Prontuário eletrônico pretende diminuir mortes por erros médicos

Site Saúde Direta, criado pela USP, cruza dados de remédios para verificar possíveis interações

Agência USP

03 Dezembro 2010 | 18h55

SÃO PAULO - Já está disponível na internet um prontuário eletrônico capaz de verificar as interações entre medicamentos no ato da prescrição e, com isso, evitar reações adversas nos pacientes. Esse único sistema disponível em português no Brasil pode ser acessado no Portal Saúde Direta, desenvolvido no Centro de Incubação de Empresas Tecnológicas (Cietec) da USP.

“O prontuário eletrônico surge como uma ferramenta que evita erros médicos, causados pelas interações entre os medicamentos, além de aumentar o tempo destinado à conversa entre médico e paciente e ao correto diagnóstico”, afirma o dermatologista e mestre em engenharia biomédica Paulo Celso Freire, responsável pela criação do portal.

De acordo com ele, “a chance de interação entre medicamentos em um paciente que toma três remédios por dia é de 15%, enquanto, em outro que toma seis, esse índice sobe para 80%. Com oito remédios, a interação é certa, 100%”. Segundo Freire, existem 155 mil interações possíveis, podendo ser leve, moderada ou grave. As leves e moderadas podem causar problemas renais, hepáticos e intoxicação. Já as graves necessitam internação e podem resultar em morte.

Estimativas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) apontam que cerca de 40% dos pacientes não entendem as prescrições médicas, enquanto cerca de 60% das prescrições contêm erros que se referem a dosagem, tempo de uso, nomes de remédios ou má caligrafia. De acordo com a Fiocruz, os erros médicos relacionados às prescrições representam 24 mil mortes por ano no Brasil, sem levar em conta a automedicação e o uso de fitoterápicos.

Como o sistema funciona

Ao escrever o nome comercial do medicamento no prontuário eletrônico, o software automaticamente o decompõe em sua fórmula química e cruza os dados com os de outros remédios para verificar as interações possíveis.

A plataforma ainda tem mais de mil protocolos de tratamento e um completo banco de dados de medicamentos (11 mil) para auxiliar os médicos nos tratamentos das mais diversas doenças ou em necessidades específicas dos pacientes, como a prescrição de antibióticos para grávidas, por exemplo.

As consultas ao site são gratuitas para pessoas físicas (médicos), e empresas jurídicas (clínicas e hospitais) devem pagar uma taxa de administração. Com apenas quatro meses de existência, o portal soma 2 mil médicos cadastrados em mais de 170 cidades brasileiras e conta com mais de 3 mil acessos por mês no que se refere às interações. Atualmente, o site pode ser utilizado somente por médicos, mas alguns farmacêuticos clínicos do Hospital São Paulo e do Albert Einsten já o utilizaram em testes de funcionalidade e o aprovaram.

A página está hospedada na mesma empresa que hospeda a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), encarregada da troca de tráfego da internet. O Saúde Direta mantém ainda um eficiente sistema de segurança, com criptografia bancária, contra hackers e invasões.

Utilidade pública

Com o aumento do uso desses recursos por médicos de todo o País, o portal conseguirá monitorar toda a incidência de doenças no Brasil, por intermédio do Código Internacional de Doenças (CID-10) que os médicos utilizam no prontuário eletrônico.

Qualquer doença crônica, infecciosa e de notificação obrigatória pode ser detectada instantaneamente em qualquer município. Com isso, a plataforma auxiliaria o Ministério da Saúde no planejamento de ações de combate a epidemias. “A ferramenta auxiliará o governo em uma Política de Saúde Pública e numa melhor gestão de consumo de medicamentos”, afirma Paulo Celso Freire.

Além disso, o site está em constante aperfeiçoamento e em breve poderá indicar ao médico qual o medicamento que melhor atende o paciente de acordo com seu diagnóstico, idade, sexo e antecedentes, além de sua capacidade financeira. “Ao escrever o diagnóstico no prontuário eletrônico, o software fornecerá uma lista de remédios indicados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pelos protocolos do ministério, além de preço de mercado para o tratamento daquele paciente e os exames laboratoriais necessários”, exemplifica.

Por fim, o portal pretende auxiliar os médicos em prescrições que levem em conta a intolerância de medicamentos e proporcionar aos pacientes uma espécie de “médico-localizador”, que consiste em orientar a população na busca pelo especialista mais próximo de sua residência. “A ideia é simples: a pessoa colocaria o CEP na nossa plataforma e, então, nosso banco de dados indicaria o profissional mais próximo de casa, voltado para as necessidades dela”, conclui Freire.

Mais conteúdo sobre:
prontuário eletrônico erros médicos

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.