jonne roriz/estadão
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Professora morre após tentar parto em casa e passar por cesárea

Filha nasceu saudável em hospital, mas mãe teve de ser internada, em São Carlos; ela faleceu dez dias depois de dar à luz

Chico Siqueira, O Estado de S. Paulo

24 Julho 2015 | 17h58

Atualizada às 23h02

SÃO JOSÉ DO RIO PRETO - A professora de enfermagem da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), Mariana de Oliveira Fonseca Machado, de 30 anos, morreu na terça-feira, 21, dez dias após tentar um parto em sua casa e ser levada para uma maternidade para fazer uma cesárea, em São Carlos, no interior de São Paulo.

Mariana, especialista em Saúde da Mulher e vice-coordenadora do curso de Enfermagem da universidade, queria ter o filho em casa e contratou uma doula (parteira). Ela teria tentado por 48 horas dar à luz em casa, mas não conseguiu e foi levada à Casa de Saúde e Maternidade de São Carlos, onde foi submetida a uma cesariana. A criança, uma menina, nasceu saudável, no dia 11 de julho.

No entanto, Mariana não conseguiu se recuperar e foi levada para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) da Casa de Saúde. Dias depois, com o agravamento do estado de saúde da mulher, o marido de Mariana, que é médico anestesista, pediu sua transferência para o Hospital de Base (HB) de São José do Rio Preto. Segundo o HB, Mariana deu entrada "em estado muito grave" em 18 de julho e morreu na última terça-feira, 21.

O HB informou que a família não permitiu divulgar a situação clínica da paciente, cujo estado de saúde foi deteriorando no decorrer dos dias de internação. A causa da morte somente será confirmada em 60 dias após a conclusão dos exames de necropsia pelo Instituto Médico Legal (IML) de São José do Rio Preto, para onde o corpo foi levado, antes de ser enterrado na cidade de Patrocínio, no interior de Minas Gerais, onde moram familiares da professora, que não quiseram falar sobre o caso com a imprensa.

Como a família não permitiu que os hospitais divulgassem dados do atendimento de Mariana, a natureza e a causa das complicações não foram reveladas, assim como o nome da parteira que a acompanhava. No entanto, já se sabe que Mariana teria sofrido uma parada cardiorrespiratória porém, por causa do sigilo interposto pela família, não se sabe se foi antes ou depois do parto, na Casa de Saúde e Maternidade de São Carlos. A criança passa bem.

A Casa de Saúde divulgou nota afirmando que o parto foi realizado "sem nenhuma intercorrência". "No entanto, no processo pós-cirúrgico, devido ao quadro clínico da paciente, foi encaminhada à Unidade de Terapia Intensiva -UTI Adultos", onde permaneceu internada até dia 18, "quando foi transferida, a pedido da família, para o Hospital de Base de São José do Rio Preto".

O Estado procurou a assessoria de comunicação da Ufscar, que informou que não se manifestaria por se tratar de uma questão particular. A reportagem também pediu para entrevistar algum profissional ligado a Mariana - a assessoria falou que estavam todos de férias e ninguém falaria.

Horas depois de informar que não se manifestaria sobre o caso, a Ufscar divulgou uma nota na qual tenta explicar os fatos. A nota não cita a tentativa do parto em casa nem revela o motivo que a levou a optar pela cesariana. Também não explica, principalmente, o que aconteceu para que a professora fosse internada na UTI. Diz apenas que, poucas horas depois de ser levada para o quarto, "iniciou um quadro de complicações, que resultou no trágico desfecho".

Segundo a nota, a professora "aguardou a evolução para um parto natural" e no sábado, 11, "encaminhou-se ao hospital", "chegando ao local em perfeito estado de saúde". Sem explicar os motivos, a nota diz que "algumas horas depois, Mariana foi submetida à cesariana". A nota não explica essa escolha, mas afirma que "dados científicos indicam que a cesariana aumenta o risco de morte materna 3-5 vezes, comparada ao parto normal".

Leia a seguir, a nota na íntegra: 

"Professora Doutora Mariana de Oliveira Fonseca-Machado, enfermeira obstetra, mestre e doutora pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto/USP, era docente e pesquisadora da área da Saúde da Mulher do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de São Carlos. Com base em seu conhecimento e acompanhamento médico durante o pré-natal, que evidenciou uma gestação sem intercorrências, aguardou a evolução para um parto natural.

Assim, a Prof.ª Mariana entrou em trabalho de parto no sábado, dia 11 de julho, estando acompanhada por profissional capacitado durante todo o processo. Para continuidade do trabalho de parto, encaminhou-se ao hospital no início da noite do mesmo dia, chegando ao local em perfeito estado de saúde. Algumas horas depois, Mariana foi submetida à cesariana, tendo a oportunidade de pegar sua filha no colo e amamentá-la.

Posteriormente, foi encaminhada ao quarto junto com sua filha e, poucas horas depois, iniciou um quadro de complicações, que resultou no trágico desfecho. Infelizmente, preconceitos em relação ao parto natural e a "cultura de cesariana" brasileira, associados à falta de responsabilidade no compartilhamento de informações nas redes sociais e na mídia, levaram a divulgações equivocadas sobre o caso.

Dados científicos indicam que a cesariana aumenta o risco de morte materna em 3-5 vezes, comparada ao parto normal. Dentre todas as causas de morte materna a hemorragia é a mais frequente delas.

Em solidariedade à família da professora Mariana, o Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de São Carlos manifesta seu profundo repúdio às manifestações sensacionalistas veiculadas. Como instituição dedicada à promoção de conhecimento, convidamos toda a comunidade à reflexão e colaboração para que a verdade deste triste episódio seja esclarecida, contribuindo para a melhora do cuidado à saúde das grávidas do Brasil."

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