Nilton Fukuda/ Estadão
Nilton Fukuda/ Estadão

Publicitária se queixa de dificuldade em saber sobre o pai

Segundo ela, hospital só tem dado informações pessoalmente; especialista sugere uso somente de telefone

Pedro Venceslau e Paula Reverbel, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2020 | 05h00
Atualizado 19 de abril de 2020 | 18h50

No dia 9, a publicitária Roberta Sabathé deixou Atibaia, onde mora no interior de São Paulo, e foi até a capital para buscar o pai, Raul Marcos Roberto Sabathé, de 85 anos, e levá-lo até a emergência da unidade Brigadeiro do Hospital Sancta Maggiore, da Prevent Senior. Ele passara mal durante a noite e a primeira suspeita era uma crise de pânico, mas o diagnóstico comprovou ser coronavírus. Com um histórico de um câncer de próstata, outro de rosto e quatro cirurgias, Raul Marcos foi então internado na UTI. 

“Nesse momento me disseram que eu só teria notícias se fosse lá pessoalmente”, conta a publicitária. Durante uma semana, Roberta tentou por diferentes meios obter informações sobre o pai, mas só conseguiu saber o estado dele depois de ir duas vezes pessoalmente até a unidade do Sancta Maggiore de Santa Cecília, onde Raul Marcos está internado e chegou a ser entubado na Unidade de Terapia Intensiva. 

Um dia depois de a reportagem abordar a operadora Prevent Senior, a publicitária finalmente recebeu um telefonema de um médico do Sancta Maggiore com informações sobre seu pai. Segundo especialistas médicos e em direitos do consumidor, o hospital coloca em risco os parentes dos pacientes ao obrigá-los a ir pessoalmente até o hospital. Ao entrar em contato com o pai infectado, Roberta passou a fazer parte de um grupo de risco. 

“Oferecer informação apenas pessoalmente é um eufemismo para não oferecer. A operadora tem que dar informações por todos os meios e não expor as pessoas ao risco de contaminação”, disse o diretor executivo do Procon-SP, Fernando Capez. De acordo com o infectologista Jean Gorinchteyn, do hospital Emílio Ribas, as informações sobre internados em qualquer instituição devem ser prestadas por telefone. Ele disse que os médicos têm procurado até desencorajar visitas físicas. “A gente encoraja que as pessoas não frequentem os hospitais, optamos pela não realização de visitações, até pelo risco de haver contaminação dos visitantes”, concluiu.

A Prevent é alvo de dois inquéritos do Ministério Público que investigam o atendimento a pacientes de covid-19 - um civil e um criminal. O civil, que está sob os cuidados da promotora Dora Martin Strilicherk, foi instaurado no dia 1º para apurar se as medidas tomadas pela Vigilância Sanitária e por autoridades estaduais de saúde foram adequadas para evitar riscos à propagação da doença no hospital Santa Maggiore.

Procurada pelo Estado, Strilicherk afirmou apenas que aguarda laudos e vistorias de autoridades sanitárias. “A percepção de familiares não têm base científica e não nos autoriza a tirar conclusões desprovidas de provas, mormente pelo luto das famílias. O Prevent tem na sua carteira prioritariamente idosos. Logo, sua rede deve apresentar maior letalidade pq justamente esse é o grupo de risco”, ponderou.

O inquérito criminal foi recém desarquivado pelo procurador-geral de Justiça, Gianpaolo Smanio, após decisão judicial que negou arquivamento da investigação. Em resposta a pedido de arquivamento do promotor Cassio Roberto Conserino, a juíza Gabriela Marques da Silva Bertoli, do Foro Central Criminal da Barra Funda, negou a solicitação e disse que havia “justa causa” para manter investigações contra a rede de planos de saúde para idosos.

Outro promotor será sorteado para tocar o inquérito, que apura a possibilidade de omissão na notificação de mortes por coronavírus no Santa Maggiore. Na época em que a investigação foi aberta, um advogado da rede informou que a Prevent Senior iria prestar todas as informações requisitadas pelo Ministério Público. 

Em outra frente, o Procon-SP notificou a operadora duas vezes com questionamentos sobre a proporção entre o número de leitos e o de associados. Segundo Capez, não houve resposta. O próximo passo será uma autuação. A assessoria da Prevent contradisse o Procon e afirmou que enviou os esclarecimentos solicitados. 

Procurada a se manifestar sobre o acesso a informações de pacientes, a Prevent informou que a política da empresa é de ligar ao menos diariamente a um dos telefones de parentes que constam no prontuário digital. Ao ser informada do caso concreto de Raul Marcos Roberto Sabathe, cuja filha, Roberta, passou vários dias sem receber ligações, a rede inicialmente afirmou que vinha tentando conseguir contato, sem sucesso.

Depois de informada sobre a gravação em que Roberta é orientada por uma funcionária da rede a tentar obter informações por meio de um aplicativo de celular, a rede informou: “A Prevent Senior entende a angústia de familiares de pacientes internados e está sempre à disposição para ouvir eventuais reclamações e, se for o caso, aprimorar seus procedimentos. Ontem (quinta-feira), a direção do hospital recebeu a irmã que havia reclamado, dando-lhe todo o suporte necessário”.

Uma semana depois da internação de Raul Marcos e um dia após a operadora de saúde ter sido acionada pela reportagem, um médico da Prevent telefonou para a publicitária e, segundo ela, “foi muito atencioso”. 

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