 2020 | 20h42

Vacinação com drive thru, seguindo o modelo dos restaurantes de alimentação rápida, e filas com lugares assinalados no chão para definir a distância entre cada pessoa marcaram o primeiro dia de vacinação contra a gripe (influenza) nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) em São Paulo. O movimento foi intenso, com filas de espera de até 30 minutos em algumas unidades. A meta é imunizar 1,8 milhão de pessoas.

Embora a vacinação não proteja contra o coronavírus, idosos acima de 60 anos, o público-alvo desta fase de vacinação ao lado dos profissionais de saúde, revelaram o temor de uma contaminação por gripe no meio de uma quarentena pelo covid-19. Por isso, eles resolveram quebrar o isolamento social imposto pela pandemia para se proteger de outros tipos de vírus já no primeiro dia.

O movimento foi grande logo nas primeiras horas da manhã. Na UBS Walter Elias, na zona norte, a senha para atendimento dos pacientes ultrapassava o número 130 por volta das 9h30. Na UBS Santa Cecília, uma das mais requisitadas na zona oeste, a procura foi ainda maior. Os agentes comunitários de saúde apontavam que 300 pessoas já haviam sido imunizadas antes das 11 horas. Até unidades de pequeno porte, como a UBS Fabio Feldmann, em São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo, registraram grande movimentação. No meio tarde, 252 pessoas haviam sido atendidas. Em dias normais, o número não passa de 100.

A grande procura provocou filas em algumas unidades, com espera de 20 a 30 minutos, como em Santa Cecília. “Eu pensei que teríamos até uma correria maior”, diz a aposentada Maria do Carmo Menezes, de 63 anos. Participam da campanha 468 UBSs e 450 escolas que estão atendendo os idosos depois de fechadas para as aulas por causa do coronavírus. Outras 600 instituições, como clubes, associação de moradores e casas de repouso, também terão vacinação. A vacinação foi antecipada de 22 de maio para 23 de março devido ao avanço dos casos de coronavírus. A vacina vai auxiliar profissionais na triagem de pacientes e acelerar o eventual diagnóstico do covid-19.

A corrida aos locais de vacinação logo no primeiro dia de uma campanha tem algumas explicações, como o desejo de se prevenir o quanto antes. Preocupada com o avanço do coronavírus, a médica Maria Regina Barros não queria esperar a vacinação em sua própria unidade de trabalho e procurou logo cedo a UBS Bosque da Saúde, na zona de sul de São Paulo. Ela tinha pressa para se proteger. “Eu quis vir logo no primeiro dia para que a vacina comece a fazer efeito o quanto antes”, explica a profissional da saúde de 60 anos.

Marcas no chão

Calçadas ao redor de algumas UBS e também as áreas internas foram demarcadas para garantir que os idosos não se aglomerassem nas filas. As marcas no chão, feitas com fitas adesivas na maioria dos casos, foram usadas para delimitar um metro de distanciamento entre as pessoas. Na UBS Vila Barbosa, também na zona norte, funcionou a promessa da Secretaria Municipal de Saúde de garantir um fluxo interno para garantir que as pessoas permanecessem afastadas umas das outras. Os agentes de saúde pediam “distância de um metro” insistentemente.

Locais que não fizeram marcações no chão tiveram problemas para conter aglomerações, como na UBS Walter Elias. Um médico do Corpo de Bombeiros que foi ao posto para se vacinar precisou ajudar a separar as filas. Pessoas com senhas ficaram misturadas com pessoas sem senha, o que gerou gritaria e princípio de tumulto por volta das 10h30. “Não pode ter aglomeração. A gente corre certo risco ao sair de casa e quebrar o isolamento, mas é preciso evitar uma situação pior de contaminação por outros vírus”, diz o representante comercial Edélcio Franco, de 69 anos.

Em praticamente todas as unidades, pessoas com necessidades especiais e cadeirantes foram vacinados sem sair do carro. Profissionais da saúde saíram da UBS e iam até o estacionamento. Foi assim que a professora Suely Gomes, de 62 anos, conseguiu proteger o pai, Curt França, de 93 anos. “Os profissionais estavam atendendo outros idosos no carro também. Foram atenciosos”, elogia.

A previsão da prefeitura é também vacinar idosos acamados que não possam ir até o posto de saúde. Nessas circunstâncias, a família que deve acionar uma UBS para verificar a disponibilidade. Casos prioritários terão vacinação em domicílio. A partir de 16 de abril, a campanha será estendida a professores, profissionais da área de segurança e pessoas com doenças crônicas não transmissíveis. Em maio, serão incluídas crianças entre seis meses e seis anos, grávidas, puérperas, povos indígenas, internos e funcionários do sistema prisional, além de adultos com idades entre 55 e 59 anos.

Drive Thru de vacinação

Duas regiões distintas, uma na zona sul de São Paulo e outra em Osasco, na região metropolitana, ofereceram a vacinação contra a gripe em um sistema de “drive thru”. A exemplo do que acontece no modelo dos restaurantes de refeições rápidas, idosos acima de 60 anos tomaram a vacina sem descer de seus veículos. Eles tiveram contato apenas com os enfermeiros.

Na UBS Max Perlman, na Vila Nova Conceição, zona sul de São Paulo, profissionais de saúde iam até a janela dos carros, com máscaras e seringa, aplicar a vacina na população. Uma faixa de rolamento de trânsito foi reservada para a fila de carros. O início da vacinação contou com a presença do prefeito, Bruno Covas. "A secretária de Saúde montou uma estrutura própria para que os idosos possam ser bem recepcionados nas UBS. Estamos ampliando os espaços e com as escolas a gente já dobra o número de opções para eles poderem ir", disse Covas, ao comentar o temor que parte da população tem em ir ao posto para se vacinar contra a gripe e contrair a covid-19.

“Achei uma boa ideia. É importante proteger os idosos de todas as formas”, diz o engenheiro Pedro Ornellas, que levou a mãe, Julia Ornellas, de 77 anos, para o posto de vacinação na zona sul.

Em Osasco, o local do drive thru da vacinação foi o estacionamento da sede da prefeitura. De acordo com o órgão foram aplicadas cerca de 1100 doses no primeiro dia de campanha. Jeferson Clemente, consultor de vendas em concessionárias, levou os pais Aderaldo Leal da Silva e Alice de Clemente para tomar a vacina ontem no meio da tarde. “A ideia foi bacana. Achei que faltou um planejamento prévio, uma divulgação mais antecipada. Meus pais souberam ontem somente”, comenta.

A bancária Luciana Soyza afirma que a montagem do drive thru facilitou bastante na hora de levar sua mãe, Alzira Soyza, de 92 anos, para se vacinar. “Na situação atual de prevenção, o máximo que pudermos fazer para evitar exposição dos idosos é válido”, avalia.

O posto de saúde próximo da residência de Célia Prestes estava atendendo apenas casos de coronavírus. Por isso, ela decidiu ir até a prefeitura para levar sua mãe, Benedicta Brito, de 77 anos. “Não precisamos expor nossos idosos num momento tão delicado. Foi bem melhor que levá-los ao posto de saúde”, diz a administradora de empresas.

A principal queixa dos usuários se referiu ao tempo de espera, da ordem de 20 a 30 minutos. Mesmo com o encerramento dos portões, às 15h, dezenas de carros ainda aguardavam o serviço na avenida Narciso Sturlini, na região central de Osasco. “Foi um pouco demorado. Levou uns 30 minutos ou mais, mas a ideia foi boa”, opinou Célia.

Motoristas reclamaram também de não encontrar vacinas em outros pontos de vacinação da cidade fora do drive thru. Jeferson Clemente conta que percorreu dois pontos, não achou a vacina e aí recorreu ao drive thru. Rogério Lins, prefeito de Osasco, argumenta que a prefeitura recebeu apenas 22 mil doses para imunizar uma população de cerca de 112 mil idosos. O órgão espera que o governo estadual aumente as doses destinadas ao município nos próximos dias. “Nossa intenção é criar cinco pontos de drive thru para vacinação dos idosos”, promete. / COLABOROU TIAGO QUEIROZ

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