Werther Santana|Estadão
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Processo de aceitação do corpo passa longe da idealização comum

Faça as pazes com você: esse é o caminho para ter saúde física e mental. Confira histórias de quem decidiu romper com os padrões idealizados para melhorar o bem-estar

Kátia Arima , Especial para o Estadão

Atualizado

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Priscila Barros, de 35 anos, assumiu os seus cabelos brancos e reuniu milhares de brasileiras interessadas em fazer o mesmo. Coracy Arantes, aos 79 anos, posou de lingerie sexy no Tik Tok, no qual é aplaudida por seus 2,6 milhões de seguidores. Thiago Bronze, nutricionista de 35 anos, dá dicas de alimentação saudável e faz questão de exibir no seu perfil do Instagram o seu físico “normal” – com algumas gordurinhas localizadas e sem tanta definição muscular. Vanessa Joda, de 42 anos, não se importa em ser chamada de gorda, pois vê potência no seu corpo do jeito que ele é enquanto pratica ioga e ensina as posturas a seus alunos.

Na contramão das beldades fitness, essas quatro pessoas exibem nas redes sociais uma imagem bem diferente do padrão estético vigente, que determina que o belo é ser magro, com musculatura definida, jovem, sem deficiências e com pele branca, mas bronzeada, sem marcas como manchas e estrias. Em entrevista ao Estadão, elas contam como se libertaram dessas referências para buscar melhor saúde emocional e física, apesar de alguns olhares de reprovação nas ruas, das críticas de pessoas do círculo social e dos ataques de haters – aqueles que publicam comentários de ódio nas redes sociais.

As críticas feitas a Coracy, mais conhecida como Cora, são rebatidas com bom humor em vídeos no TikTok. Longe da faixa etária predominante nessa rede social, entre 18 e 24 anos, ela chacoalha o seu corpo de 79 anos em suas dancinhas. Ela conta que a brincadeira a ajudou a superar a depressão, mas quatro amigas desaprovaram a “ousadia” e cortaram relações. “Elas me criticaram dizendo que eu, na minha idade, não deveria posar de lingerie. Mas qual é o problema disso se eu me sinto bem com o meu corpo? Eu envelheci, claro, mas ainda é o meu corpo”, avalia. “Podem falar mal, pois há pessoas que me agradecem e minha família me apoia, já que é isso que eu gosto de fazer.”

Os padrões idealizados sempre existiram, mas a popularização das redes sociais tornou mais difícil aceitar o próprio corpo, pois a comparação é intensa e ilusória e os corpos ideais estão mais magros e “esculpidos”, observam os especialistas.

“Existe uma sobrevalorização da aparência externa e muitas pessoas acreditam que precisam seguir um determinado padrão para serem aceitas”, observa Fábio Salzano, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HCFMUSP). Ele trabalha no Ambulim, área do HC que atende pacientes pelo Sistema Único de Saúde (SUS) com transtornos alimentares como a bulimia, que leva a pessoa a repetidos episódios de consumo excessivo seguidos de ações inadequadas para evitar o ganho de peso.

As fotos dos influenciadores digitais preferidos dos pacientes atendidos pelo psiquiatra dizem muito para o médico. “Dá para perceber que essas pessoas consideradas modelos de beleza não conquistaram o corpo de forma natural, mas com uso de anabolizantes e hormônios de crescimento. Esse custo para conseguir o corpo ideal é muito alto e pode ter consequências físicas e psicológicas.”

Comparação das redes

Quando conferimos os posts das redes sociais, estamos constantemente observando corpos e modos de vida alheios, afirma a psicóloga Patricia Gipsztejn Jacobsohn. Segundo ela, que é coordenadora da Clínica Cybelle Weinberg de Estudos e Pesquisas em Psicanálise da Anorexia e Bulimia (Ceppan), a prática clínica e os estudos científicos mostram que o uso das redes sociais pode ser um fator que desencadeia ou mantém transtornos psiquiátricos relacionados à imagem corporal ou à alimentação.

Desde a infância, a professora de ioga Vanessa Joda, de 42 anos, é pressionada para emagrecer. Ela conta que isso a levou a praticar violências contra o seu corpo, como o consumo de remédios com efeitos colaterais. “A pessoa que é gorda é alvo de olhares de desprezo e perde oportunidades na sociedade, sendo julgada por seu corpo em entrevista de emprego, por exemplo. Isso não é só pressão estética, mas gordofobia”, diz. 

Ao praticar ioga, Vanessa percebeu que deveria aceitar o próprio corpo. Mas essa conquista foi gradual e difícil. “Como dizer para um gordo amar o seu corpo se o mundo inteiro sempre o levou a se odiar, a se culpar? Sei que se eu pisar de biquíni na praia, vão me olhar com nojo, como se eu não tivesse direito de estar lá”, afirma.

O medo da exclusão social é o que leva as pessoas a buscar o padrão vigente no feed do Instagram e outras redes, na visão da psicanalista e pesquisadora Joana de Vilhena Novaes, coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa e Intervenção Social da PUC-Rio. “A beleza padrão é considerada uma moeda de troca, valorizada no mercado de trabalho, no casamento”, exemplifica.

Seguir esse padrão, porém, custa caro – e as pessoas mais pobres se desdobram para buscar esse ideal, mas de maneira mais precária, com práticas de risco, que podem deixar sequelas, como dietas milagrosas, explica a pesquisadora. “O discurso perverso que diz que ‘só é feio quem quer’ cria um caldo de cultura que promove o adoecimento.” Nesse cenário, Joana considera válido o movimento Body Neutrality, que está no meio do caminho entre amar o corpo (o chamado Body Positive ou Body Positivity) e odiá-lo. “Essa proposta é mais inclusiva, acolhe pessoas comuns como gordos e velhos. Permite que você lide com a vida real, de forma não idealizada, com suas limitações e dores, não como uma vida de Instagram.”

Para o nutricionista clínico Thiago Bronze Dias, de 35 anos, aceitar o corpo não significa estar acomodado. “Ninguém está proibido de querer mudar o seu corpo. Mas aceitá-lo é importante. A partir do momento que a pessoa honra sua história, acolhe suas dificuldades e para de se comparar com os outros, ela consegue seguir adiante cuidando daquilo que ela tem.”

No seu perfil do Instagram, Bronze dá dicas de alimentação saudável, mas faz questão de liberar o chocotone no Natal, por ser uma guloseima sazonal, e de publicar fotos e vídeos que exibem o seu corpo que foge do padrão fitness. Ele critica quem usa a insatisfação corporal como estratégia para conquistar clientes. “Profissionais das áreas de nutrição e da educação física são grupo de risco para distúrbios alimentares e dismorfias corporais. Alguns já estão adoecidos e usam sua autoridade para adoecer mais pessoas.”

A visão do nutricionista sobre a pressão sofrida pelos profissionais de saúde – e repassada aos pacientes, numa espiral negativa – é compartilhada pelo educador físico Pedro Carvalho, pesquisador do Núcleo Interprofissional de Estudos e Pesquisas em Imagem Corporal e Transtornos Alimentares da Universidade Federal de Juiz de Fora (Nicta/UFJF). “É preciso formar profissionais de saúde capacitados a discutir o tema do corpo idealizado, que tem um impacto no atendimento dos pacientes”, diz.

“A prática disfuncional com o exercício está presente em muitas academias, boxes de crossfit e outros ambientes. Os profissionais de saúde devem estar atentos.” 

No dia a dia como professor de educação física, Carvalho percebe que o exercício deixou de estar focado no bem-estar, no lazer e na saúde, para ser responsável pelo formato, pelo peso e pela musculatura corporal. “Há um entendimento de que o corpo belo é saudável. Não é verdade. Muitas pessoas adotam comportamentos prejudiciais, como pular refeições, praticar exercícios em excesso e abusar de substâncias como laxantes, diuréticos e anabolizantes, sem acompanhamento médico.”

O padrão idealizado de corpo traz descontentamento às pessoas, o que é um fator de risco para transtornos alimentares e de imagem, explica Carvalho. A dismorfia corporal é um transtorno de imagem, em que a pessoa não se enxerga de forma adequada. “É o caso de um indivíduo musculoso e forte que se vê como fraco e franzino. Por isso, continua com comportamentos deletérios”, exemplifica.

Aceitação dos cabelos brancos

A mulher que decide aceitar os seus cabelos brancos também é atacada com piadas, olhares e comentários preconceituosos disfarçados, afirma a atriz e gerente de projetos Priscila Barros, de 37 anos, que fundou o Clube das Grisalhas, com cerca de 130 mil seguidores. Ao mesmo tempo que inspira outras mulheres a aceitarem os brancos de forma mais leve, ela ouve relatos tristes, como o de uma delas que perdeu o trabalho de empregada doméstica acusada de “nojenta” por não tingir os cabelos e de parceiros que reclamam que perderam a atração pela parceira por conta dos brancos. “Por isso, muitas mulheres desistem de assumir o visual grisalho.”

Para economizar o dinheiro da tintura, em janeiro de 2020, Priscila resolveu não pintar os cabelos enquanto estivesse trabalhando em casa, por causa da pandemia. “Quando participava das videoconferências, eu deixava a câmera fechada, para que não aparecesse meu cabelo. Eu tinha vergonha dos fios brancos, como se fosse coisa de gente descuidada.” Com o tempo, foi mudando de ideia e assumiu o visual. “Hoje o meu cabelo branco me faz sentir uma mulher mais poderosa, de personalidade”, diz, orgulhosa.

Identidade cultural

A psicanalista e pesquisadora Joana Novaes comenta que o culto ao corpo faz parte da identidade do país, com origem na época da colonização, quando indígenas e negros escravizados vestiam pouca roupa, em contraposição aos europeus. “No carnaval, é um grande status ser madrinha da bateria e as mulheres preparam seus corpos para esse momento”, diz. Não por coincidência, o Brasil é líder do ranking de procedimentos estéticos de todas as categorias, segundo o ISAPS (International Society of Aesthetic Plastic Surgery), com cerca de 2,5 milhões de procedimentos por ano. Entre os termos mais buscados no Google pelos brasileiros em 2021, estava “quanto custa uma lipo HD”, referente à “lipoaspiração de alta definição”, cirurgia plástica para remoção de gordura localizada.

Mas nem todas as pessoas que chegam ao consultório do cirurgião plástico podem se submeter ao procedimento. Modismo, imediatismo, distorção de imagem e expectativas irreais devem ser identificados no paciente pelo bom médico, que irá apresentar os riscos envolvidos. “Infelizmente, há profissionais que olham o paciente como cifrão na área de cirurgia plástica e de procedimentos estéticos, como em qualquer área”, afirma Dênis Calazans, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). Por isso, ele recomenda que o paciente não se guie por promessas milagrosas, pelo preço ou pelo número de seguidores do cirurgião plástico nas redes sociais. “Nenhum profissional tem uma varinha mágica para transformar o seu corpo em um corpo parecido de uma celebridade. Há limitações.”

A ginecologista Carolina Bastos Maia tem se preocupado com o crescente número de mulheres que chegam ao seu consultório inseguras com a aparência de suas vulvas, com desejo de mudar a cor e o formato dos lábios genitais. “Infelizmente há profissionais que se aproveitam dessa vulnerabilidade e, ao invés de ajudar a mulher a compreender que a vulva “padrão” não existe, eles vendem procedimentos estéticos dolorosos e que podem eventualmente ter uma cicatrização difícil e complicações”, lamenta. Para a médica, essa percepção distorcida recebe influência da pornografia e das redes sociais e seus filtros de imagem. “Essas angústias e dúvidas se apresentam em pacientes de todas as faixas de idade. Salvo poucas exceções, essas mulheres não precisam ser operadas, mas acolhidas.”

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