Proteína pode levar a vacina contra Aids, diz estudo

Quemoquina seria capaz de potencializar a criação de anticorpos contra o HIV.

Guilherme Aquino, BBC

03 de outubro de 2007 | 18h28

Pesquisadores italianos afirmam ter descoberto o papel de uma proteína que pode ser fundamental no combate à Aids e a outras doenças sexualmente transmissíveis.A revelação do novo mecanismo imunológico pode até ajudar na criação de uma vacina anti-Aids. A proteína seria capaz de potencializar a criação de anticorpos contra o vírus HIV e pode representar um avanço importante para a medicina.A quemoquina, presente no organismo humano e envolvida em processos inflamatórios, estimula as células responsáveis pela imunidade a aumentar a produção da imunoglobulina do tipo A, na região genital, a principal porta de entrada do vírus HIV.Normalmente, este anticorpo já está presente nas mucosas da boca, do intestino e dos órgãos sexuais, mas em quantidades menores.O resultado da pesquisa foi anunciado pelo professor Mario Clerici, do Departamento de Ciência e Tecnologia Biomédica da Universidade de Milão.Clerici coordena uma equipe internacional de 15 cientistas do Hospital SS. Annunziata Antella (Florença), do IRD de Montepellier (França) e das universidades americanas Columbia (Nova York), UCLA (Los Angeles), além da africana da Zâmbia, em Lusaka.Os cientistas já tinham indícios da relação entre o aumento da produção de quemoquina e a lenta progressão da doença, mas a certeza chegou somente agora."Tudo começou na Zâmbia. Observamos que os filhos de cem mães com Aids bebiam o leite materno contaminado e se tornavam soropositivos" contou Clerici, em entrevista à BBC Brasil. "Alguns morreram após 15 meses de vida, outros sobreviveram muito mais tempo ou continuam vivos.""Nos perguntamos a razão e descobrimos uma alta concentração de quemoquina no leite das mães dos filhos sobreviventes", acrescentou.A concentração da proteína quemoquina, conhecida pela sigla CCL 28, encontrada no "leite forte" era cerca de 53 vezes acima do nível normal. O passo seguinte foi cruzar esta informação com a de uma pesquisa já em curso no mundo inteiro, desde 1997, sobre casais nos quais o parceiro é soropositivo. Na Itália, 70 mulheres de companheiros contaminados continuavam imunes a doença mesmo mantendo relações sexuais sem qualquer tipo de proteção. "Nessas mulheres, verificamos que a concentração de quemoquina é também bem elevada", afirmou o professor Clerici. Elas apresentaram concentração da proteína na saliva oito vezes acima da taxa normal.Os estudos demonstraram ainda que o excesso de quemoquina correspondia a uma produção de anticorpos multiplicada por três ou quatro vezes.A prova final veio com exames de ratos em laboratório. As cobaias foram divididas em dois grupos. Ambos foram inoculados com o vírus da Aids, mas apenas um recebeu a dose de proteína CCL 28. "Constatamos que os ratos vacinados com a quemoquina tinham muitíssimo IgA ( imunoglobulina A). Reproduzimos o fenômeno em cobaias e comprovamos que a diferença foi provocada pela presença da proteína", disse Clerici, que agora vai reproduzir a pesquisa substituindo o vírus HIV por transmissores de herpes, tricomonas e clamídia.A agenda do próximo ano já prevê o estudo em macacos, último passo antes do teste em homens. A equipe de pesquisadores ainda não sabe as razões para o aumento da produção de quemoquina pelo organismo humano."Estamos atrás desta resposta. Não sabemos se é um gene, por exemplo. Encontrar esta explicação é o nosso principal objetivo", concluiu Clerici.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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