Procuradoria convoca médico responsável por eutanásia

Convocação pode ser vista como mais uma tentativa do Estado de interromper o caso de Eluana Englaro

Guilherme Aquino , BBC

05 Fevereiro 2009 | 14h26

A Procuradoria Geral da Itália convocou o chefe da equipe médica responsável pelo procedimento de eutanásia de Eluana Englaro, no que pode ser visto como mais uma tentativa do Estado de interromper o processo. O drama de Eluana, que vive há 17 anos em estado vegetativo, causou grande polêmica no país e teve repercussão internacional. O governo italiano e o Vaticano se opuseram publicamente ao processo. Veja também: Você concorda com a decisão de deixar Eluana morrer?Perguntas e respostas: entenda o caso Veja tudo que foi publicado sobre o caso de Eluana Englaro Eluana, de 38 anos, sofreu um acidente de carro em 1992. Após quase uma década de batalhas na Justiça, sua família conseguiu autorização para realizar a eutanásia, alegando que esse era o desejo da paciente. A eutanásia foi autorizada pela Corte de Apelações de Milão no dia 9 de julho de 2008 e confirmada pela Corte Constitucional três meses depois. Além do médico responsável pelo processo, a Justiça italiana convocou o advogado da família para comparecer à Procuradoria Geral, sem divulgar as razões da convocação. O início do protocolo de eutanásia está agendado para ter início nesta quinta-feira. Tecnicamente, os médicos da clínica Le Quiete, em Udine, noroeste da Itália, já poderiam suspender a hidratação e alimentação de Eluana.  O governo italiano já havia tentado interromper a eutanásia de Eluana na quarta-feira. O ministro da Previdência Social, Maurizio Sacconi, afirmou que a clínica geriátrica não seria confíável para praticar a eutanásia. Segundo Sacconi, a clínica não teria equipamento apropriado para a prática e nem poderia terceirizar o atendimento. As declarações do ministro foram vistas como mais um indício de que o governo quer manter Eluana viva. A clínica afirma ter as condições ideais para a execução da sentença judicial.  Para o advogado de Beppino Englaro, pai de Eluana, "a decisão de seguir em frente está coberta pela Justiça italiana".  'Doce morte'  O protocolo sobre a eutanásia aprovado pela magistratura prevê a redução gradual da alimentação artificial três dias após a internação de Englaro. A falta de proteínas, gordura, água e açúcar é compensada pela aplicação de sedativos para evitar prováveis convulsões no organismo da paciente. Todos os membros da equipe, entre médicos e enfermeiros, são voluntários reunidos pela associação Per Eluana (Para Eluana), criada para aplicar a sentença emitida pela Justiça. Segundo especialistas, o óbito pode acontecer entre 10 e 21 dias, dependendo do quanto Eluana, já debilitada pelas suas condições físicas, resistiria à falta de nutrição.  Desde o acidente que sofreu em 1992 a jovem virou o símbolo da luta pelo direito de morrer na Itália - onde a prática da eutanásia é proibida. Campanhas a favor e contra o suicídio assistido se espalharam pelo país através de manifestações públicas e pela internet. Na Itália, sede territorial da Santa Sé, a Igreja Católica exerce forte influência sobre o Parlamento e a sociedade. O Vaticano chegou a declarar que a morte de Eluana equivaleria "a um assassinato".  O presidente da organização dos bispos italianos, Ângelo Bagnasco, disse à emissora católica Sat2000, que "este é um momento muito grave e muito triste na história do nosso amado país. A morte de Eluana será uma grave ferida na cultura da Itália".  O Movimento pela Vida, associação de católicos, instalou uma barraquinha nas imediações da clínica Le Quiete e fundou um comitê denominado Per Eluana e tutti noi (Para Eluana e todos nós). Os seus integrantes aceitam doações de garrafas de água como forma de protesto contra a suspensão da hidratação e da alimentação da paciente. E os membros mais radicais da organização não descartam a possibilidade de fazer greve de fome quando o protocolo médico for aplicado na paciente.  O caso aumenta a pressão sobre o poder legislativo pela criação de uma lei que regularize o testamento biológico e outras questões relativas ao fim da vida. O ministro da Justiça, Angelino Alfano, disse que um projeto de lei já está sendo analisado.  Ele veta a interrupção de alimentação e hidratação de pacientes vegetativos. Para ganhar tempo, o primeiro-ministro Silvio Berlusconi indicou a hipótese de emitir um decreto-lei, mesmo correndo o risco de criar um conflito com o poder judiciário e de não conseguir a aprovação do presidente da Itália, Giorgio Napolitano.

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