Produtores de açúcar do Brasil atacam OMS

Para o setor, recomendações da agência para redução do consumo 'desviam a atenção' e 'não refletem as evidências científicas'

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

05 Março 2015 | 17h50

GENEBRA - Os produtores de cana-de-açúcar do Brasil, os maiores fornecedores do alimento no mundo, atacaram a decisão da Organização Mundial da Saúde (OMS) de propor a governos uma redução dramática no consumo de açúcar de adultos e crianças. Para o setor, as recomendações da agência de Saúde da ONU "desviam a atenção" e "não refletem as evidências científicas disponíveis", além de gerar um impacto econômico negativo. 

Na quarta-feira, 4, a OMS revelou o resultado de mais de um ano de trabalho e que culminou com a recomendação de que, para uma melhor saúde entre a população, o açúcar não deve representar mais de 10% da energia consumida por uma pessoa por dia. No caso da América do Sul, isso representaria uma redução de 60% no consumo. 

Para promover essa redução, a OMS sugere que governos elevem impostos para bens como refrigerantes e alimentos processados, além de proibir a publicidade para crianças. Outra sugestão é de que os alimentos tragam etiquetas para deixar claro a quantidade de açúcar em cada um deles. 

O governo brasileiro indicou que vai esperar até a reunião da OMS de meados do ano para tomar uma "posição política" sobre o assunto. O Brasil é hoje o maior exportador de açúcar do mundo. 

Mas, nesta quinta-feira, a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA) deixou claro que não está de acordo com a posição da OMS e admite o impacto econômico da proposta. "Recomendações desta natureza não só podem impactar negativamente em um dos setores mais relevantes do ponto de vista socioeconômico para o País, como também na liberdade de escolha e necessidades individuais da população", atacou a entidade em um comunicado.

"A UNICA acredita que esta recomendação da OMS desvia o foco de atenção da sociedade no que diz respeito à promoção de hábitos saudáveis como um todo", insistiu, apontando para a necessidade de um "estilo de vida equilibrado" e que "envolve uma dieta saudável, prática de exercícios físicos, sono adequado, uma série de hábitos em conjunto e não tem uma relação exclusiva com a eliminação do açúcar ou de determinado ingrediente da alimentação". 

O setor também ataca a proposta de novos impostos. "Taxar alimentos e bebidas não contribui para a luta contra a obesidade e outras doenças crônicas não transmissíveis", declarou.

Científico. Para a UNICA, a posição da OMS não responde às pesquisas realizadas nos últimos anos. "O consumo de açúcar isoladamente não pode ser apontado como causa da obesidade, diabetes ou outras doenças graves", insistiu a entidade. 

Outro argumento é de que o consumo de açúcar "não causa um pico glicêmico no sangue" e apontam que "o diabetes é causado por uma combinação de fatores genéticos e hábitos de vida".

A UNICA também contesta o resultado da OMS de que a queda no consumo de açúcar levaria a uma redução de cáries. "Nos dias atuais, o risco de cárie dentária é quase inexistente com a adoção de higiene oral adequada e com o uso de flúor em cremes dentais e na água", argumentou. 

Até mesmo a relação entre a obesidade e o açúcar é questionado pela UNICA. "Os açúcares, individualmente, não provocam o aumento de peso", disse. "Não há provas consistentes de que açúcares afetam a obesidade mais do que qualquer outro macronutriente", alegou. "O aumento da obesidade é causado não só pelo acréscimo no consumo calórico, mas também pela redução da atividade física", completou.

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