AP Photo/Antonio Calanni
Policial atende passageiro na principal estação de trem de Milão, na Itália AP Photo/Antonio Calanni

Contra o coronavírus, Itália anuncia ampliação da área de quarentena para todo o país

Um novo decreto do governo exigirá que todas as pessoas na Itália provem a necessidade de viajar para fora das áreas onde vivem. País vive surto da nova doença

Agência, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2020 | 18h21
Atualizado 01 de abril de 2020 | 18h37

O primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte, anunciou na tarde desta segunda-feira, 9, a ampliação da área de quarentena para o todo o país com objetivo de combater o avanço do novo coronavírus. Com isso, as restrições de deslocamento que valiam em províncias no norte italiano passam a ser adotadas em todo o país. Acompanhe as últimas sobre o coronavírus notícias em tempo real

Um novo decreto do governo exigirá que todas as pessoas na Itália irão precisar demonstrar a necessidade de trabalhar, condições de saúde ou outros motivos  para viajar para fora das áreas onde vivem. "Não haverá apenas uma zona vermelha. A Itália estará protegida em todo o seu conjunto", disse Conte a repórteres, referindo-se a um bloqueio de áreas no norte. "Haverá a Itália" como uma área protegida, disse ele.

"Todos devemos desistir de algo pelo bem da Itália. Temos que fazer isso agora e só conseguiremos se todos colaborarmos e nos adaptarmos a essas medidas mais rigorosas", falou Conte.  O primeiro-ministro acrescentou que todos os eventos esportivos - incluindo jogos de futebol - estão sendo suspensos em todo o país. Todas as escolas e universidades, que foram fechadas em todo o país na semana passada,  não serão reabertas antes do próximo mês.

Os passageiros que partem em vôos, exceto visitantes temporários, terão que se justificar, assim como todos os que chegam de avião. Existem controles nas estações de trem para verificar as temperaturas. Os navios de cruzeiro são proibidos de atracar em vários portos.

A Itália registrou 1.807 novos casos confirmados de coronavírus - para um total de 9.172 casos confirmados desde o início da epidemia. Com os números mais recentes, a Itália superou a Coréia do Sul (7478 casos) como o país com mais casos fora da China. O número de mortos na Itália também aumentou de 97 para 463.

No último domingo,  Conte anunciou a quarentena obrigatória na região da Lombardia e também em 14 províncias. O bloqueio atingia cidades como Milão e Veneza - e tinha previsão de prosseguir até o dia 3 de abril.

Conte afirmou que as medidas adotadas há apenas dois dias  em grande parte do norte não eram mais suficientes e que teriam que ser estendidas a todo o país a partir de terça-feira. "Fique em casa", disse Conte.

“Não há mais vida noturna; não podemos mais permitir isso, pois são ocasiões de contágio ", afirmou o primeiro-ministro. As restrições são semelhantes às aplicadas anteriormente na região mais afetada da Lombardia e em 14 outras províncias. 

Bares e restaurantes devem fechar após às 18h. As reuniões públicas também estão proibidas - inclusive aquelas de caráter religioso, como casamentos e velórios. Também serão limitadas as visitas aos hospitais e centros de saúde. O decreto também prevê que as pessoas fiquem a pelo menos um metro de distância das outras em mercados e restaurantes.

É a primeira vez que uma medida de isolamento é adotada em todo um país. A China tinha tomado atitude semelhante, mas que se restringiu apenas à província de Wuhan, epicentro do surto do novo coronaírus.

Reação mundial

No Brasil, João Gabbardo, secretário-executivo do Ministério da Saúde, considera a medida italiana "extremamente radical". Mas ele ponderou que o ministro da Itália deve ter tomado essa decisão baseado no preocupante aumento do número de casos. No Brasil, não há expectativa de medida semelhante.

A Tunisia suspenderá todos os voos e envios para a Itália, exceto para a cidade de Roma. A Tunísia anunciou na segunda-feira que havia confirmado mais três casos de coronavírus, elevando para cinco o número total no país, dos quais quatro haviam chegado recentemente de Itália.





 

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Brasil não prevê repatriar brasileiros que vivem na Itália, diz secretário do Ministério da Saúde

País europeu ampliou área de restrição de deslocamento para combater avanço da doença. 'Não existe no radar essa possibilidade de repatriação', disse Gabbardo

Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2020 | 21h07

BRASÍLIA - O secretário-executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo Reis, descartou repatriar brasileiros isolados na Itália após ampliação da área de quarentena para tentar combater o avanço do novo coronavírus no país europeu. "Não existe no radar essa possibilidade de repatriação dos que estejam na Itália", disse o secretário nesta segunda-feira.

Em fevereiro, o governo brasileiro repatriou um grupo de cerca de 30 brasileiros e seus familiares que viviam na cidade de Wuhan, na China, epicentro do surto. Gabbardo Reis também considerou pouco provável a possibilidade de o Brasil adotar medida semelhante caso o novo coronavírus avance no país e classificou a decisão dos italianos como "extremamente radical". 

Ele lembrou que o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, tem se colocado "completamente contrário" a uma medida como essa. "Poderia não impedir a transmissão e os efeitos (da quarentena ampliada) poderiam ser tão ou mais maléficos para a população do que a própria transmissão do vírus", avaliou o secretário-executivo.

Para o Ministério da Saúde, as próximas duas a quatro semanas "serão cruciais" para avaliar comportamento do coronavírus no Brasil.

O secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, Wanderson Oliveira, declarou que considera ser possível conter a propagação do coronavírus no Brasil. "A Organização Mundial da Saúde tem colocado isso reiteradamente. É uma pandemia, mas possivelmente será a primeira pandemia que teremos capacidade de conter. Assim desejamos, que seja possível conter. Agora, se identificarmos que há circulação comunitária, transmissão comunitária, esse argumento não se sustenta pela própria natureza da doença. Vamos aguardar", disse.

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Brasileiros falam sobre a quarentena contra coronavírus na Itália

Governo italiano decretou quarentena na região norte do país, isolando 16 milhões de pessoas. Estima-se que até 90 mil brasileiros vivam na região

Paloma Cotes e João Ker, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2020 | 15h00

SÃO PAULO - Esta segunda-feira, 9, foi o primeiro dia útil da quarentena decretada pelo governo do Itália na tentativa de conter a epidemia do novo coronavírus que toma o país. No final de semana, o primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte, decretou quarentena na região norte do país, em todo o Estado da Lombardia e em mais 14 províncias, isolando 16 milhões de pessoas. Cidades como Milão e Veneza estão no cerco.

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil estima que de 70 mil a 90 mil brasileiros estão nesta área. O bloqueio está previsto para durar até o dia 3 de abril. Além da quarentena, o governo italiano determinou o fechamento de escolas, ginásios, museus, cinemas e clubes noturnos, entre outros espaços públicos da região. 

O Estado ouviu relatos de brasileiros que vivem nessas regiões. 

Claudio Teixeira Souza, de 54 anos, chef de cozinha e fotógrafo

 

"Moro em Modena, uma das áreas afetadas pela quarentena decretada pelo governo italiano neste final de semana após o avanço rápido do surto de coronavírus na Itália. A verdade é que já estamos vivendo uma situação de anormalidade há semanas.

 

A escola da minha filha, de 15 anos, está fechada há um mês e ela vem tendo aulas por videoconferência desde então. Minha mulher, que é funcionária de uma empresa, já está em home office há dias.

 

Eu trabalho em um restaurante e vi o movimento cair drasticamente. Com o avanço do coronavírus, mesmo antes da quarentena oficial, de dia atendíamos no máximo duas, três pessoas. De noite, não passava de 15 clientes. Antes do coronavírus, com a casa cheia, eram 40. O dono do estabelecimento ainda não decidiu o que vai fazer diante da quarentena, se vai continuar aberto ou fechar. As pessoas estão evitando sair às ruas e o governo recomenda até que evitemos visitar os amigos. O que nos assustou no final de semana foi o salto rápido no número de casos. Aqui em Modena, tínhamos notícia de que eram em torno de 20. E, de repente, no dia seguinte, eram mais de 300.

 

Quando vou ao mercado, por exemplo, uso máscara e luva e já há a recomendação de que mantenhamos distância de pelo menos um metro das pessoas. Na rua, a sensação é de desconfiança entre as pessoas. Basta tossir para que alguém te olhe de forma apavorada. As lojas estão vazias e as ruas, desertas.

 

Ainda não faltam produtos, mas não sabemos como vai ficar daqui para frente. Por isso, só tenho saído para trabalhar e fazer coisas essenciais. Essa restrição de deslocamento causa uma sensação estranha, mas vamos obedecer. Ficar em casa é nossa forma de ajudar a doença a não se disseminar ainda mais."   

Gabriela Mileip, 30 anos, tradutora

"Aqui em Turim, as escolas, cursos e universidades estão fechados para os alunos, mas os docentes e funcionários estão se organizando pra continuar ministrando os cursos à distância. Os casos estão se multiplicando muito rápido e os hospitais estão superlotados.

Festas e eventos estão proibidos e o governo desaconselha reuniões pequenas. Cinemas estão abrindo, mas devem obedecer ao decreto que dita uma distância mínima de 1 metro entre os espectadores, o que diminui em 50% a capacidade das salas. A propósito da distância de segurança, ela foi aconselhada para qualquer situação, como ida a supermercados, transporte público, cafés, tudo. 

Já tem algumas semanas que o povo de Turim passou por um primeiro momento de pânico:  começaram a esvaziar os supermercados, não se encontrava álcool gel em lugar nenhum pra comprar. Infelizmente, o racismo e a xenofobia afloraram e houve casos de violência contra chineses e descendentes, notícias de pessoas foram agredidas no transporte público por outros cidadãos por terem simplesmente espirrado ou tossido. 

Agora a cidade está mais vazia, muita gente foi pra regiões de montanha ou regiões satélite de Turim. Infelizmente a parcela da população que mais resiste às medidas muitas vezes é justamente a mais frágil nessa situação, os idosos. Ainda os vemos frequentemente reunidos em grupos em lugares fechados como cafés e bares. 

Como mãe e trabalhadora, com minha filha em casa desde o carnaval, estamos evitando sair até mesmo para passeios enquanto estivermos próximos ao período de pico de contágio. Meu trabalho particularmente não foi afetado posso trabalhar em casa, mas a rotina agora inclui os estudos da minha filha Laura, que está na primeira série, também em domicílio; as professoras estão fornecendo conteúdo online para acompanhamento diário e estamos nos virando assim. 

Meu companheiro está se formando na universidade agora, e deve apresentar o trabalho de conclusão de curso em abril; a apresentação aqui geralmente é feita em sessão aberta ao público, mas agora estão cogitando fazer via Skype. 

Como medidas de higiene, não posso dizer que estamos fazendo muita coisa de diferente: além de lavarmos as mãos com sabão quando chegamos em casa ou quando vamos comer (por higiene, não somente por causa do coronavírus), estamos evitando sair para comer ou pedir delivery, e estou lavando, sempre que possível, embalagens de produtos que compramos no supermercado. Aqui em casa não estamos em pânico, creio que seja porque estamos bem informados e sabemos que as medidas do governo são necessárias para a contenção da propagação, principalmente para a proteção dos mais vulneráveis. Eu pessoalmente penso que a administração pública e os órgãos de saúde estão fazendo um bom trabalho, considerando que se trata de uma situação inesperada e que se desenrolou muito rápido. De resto, é esperar passar o período de pico e esperar que o calendário anual (estudos, trabalho) sofra o menos possível."

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No primeiro dia de confinamento geral, surge uma questão: os italianos conseguem seguir as ordens?

Itália decretou quarentena nas regiões de Milão e Veneza e isola 16 milhões de pessoas; a medida representa o esforço mais abrangente fora da China para impedir a disseminação do coronavírus. O bloqueio deve durar até o dia 3 de abril

Jason Horowitz e Emma Bubola, The New York Times

09 de março de 2020 | 16h00

ROMA - O primeiro-ministro Giuseppe Conte encerrou a entrevista coletiva às 14h15, anunciando o confinamento extraordinário do norte da Itália com um apelo que outros chefes de Estado talvez não se sintam obrigados a fazer.

“Precisamos entender que todos devemos nos policiar e que não podemos desobedecer a essas medidas”, insistiu ele nas primeiras horas do domingo. “Não devemos nos arriscar nem tentar ser espertos”.

Conte tinha acabado de decretar uma série de medidas que representavam a maior reação contra o surto do novo coronavírus no mundo ocidental, restringindo os deslocamentos de cerca de um quarto da população italiana e comprometendo sua economia.

Mas, diferentemente da China, onde o surto começou, a Itália é uma democracia, e de imediato se questionou se o governo conseguiria impor as novas regras - e se os italianos realmente as obedeceriam.

“Somos a nova Wuhan”, disse Elena Lofino, 39 anos, que trabalha em um shopping na região da Lombardia, agora confinada, referindo-se à cidade chinesa de 11 milhões de habitantes onde se acredita que o vírus tenha se originado.

Passeando com amigas, Lofino disse que achava que as medidas faziam sentido. “Será um grande sacrifício”, disse ela, “mas vamos aceitá-lo”.

Horas depois que o primeiro-ministro anunciou as restrições, o número de mortos pelo vírus na Itália aumentou mais de 50% em um único dia, de 233 para 366 - o maior número oficialmente registrado em qualquer país fora da China. A Itália tem o pior surto da Europa, com mais de 7.300 infectados.

Muitas pessoas, entre elas Conte, apelaram para que os italianos deixassem de lado sua tendência à furbizia, palavra que designa o tipo de astúcia ou inteligência normalmente canalizada para contornar a burocracia e as leis inconvenientes.

A furbizia é, sem dúvida, um traço de caráter abrangente, muitas vezes atribuído aos italianos pelos próprios italianos.

No domingo, a palavra parecia estar na cabeça de todos, enquanto as autoridades repreendiam viajantes que correram para os trens que deixavam a Lombardia antes que o decreto entrasse em vigor e os especialistas em saúde imploravam para que a população cumprisse a lei e agisse com responsabilidade.

Os feeds das redes sociais italianas no domingo estavam cheios de cantores famosos e personalidades da mídia engajados em uma campanha contra as interações sociais.

“Você precisa ficar em casa!”, a médica Barbara Balanzoni disse em um vídeo que viralizou. Ela informou que não havia respiradores suficientes para ajudar as pessoas que ficaram doentes por causa do vírus.

“Ainda tem muita gente andando por aí”, protestou Balanzoni.

Quando os museus se fecharam em todo o país, o ministro da Cultura, Dario Franceschini, agradeceu “os muitos protagonistas da música, cinema e show business” que promoveram nas mídias sociais a hashtag “eu vou ficar em casa”.

“É uma mensagem muito importante para a nossa juventude”, escreveu ele no Twitter.

Em Roma, fora das “zonas vermelhas” confinadas mais ao norte, as autoridades recomendaram que as pessoas limitassem seus deslocamentos ao que seria “estritamente necessário”. Valeria Graziussi, napolitana que mora em Roma, disse que ela e suas amigas decidiram “fazer um experimento”.

Na tarde de domingo, ela saiu para tomar um café no Sant'Eustachio, um dos cafés mais conhecidos da cidade, sempre lotado. “Você quase nunca fica no balcão por mais de trinta segundos”, disse ela.

Ainda assim, Graziussi enfrentou filas para ser atendida e, portanto, considerou o experimento um sucesso.

“Não estamos tão apavorados assim”, disse seu amigo Davide d'Andrea, dando de ombros.

O decreto prevê três meses de possível prisão para pessoas que não observam algumas de suas disposições, entre elas as que proíbem reuniões e as que restringem o deslocamento de pessoas cujos testes para o vírus deram positivo.

As autoridades italianas adotaram algumas das medidas mais agressivas para impedir a propagação do vírus. Cancelaram voos da China em janeiro, impuseram quarentena a cidades inteiras em fevereiro e, agora, limitaram severamente os deslocamentos em toda a Lombardia (onde fica Milão, a potência econômica do país), bem como em áreas de outras regiões próximas e cidades icônicas, como Veneza.

Críticos disseram que os apelos ao dever cívico foram minados pela confusão. Segundo eles, as mensagens contraditórias do governo e das autoridades das regiões do norte do país sobre o que as pessoas podiam fazer e para onde podiam ir não estavam ajudando. Eles também criticaram o governo nacional em Roma por uma esquizofrenia que oscila entre alertas que ordenam que a população deixe de fazer tudo e mensagens tranquilizadoras que garantem que basta lavar as mãos.

Embora Conte tenha dito que os italianos são “obrigados” a permanecer nas áreas demarcadas do norte, a menos que tenham permissão para passar pelos postos de controle da polícia, a autoridade lombarda responsável pela resposta da região à crise disse que o confinamento não era assim tão rigoroso.

Giulio Gallera, principal autoridade da área de saúde da região da Lombardia, disse em um post no Facebook que o decreto assinado durante a noite por Conte havia gerado “dúvidas” entre os cidadãos. Gallera sugeriu que, para preservar a economia do país, os cidadãos deveriam se deslocar para trabalhar. E disse que o governo nacional deveria esclarecer qualquer confusão sobre o assunto.

Matteo Salvini, líder do partido da oposição, fez eco ao sentimento. “Clareza, clareza, clareza!”, ele disse em um comunicado. “Quem pode fazer o quê? Para onde você pode ir? O que você pode trazer?”.

Nos dias que antecederam o decreto, idosos dos arredores da cidade de Zorlesco, hoje em quarentena, brincaram dizendo que seus amigos muitas vezes escapavam às ordens e enganavam os postos de controle da polícia, pegando estradas antigas para ir ao bar tomar um drinque fora da área confinada.

Mas as autoridades italianas certamente não acham nada disso engraçado e perderam a paciência com qualquer manifestação de furbizia.

Nas regiões do sul do país, os governadores dizem que qualquer pessoa que chegue das áreas confinadas do norte deve ficar em quarentena.

Giuseppe Ippolito, diretor do Instituto Nacional de Doenças Infecciosas Lazzaro Spallanzani, em Roma, declarou na televisão que “as pessoas que fugiram na noite passada são um risco potencial para o país”. Ele insistiu que essas pessoas deveriam entrar em contato com os serviços de saúde, relatar sua situação e “estar prontas para um eventual isolamento”.

Autoridades da região do Lácio, onde o governador disse no sábado que havia contraído o vírus, postaram no Facebook fotos de ruas e praças movimentadas de Roma com a legenda #nãopodemosfazerisso.

No clássico estudo que Luigi Barzini escreveu em 1964 sobre seus compatriotas, “Os italianos”, ele atribuiu o valor reputado à furbizia ao hábito italiano de ser conquistado e governado por uma longa fila de estrangeiros e pretendentes odiados, de Napoleão aos Habsburgo.

“Os italianos inventaram maneiras de derrotar o regime opressivo na surdina”, escreveu Barzini. “Como não podiam proteger sua liberdade nacional no campo de batalha, eles lutaram arduamente para defender a liberdade do indivíduo e de sua família, a única liberdade que conseguiam compreender”.

O escritor comparou as ordens impostas por esses líderes às “barreiras de uma corrida de obstáculos” na qual os italianos provam sua velocidade. As leis, disse ele, se tornaram um mal necessário, mesmo que só para “proporcionar o prazer de burlá-las”.

“Como alguém poderia burlar as leis se elas não existissem?”, escreveu.

Este é exatamente o tipo de pensamento que Conte pediu para os italianos evitarem. “Precisamos proteger nossa saúde”, indicou ele no domingo, “e a de quem nós amamos”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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