Tiago Queiroz/Estadão
Coronavac é fabricada no Instituto Butantan Tiago Queiroz/Estadão

Quais são as lições sobre o uso da Coronavac em outros países? Entenda

Alta de casos em países que usam Coronavac pode estar relacionada ao comportamento da população, dizem especialistas

Emílio Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2021 | 05h00

É uma equação que até poderia ser menos complicada, caso a falta de informações, o medo e a precipitação não fossem três das variáveis. De um lado estão as vacinas que utilizam a tecnologia de RNA mensageiro, como a da Pfizer. De outro, as que utilizam o vírus inativado, como a Coronavac. O resultado é a maior ou menor proteção contra as infecções pelo coronavírus nos países que as utilizam em larga escala. Informações recentes sobre o desdobramento da pandemia em lugares como o Chile, Bahrein, Mongólia e Israel embaralham ainda mais essa conta.   

Médicos e pesquisadores tendem a acreditar que os imunizantes feitos a partir da tecnologia de vírus inativado conferem menor proteção contra as infecções em relação às que usam RNA mensageiro. Isso, porém, nada tem a ver com o grau de proteção contra casos graves e óbitos causados pela doença, afirmam. 

No Chile, país com o melhor desempenho de vacinação na América Latina, com 55% de sua população completamente imunizada, e que utiliza a vacina da farmacêutica chinesa desde o início da imunização de sua população, recentes aumentos nos números de casos de covid-19 acenderam o alerta. Por aqui, a Coronavac foi a primeira vacina a ser utilizada no início do ano e a que foi mais aplicada nos brasileiros até abril.

O comportamento da pandemia no país andino, mesmo após a vacinação avançada, levantou dúvidas: a vacina que eles e nós utilizamos é, de fato, eficiente? Estamos protegidos após as duas doses do imunizante? Seria melhor escolher outra vacina?

Sim, sim e não.  

Todos os estudos até aqui apresentados mostram que a Coronavac, vacina produzida no Brasil pelo Instituto Butantan, é eficaz. Tomar as duas doses confere proteção de 80% contra sintomas, 86% contra internações e previne a morte em 95% dos casos. Os dados são do estudo realizado pelo Butantan para verificar os efeitos da vacinação da população em geral. Foram vacinados 27.160 mil habitantes acima de 18 anos na cidade do interior paulista.

Para o médico infectologista e professor da Unesp Alexandre Naime comparar vacinas agora é um desserviço. "É uma excelente vacina para um momento em que precisamos reduzir o número de mortos", afirma. "Agora, é como estar em um país em que se morre de fome e reclamar do arroz com feijão."

Ele lembra que a Coronavac ainda não teve os resultados da fase três de testes clínicos publicada, mas o que está por trás da desconfiança em relação às vacinas desenvolvidas na China é uma "guerra política" que mais desinforma do que ajuda as pessoas a entenderem como funciona cada uma delas. "Não cabe comparar agora. No futuro terá sim a revacinação e novas vacinas. Agora, precisamos salvar vidas", afirma.

Segundo a médica e professora da Universidade do Chile e membro da Sociedade Chilena de Infectologia, Claudia Cortés, a Coronavac tem alta eficiência em evitar os casos graves, hospitalizações e mortes, mas aparentemente não é tão eficaz para barrar a contaminação. No entanto, o comportamento da pandemia por lá é resultado direto de outro comportamento: o da população chilena.

"Houve uma volta à vida noturna, empresas exigindo que seus funcionários fossem para os escritórios e falta de fiscalização", afirma.

É a mesma avaliação da infectologista da Unicamp Raquel Stucchi. Ela diz que esse também é um risco que o Brasil corre caso abandone as medidas de afastamento social e prevenção não farmacológicas. "Eles não esperaram ter uma redução sustentada do número de casos, hospitalizações e mortes para flexibilizar", diz. 

A médica lembra que há porém algumas dúvidas ainda a serem respondidas. Uma delas é sobre a duração da imunidade em vacinados com as duas doses do imunizante. "A gente sente falta de estudos em relação às vacinas chinesas", afirma. 

De acordo com o diretor do Instituto Butantan e membro do Centro de Contingência do Coronavírus do governo do Estado de São Paulo, Dimas Covas, a proteção da vacina deve ser de cerca de oito meses. Covas afirma, porém, que ainda não há estudos que mostrem que essa população estará desprotegida após esse período. 

Raquel diz que em breve teremos um contigente populacional com mais de oito meses de imunização pela Coronavac. "Aí, se a ideia é chegar em outubro ou novembro com 80% da população vacinada, eles já não serão 80%, serão menos porque parte das pessoas já terá ultrapassado esse período", afirma. 

Se a situação no Chile causou preocupação aqui entre os brasileiros, as causas apontadas pelos especialistas para os novos surtos também deveriam provocar. O mesmo ocorreu em países como o Bahrein e a Mongólia, que também utilizam vacinas de origem chinesa em larga escala. 

No Bahrein, onde 58,8% da população já está completamente imunizada, as mortes atingiram seu maior número no dia 6 de junho. Foram 28 vítimas naquele dia, número sem paralelo para o país de 1,6 milhão de habitantes que só ultrapassou o patamar de dez mortes diárias em maio deste ano.  

Para tentar impedir a disseminação do coronavírus, o país anunciou uma série de medidas. Viajantes de países da "lista vermelha", como Índia, Paquistão e Bangladesh, foram proibidos de entrar. A quarentena foi reintroduzida para pessoas vindas de qualquer lugar e que não estivessem vacinadas.

Segundo especialistas locais, o aumento de casos foi resultado das reuniões durante o Ramadã, o mês sagrado para os muçulmanos, em que após o pôr do sol as pessoas se reúnem para comer e celebrar após passarem o dia em jejum.

Na Mongólia, onde 53% da população já foi imunizada com as duas doses, ou com a dose única, reuniões de massa e concertos musicais comemoram, em março, o 100º aniversário da agremiação política. Muitos compareceram sem máscara, líderes do partido entre eles. 

A condução da crise sanitária pelo partido, que está no poder, é considerada errática. As coordenações da Comissão Estadual de Emergências, do Ministério da Saúde, e do Centro Nacional de Doenças Infecciosas foram mudadas três vezes desde o início da pandemia.

Mas uma mostra que não apenas os países que recorreram às vacinas de origem chinesa tiveram problemas. Israel anunciou a volta de algumas restrições, como o uso de máscaras, pouco tempo após ter relaxado as medidas de contenção. O país enfrenta hoje um novo surto de doença causado pela variante Delta do coronavírus. 

De acordo com as autoridades de saúde locais, metade da população foi vacinada com o imunizante da Pfizer, que utiliza a tecnologia de RNA mensageiro, e que tem maior efetividade contra os casos de contaminação. "Sabemos pouco ainda sobre o tempo de proteção das vacinas. Mesmo a da Pfizer, que foi anunciado que causa uma imunidade celular que deve ser mais duradoura, desde que não apareçam novas variantes", diz Raquel.

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Dimas Covas descarta dose de reforço da vacina anticovid este ano e rebate Bolsonaro

Para diretor do Instituto Butantan, dose extra é discussão para depois da imunização geral, além da inclusão necessária de criança e adolescente

Entrevista com

Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan

Emílio Sant’anna, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2021 | 05h00

Uma campanha de desinformação contra a Coronavac. É assim que o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, classifica os ataques promovidos pelo presidente Jair Bolsonaro e por integrantes do governo federal contra a vacina.

Covas defende, em entrevista ao Estadão, a eficácia do imunizante e não vê nenhuma necessidade de uma dose de reforço ainda este ano. 

Semana passada, o presidente disse nas redes sociais que a Coronavac não havia dado certo. Há alguma possibilidade de a vacina Coronavac ter eficácia menor do que a apontada previamente por pesquisa clínica?

A eficácia depende do desenho do estudo clínico. Eficácias entre estudos diferentes não são comparáveis. É diferente fazer estudo clínico em profissionais de saúde e entre a população em geral. De qualquer maneira, alguns desses estudos apresentam a eficácia secundária, que é o que importa para uma vacinação, a proteção contra os casos sintomáticos. São pouquíssimas as que protegem contra a infecção. São as com efeito neutralizante.

No estudo inicial, a proteção contra casos leves foi de 83% e contra casos graves e moderados, de 100%. Recentemente fizemos estudo em Serrana, esse um estudo de eficiência, com mais de 95% da população adulta vacinada. Proteção contra sintomas: 80%; contra internação: 86%; e contra óbitos: 95%. Um desempenho excelente. Isso vem corroborando com dados de estudos de eficiência não controlados e a queda dos óbitos na população com mais de 60 anos, majoritariamente vacinada com a Coronavac.

Novos surtos podem ocorrer mesmo com altos porcentuais da população vacinada? No Chile, afirma-se que a vacina é eficaz contra casos graves, mas não tão eficaz para inibir o contágio.

No Chile, há muita especulação. Fala-se que tem um aumento acentuado de casos apesar da vacinação. Houve uma redução importantíssima dos casos, de internações, de óbitos. E a incidência tem sido principalmente na população não vacinada. Os dados do Uruguai mostram uma queda acelerada em internações e óbitos também. Esse conjunto de dados, que são robustos, atesta que a vacina tem segurança, eficácia e eficiência. 

O que leva as pessoas a tentarem escolher a vacina no posto?

O critério para aprovação das vacinas é o mesmo. Uma vez aprovada, significa que demonstrou que tem segurança e eficácia. Agora, por que o indivíduo quer a da Pfizer? Por que não quer a do Butantan e da AstraZeneca? Por que é americana? Não sei. Mas, sem dúvida, a colaboração enorme que aconteceu aqui foi a tentativa de desconstrução da vacina do Butantan feita pelas autoridades federais. Foi um movimento sistemático. As autoridades federais, principalmente relacionadas ao Poder Executivo, mas também à Saúde, em um determinado momento passaram a descredenciar a vacina. 

Acredita que isso continua?

Continua. Vez por outra, o "mandante mor" do Brasil fala alguma coisa. Obviamente há uma legião de comandados que obedecem cegamente. 

Foi noticiado recentemente que há intenção do ministério de parar de contar com a Coronavac, porque haveria alto índice de vacinados se contaminando...

O Marcelo Queiroga falou durante a CPI, e depois, que existiriam dúvidas em relação à vacina e ele poderia em um segundo momento contratar a Butanvac. Ele não falou em nenhum momento que poderia descontinuar a Coronavac. Eu questionei depois disso e ele me disse que em nenhum momento isso foi discutido. Pelo contrário, solicitaram que se adiantasse fornecimento e eventualmente se acrescentasse o adicional de 30 milhões de doses, que não respondemos porque temos compromissos com o Estado. Então, não bate com a verdade. Semana passada saíram dados do Uruguai. A Coronavac reduziu mortalidade em 97% e a Pfizer em apenas 80 %. Internações em UTI com a Pfizer caíram 95%, e com Coronavac em 99%.

O senhor acredita que a recente queda no número de casos é resultado disso e esse movimento deve continuar?

Agora vamos começar a observar isso progressivamente. Na população idosa está bem nítido. Vai começar a aparecer nos que foram vacinados depois. Isso está aparecendo num ambiente de relativa restrição. Se acontecer a abertura, como aconteceu no Chile, esses movimentos vão fazer o inverso da vacinação. Hoje, o pico da incidência está na população de 30 a 50 anos. Se você abre, volta a ter atividade normal porque está melhorando o nível de óbitos e internações, promove o aumento de casos na população que não está vacinada, como aconteceu no Chile, no Bahrein. 

Para 2022, a vacina do Instituto Butantan será a Coronavac ou já será a Butanvac?

A Butanvac será certamente uma vacina. O desenvolvimento na plataforma que produz a vacina da gripe é uma proposta extremamente interessante. Isso vai permitir generalizar essa tecnologia e baratear. Além disso, é uma vacina de segunda geração, que já tem incorporados muitos conhecimentos adquiridos. 

Para 2022 será a vacina do Butantan?

Será a segunda vacina do Instituto Butantan. Inclusive na perspectiva de ter uma vacinação única, gripe e Butanvac. Assim como a vacina da gripe precisa ser tomada todo ano, provavelmente tomaremos a vacina contra a covid-19 por um tempo. A presente dúvida é: vamos ter de tomar a vacina contra a covid por um tempo, não sabemos se depois o vírus irá desaparecer ou não. Enquanto não desaparecer, teremos de ter vacinação periódica. Na minha previsão será anual. Nos próximos dois ou três anos, certamente vamos precisar ter um reforço vacinal para a covid, um reforço que inclua as eventuais variantes que podem aparecer durante o ano.

Idoso vai precisar de reforço?

Existem estudos em andamento para saber exatamente isso. Qual a duração da resposta imune, qual será a necessidade da dose de reforço e se será anual? Tudo indica nesse momento que será anual. Não há ainda dados que indiquem que há um grande escape da população idosa da proteção. Agora, quanto tempo dura? Isso estamos estudando. Tudo indica que a duração é de cerca de oito meses. A partir disso é possível, não quer dizer que vá acontecer, que haja a necessidade de um reforço, de um "booster" vacinal. E há também estudos para saber se o "booster" pode ser com qualquer vacina.

Então é possível que ainda neste ano, ou no máximo em janeiro do ano que vem, uma vez que eles começaram a ser vacinados no início de 2021, os idosos tenham de tomar um reforço?

Não enxergo isso. Na Inglaterra já estão prevendo, estão iniciando uma programação para em outubro dar dose de reforço. Aqui o desafio ainda é vacinar a população em geral. Depois disso, aí sim vai poder pensar na dose de reforço e na população infantil e adolescente que também, necessariamente, terá de ser incluída. 

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O fato de [idosos] terem uma resposta imune menor do que os jovens não indica que estão desprotegidos
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Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan

Com os atrasos da aquisição de vacinas pelo governo federal, é possível que a população idosa fique desprotegida pelo menos por um período?

Nada indica isso neste momento. Todos os dados indicam que essa população está protegida. O fato de ter uma resposta imune menor do que os jovens não indica que estão desprotegidos. O nível de anticorpos talvez seja o pior dos indicadores. Esses testes que estão disponíveis foram licenciados pela própria Anvisa para testar os indivíduos em relação à infecção não em relação à resposta vacinal. O que vai ser importante são exatamente os estudos de eficiência na medida que a vacinação progride. Tudo indica que essa população está adequadamente protegida, tanto é que diminuíram acentuadamente os óbitos e as internações. 

Como tem acompanhado as notícias sobre possíveis desvios éticos na compra de vacinas pelo governo federal? Qual efeito disso e dos atrasos da vacinação?

O estudo da Federal do Rio Grande do Sul mostra que, se a vacinação tivesse começado um mês antes, teríamos salvo 46 mil vidas. Até o fim do ano passado a vacina era secundária, não era prioritária para o governo federal. A vacina de repente passou a ser prioritária quando a Economia disse que o melhor plano era vacinar a população. Demorou para chegar a essa conclusão. A (vacina) do Butantan não foi relegada a segundo plano, foi relegada a terceiro plano. Poderia ter sido a primeira a ser adquirida. Foi uma das últimas a ser contratada, só em janeiro, e mesmo assim foi a que iniciou o programa de vacinação.

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