USDA/Divulgação
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Projeto cogitado contra 'tríplice epidemia' parou por falta de verba

Interrupção de pesquisa com mosquito transgênico ocorreu em setembro, depois de pelo menos quatro meses nos atrasos dos repasses

Lígia Formenti, O Estado de S. Paulo

24 Novembro 2015 | 19h44

Bióloga da Universidade de São Paulo, Margareth Capurro espantou-se quando soube que o ministro da Saúde, Marcelo Castro, citou a pesquisa de mosquito transgênico Aedes aegypti como uma arma promissora para conter epidemias de dengue, chikungunya e zika. "O trabalho está parado por falta de verbas", contou a bióloga, coordenadora do trabalho.

A interrupção ocorreu em setembro, depois de pelo menos quatro meses nos atrasos dos repasses. Com a interrupção, uma boa parte do trabalho que havia sido feito, se perdeu.

"Mesmo que houvesse interesse, teríamos de começar praticamente do zero", conta. O projeto começou há três anos. Ele tem como ponto de partida o desenvolvimento de espécies transgênicas de Aedes aegypti. Tais espécies produzem filhotes que morrem antes de chegar a vida adulta, quando podem transmitir a dengue. A estratégia é semelhante a uma tática usada, com sucesso, para drosófila, a mosca da fruta.

Até o ponto em que foi realizada, a pesquisa foi bem-sucedida. Machos transgênicos foram soltos em duas cidades. "Houve uma redução significativa do número de Aedes selvagens." No entanto, com a interrupção do programa, uma fase crucial da pesquisa não pode ser feita: o impacto que tal mudança na população teria para transmissão do vírus da dengue.

"A população de mosquitos foi retomada. Teríamos de refazer tudo para, numa outra etapa, fazer uma avaliação epidemiológica", contou a professora. Ela estima que a pesquisa, se fosse retomada sem nenhuma restrição de recursos e tivesse todas as condições, levaria pelo menos cinco anos para ser concluída. O projeto foi financiado pela Secretaria de Saúde da Bahia. "Eles tinham interesse em concluir", conta. "Mas não havia recursos disponíveis", completa.

Ela avalia que a interrupção é fruto da crise enfrentada no Brasil. Ao todo, o projeto previa o investimento de R$ 4 milhões. Cerca de R$ 2 milhões foram usados. "Esse investimento, no entanto, foi em vão." Margareth afirma entender que gestores têm de fazer escolhas. "Se não há recursos nem mesmo para assistência, talvez pesquisas fiquem em segundo plano." Ela lembra, ainda, que havia uma esperança de que a vacina contra dengue poderia resolver boa parte do problema. "O que vemos agora, com a chegada de outros agentes infecciosos, é que a vacina sozinha não será suficiente. Estamos numa crise. E não vejo uma solução a curto prazo."

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