Amanda Perobelli/ Reuters
Brasil precisa de insumos para fabricar mais doses da Coronavac Amanda Perobelli/ Reuters

Qual a dificuldade do Brasil para importar insumos e vacinas contra a covid?

Para especialistas ouvidos pelo Estadão, País está isolado diplomaticamente

João Prata, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2021 | 16h52

A dificuldade que o Brasil está tendo para garantir os insumos e vacinas contra covid-19 tem relação direta com a falta de um plano nacional para tentar conter a pandemia e também com uma política externa que dialoga por ideologia. Segundo analistas ouvidos pelo Estadão, é uma prova de como o País estaria isolado diplomaticamente - a antítese de uma nação que nos anos 90 liderou uma grande aliança de países em desenvolvimento e conseguiu montar uma coalizão em defesa da quebra de patente dos medicamentos da Aids.

"Perdemos diálogo em todos os fóruns. O Brasil está em uma posição isolada pela visão ideológica de política externa que passou a ter com o atual chanceler. No meio ambiente, afastou-se da Europa. A postura antiChina nos afastou da China e, indiretamente, da Rússia. A América Latina inteira, praticamente, se afastou. A postura ideológica de colocar todos os ovos na única cesta chamada governo Trump acabou limitando os apoios e parcerias que poderíamos ter neste momento de crise", destacou Gunther Rudzit, professor de relações internacionais na ESPM, e doutor em ciência política pela USP, com tema na área de segurança internacional.

Embora a Índia tenha confirmado que começará a enviar as doses da vacina de Oxford ao Brasil nesta sexta-feira, 22, a sinalização anterior de que a entrega poderia ser postergada rendeu inúmeras críticas aos esforços diplomáticos do governo federal. De acordo com Fausto Godoy, diplomata brasileiro que foi cônsul em Mumbai, seria natural a Índia atender primeiramente à sua própria demanda e de países da sua região. 

O indiano Umesh Mukhi, professor da FGV, afirma que a relação diplomática entre os dois países é excelente. "Não há nenhum problema nessa negociação. Existe um prazo e a entrega será feita dentro desse prazo. A Índia tem uma demanda mundial para entrega. Não tem nenhuma falha na negociação. O que aconteceu foi que o Brasil teve uma crise doméstica e precipitou autoridades para agilizar o processo", opinou.

Para ele, houve uma falha de comunicação por parte do Brasil, que decidiu enviar um avião para buscar os insumos sem consultar os indianos antes. Na visão de Mukhi, o País deveria priorizar investimento em seus laboratórios, como os da Fiocruz e do Instituto Butantan para ser mais autossuficiente. "Considerando que já existe aqui grandes instituições, o mais correto seria dobrar essa capacidade interna e reduzir dependência externa. Estimular parcerias e reduzir dependências."

Represamento chinês, problema que persiste

A questão do represamento chinês de insumos para a vacina contra a covid-19 ainda preocupa, apesar da promessa do embaixador da China nesta quinta-feira, 21, em fazer 'máximos esforços' para atender às demandas brasileiras. Essa demora na liberação de matéria-prima estaria associada a declarações do presidente Jair Bolsonaro e de seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, a respeito do país. 

"O governo chinês tem atualmente tremenda má vontade em relação ao Brasil. A China se recuperou do que passou, mas eles têm um conceito de honra muito importante, é um dos pilares de sua cultura. O governo brasileiro cutucou a honra desse país e isso não vai sair de graça", destacou Godoy.

Em novembro do ano passado, a diplomacia chinesa emitiu por duas vezes comunicado criticando o deputado federal Eduardo Bolsonaro, presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara, por causa de militância virtual. Os chineses disseram que o parlamentar "solapou" a relação amistosa entre os países com declarações "infames", e que o Brasil poderia "arcar com consequências negativas".

Eduardo disse nas redes sociais que a China praticava espionagem por meio de sua rede de tecnologia 5G. O ataque era uma forma de demonstrar apoio a uma ação do governo de Donald Trump. Anteriormente, Eduardo chegou a culpar a China e o Partido Comunista Chinês pela pandemia da covid-19. Na ocasião, o embaixador Yang Wanming reagiu na rede social e disse que o deputado estava infectado por um “vírus mental”.

"A embaixada chinesa reagiu de maneira contundente para os padrões chineses. Sei por experiência própria que nenhum diplomata se manifesta daquela maneira sem autorização do governo e principais autoridades do país. Desde então, existe essa má vontade com relação ao governo atual", acrescentou Godoy.

A saída, segundo Rudzit, seria o presidente Jair Bolsonaro solicitar uma reunião com o embaixador chinês. "Seria um gesto de reconciliação. Na visão chinesa, o Brasil estaria se curvando, admitindo o erro. No cumprimento oriental, quem inclina mais para frente presta mais respeito, reconhece o outro em situação hierárquica superior. Em linguagem diplomática, depois de tudo que fez, falou, uma reunião com uma foto no final apertando as mãos seria sinal de respeito. Para receber logo insumos. É preciso que o Brasil mude de atitude radicalmente com a China. Seria o mais barato para o presidente Bolsonaro."

Godoy acredita que o governo de São Paulo poderia intermediar a importação de insumos com os chineses, já que, naquela crise diplomática, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB) foi tratar com a Sinovac e garantiu a remessa para o Estado. "O governo chinês sempre honrou com suas parcerias estratégicas. Existe uma relação do governo chinês com São Paulo e outra com o Brasil. Não digo que a China vai boicotar o Brasil, porque iriam contra humanidade. Mas vão priorizar quem tem boa relação com eles inicialmente. São Paulo não é Brasil e, quem sabe, pode conseguir melhorar essa relação."

Segundo o Itamaraty, o governo "permanece, igualmente, em contato com as autoridades chinesas e com a empresa responsável pelo fornecimento dos insumos para identificar a melhor maneira de resolver a questão".

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'Problema é crise de liderança sistêmica, visionária', diz professor da FGV

Umesh Mukhi disse que a falta de planejamento do governo federal brasileiro estimulou uma crise, que agora exige resposta urgente

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

21 de janeiro de 2021 | 17h00

O problema da falta de insumos importados para a fabricação das vacinas para a covid-19 não é resultado de complicações burocráticas na liberação do produto, mas sim da crise de liderança sistêmica, visionária, existente no Brasil e da falta de foco do governo federal. A opinião é do professor do Departamento de Administração da FGV-EAESP, Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas, Umesh Mukhi, em entrevista ao Estadão. Veja abaixo:

Professor Umesh Mukhi, o senhor é um especialista em Gestão Internacional, pela FGV. O que acontece nesta questão dos insumos para a vacina?

Umesh Mukhi. É a falta de planejamento do governo central aqui no Brasil que estimulou uma crise, que agora está exigindo uma resposta urgente. Mas não se pode esperar que os outros países vão responder a isso de maneira urgente porque eles também estão lidando com crise deles.

Há problemas com a burocracia no processo da importação?

Não é isso. As empresas fazem contratos e cumprem esses contratos. Por exemplo: a importação emergencial de arroz feita pelo Brasil. Nós tivemos problema de arroz aqui no Brasil. Importamos da Índia, normalmente. Também não vejo que seja problema diplomático e nem que esteja havendo atraso. 

Então, o que houve?

O que houve no Brasil foi negligência, falta de planejamento do Brasil. Essa falha de liderança não promove sustentabilidade e não valoriza segurança pública e estimulou uma crise, que agora está exigindo uma resposta urgente. Se você falar que há uma crise e precisa que a vacina chegue aqui dentro de uma semana, isso não é normal, é fora de prazo. Uma situação urgente exige que você ultrapasse a burocracia, por isso que o presidente escreveu uma carta. Mas, em geral, não vejo que a burocracia vai atrapalhar. Ela existe por segurança pública, principalmente no setor da saúde. O problema principal nesta questão é que há uma crise interna do Brasil.

Já há uma relação mais antiga, como ocorreu em medicamentos para febre amarela, por exemplo, não é?

Sim. É comum essa importação dos insumos. Naqueles casos, como febre amarela, zika, havia um direcionamento, um plano. No caso da covid-19, a falta de uma resposta coordenada está atrapalhando. Você vê que tem o presidente da Câmara indo na embaixada da China. Isso é fora do normal. Tem o governo de São Paulo também e agora tem o presidente da República querendo falar com o presidente chinês. Há uma falta de foco. Mas o problema não é das instituições que produzem a vacina, como a Fiocruz e o Instituto Butantan. Isso vem da liderança do governo central, de quem está ocupando o cargo, e qual é a visão dessa liderança no processo. Nós estamos testemunhando que o País trocou três vezes de liderança no Ministério da Saúde. Isso atrapalha a visão sistêmica se quer vacinar o País inteiro. É preciso ter uma liderança sistemática e sustentável que vá além da ideologia e vá agir por todos os brasileiros. Isso é extremamente importante no processo.

Professor, o senhor é indiano. Como compararia com o que ocorre na Índia?

Se você quer comparar com a Índia, que começou a imunizar a população a partir do dia 16, verá que o processo foi liderado pelo primeiro-ministro. Ele foi quem lançou a campanha, com 3 mil centros de imunização, estimulando as pessoas. Essa é uma diferença em relação ao Brasil. O papel da liderança é muito importante se você quer vacinar a população.

Outros países já estão mais avançados.

Os Estados Unidos estão vacinando; a China, está vacinando; a Índia, está vacinando, porque são países que desenvolveram capacidades para lidar com contingência. A Fiocruz e Butantan têm altíssima capacidade de produzir a vacina. Mas acho que a crise é da falta de liderança, que deixou as instituições com um problema. Mas, veja, é preciso também ressaltar que o Brasil e a Índia têm uma relação excelente. Hoje mesmo você pode ver que a Índia já liberou vacina. Isso mostra a confiança na parceria estratégica. E vamos ter ainda outras parcerias entre setores farmacêuticos para importar outra vacina, que se chama Bharat Biotech.

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Índia libera exportação da vacina de Oxford para Brasil; envio começará amanhã

Governo brasileiro aguarda recebimento de 2 milhões de doses de imunizante contra a covid-19 adquiridas pela Fiocruz

Felipe Frazão, Reuters

21 de janeiro de 2021 | 14h10
Atualizado 21 de janeiro de 2021 | 20h03

NOVA DÉLHI E BRASÍLIA - O governo da Índia liberou a exportação comercial de vacinas contra a covid-19. As primeiras remessas de doses serão enviadas para o Brasil e Marrocos nesta sexta-feira, 22, segundo declaração do secretário de Relações Exteriores do País à agência Reuters. O embaixador da India em Brasília, Suresh Reddy, confirmou ao Estadão que serão enviadas no total  as 2 milhões de doses do imunizante da Universidade de Oxford com a farmacêutica AstraZeneca. "Sim, as vacinas estão chegando como prometido", disse Suresh Reddy ao Estadão.

As doses foram fabricadas no Instituto Serum da Índia, o maior produtor de vacinas do mundo e que recebe pedidos de diversos continentes. A remessa era esperada para a última sexta-feira, dia 17, e atrasou uma semana. O governo da Índia tem usado o fornecimento de vacinas de forma diplomática, para reforçar sua presença na Ásia, e a relação com países vizinhos que foram priorizados e já começaram a receber as remessas. Além das doses em si, a Índia dá ao Brasil um treinamento em administração da vacina.

Segundo o embaixador indiano, o cronograma de entrega foi acordado com o Itamaraty, e as doses devem chegar em breve ao País. “Valorizamos nossa parceria com o Brasil e naturalmente esse pedido foi priorizado”, disse o embaixador. O Brasil foi um dos primeiros países a receberem o aval de exportação, atrás apenas de países asiáticos, africanos e do Oriente Médio, sobre os quais a Índia deseja ampliar sua influência. Por isso, diplomatas do primeiro escalão da Índia têm viajado para fazer a entrega dos lotes pessoalmente. 

Outros beneficiados são Bangladesh, Butão, Maldivas, Mongólia, Mianmar, Nepal, Bahrein, Ilhas Maurício, Marrocos, Omã, Ilhas Seychelles e Sri Lanka. Parte desses países em desenvolvimento recebeu as doses da vacina como doação, em uma ofensiva do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi.

“Como nação responsável, a Índia garantiu que sua capacidade de produção de vacinas seria disponibilizada para benefício de todos. Esta é uma crise compartilhada e de fato enfrentada pela humanidade”, afirmou o embaixador Reddy.

Em nota, o Ministério da Saúde confirmou que as doses devem chegar nesta sexta-feira, no fim da tarde. "A carga vinda da Índia será transportada em voo comercial da companhia Emirates ao aeroporto de Guarulhos e, após os trâmites alfandegários, seguirá em aeronave da Azul para o aeroporto internacional Tom Jobim, no Rio de janeiro", informou. O presidente Jair Bolsonaro utilizou as redes sociais para informar o acordo e agradeceu ao chanceler Ernesto Araújo e ao Itamaraty pelo feito.

Bolsonaro participa agora à noite de uma live junto com Araújo. Mais cedo, o minstro, que foi excluído ontem das negociações, disse que "a Índia colocou o Brasil na mais alta prioridade".  "Muito obrigado, presidente @jairbolsonaro. O governo da Índia colocou o Brasil na mais alta prioridade: somos um dos dois primeiros países a receber vacinas contra Covid compradas na Índia (ontem a Índia fez doação a 2 países)", escreveu Ernesto Araújo. O ministro também agradeceu "em especial" o ministro de Relações Exteriores indiano, Subrahmanyam Jaishankar.

O governo indiano havia suspendido a exportação de doses até iniciar a campanha de imunização dentro do país, o que ocorreu no último fim de semana. Logo depois, ele enviou vacinas para países vizinhos, como Butão, Maldivas, Bangladesh, Nepal, Mianmar e o arquipélago de Seicheles.

O secretário de Relações Exteriores do País, Harsh Vardhan Shringla, afirmou que a distribuição comercial do imunizante começará a partir desta sexta-feira, de acordo com o compromisso do primeiro-ministro do País, Narendra Modi, de que a capacidade de produção indiana serviria à toda humanidade para combater a pandemia.

“Eu sigo com essa visão. Nós respondemos positivamente aos pedidos por fornecimento de vacinas feitas na Índia de países de todo o mundo, começando pelos nossos vizinhos”, disse à Reuters. “O fornecimento de quantidades comercialmente contratadas  começará a partir de amanhã, começando pelo Brasil e Marrocos, que serão seguidos pela África do Sul e a Arábia Saudita.”

O governo brasileiro aguarda o envio de 2 milhões de doses de vacinas adquiridas pela Fiocruz. Na semana passada, um avião chegou a ser enviado para buscar o material, mas parou em Recife antes de cruzar o Atlântico, diante da falta de confirmação por parte do governo indiano que o produto seria fornecido.

Pelo Twitter, Filipe Martins, assessor especial para assuntos internacionais do do governo, culpou a divulgação feita pela imprensa pela demora do envio das vacinas da Índia ao Brasil. "Devido à ótima relação que construímos com a Índia, nossas tratativas haviam sido bem-sucedidas e estava tudo certo para o envio das vacinas, marcado para o início da semana (17/1), até que a informação vazou para a imprensa, causando desconforto na Índia e o atraso do envio", escreveu.

O Brasil também espera o envio de insumos da China para produzir a vacina no País, que está atrasado. Segundo a embaixa chinesa, serão feitos os"máximos esforços" para conseguir avanços no envio "sob a premissa de garantir saúde e segurança". A matéria-prima é necessária para a produção das vacinas da Fiocruz e do Instituto Butantan

Com o atraso, a Fiocruz adiou de fevereiro para março a previsão de entrega das primeiras doses da vacina Oxford/AstraZeneca que serão produzidas no Brasil. A mudança deve dificultar ainda mais a execução do plano nacional de imunização contra a covid-19, que já sofre com incertezas quanto à importação dos insumos para a produção da Coronavac.

Na quarta-feira, o Butantan afirmou ter praticamente esgotado a quantidade de insumos para fabricar a vacina Coronavac no Brasil. O órgão ligado ao governo paulista distribuiu o 1º lote, com seis milhões de doses, para começar a imunização no País. Além disso, tem condições de entregar mais 4,8 milhões de unidades. Depois, depende da matéria-prima chinesa para garantir novas remessas.

Bolsonaro comemora liberação de vacina nas redes sociais

O presidente Jair Bolsonaro comemorou nas redes sociais a nova previsão de entrega da vacina de Oxford/AstraZeneca. Em sua página no Facebook, reproduziu o trecho de uma notícia da agência Reuters com a previsão de envio dos imunizante. Na publicação, ele fez ainda elogios ao trabalho do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e à equipe do Itamaraty.  

"Meus cumprimentos ao ministro Ernesto Araújo e servidores do Itamaraty pelo trabalho realizado", escreveu Bolsonaro. Apesar do elogio ao chanceler, conforme o Estadão mostrou, Ernesto Araújo foi excluído das negociações com a China para a compra de vacinas e insumos contra a covid-19. Mais cedo, o ministro das Comunicações, Fábio Faria, também havia compartilhado no Twitter a notícia com a hashtag "AcrediteNoBrasil".

A notícia da entrega dos imunizantes traz alívio para o governo que está sob pressão com a perspectiva de paralisação da campanha de vacinação, iniciada no último domingo, 17. A falta de matéria-prima para a produção dos imunizantes no País compromete a imunização.

O governo trata com delicadeza a entrega das vacinas vindas da Índia. Mais cedo, a Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom) divulgou nota oficial sobre o incêndio que atingiu o Instituto Serum, que produz a vacina contra a covid-19. O órgão informou que "não houve prejuízo na produção das vacinas e nem no estoque"./COLABOROU EMILLY BEHNKE

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Análise: Por que a Índia vai doar doses de vacinas para seus vizinhos antes de vender para o Brasil

O que a Índia pratica é algo que o presidente Bolsonaro e seu ministro das Relações Exteriores não deixam que seus excelentes funcionários do Itamaraty façam: diplomacia profissional em nome dos interesses nacionais e estratégicos

Florência Costa*, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2021 | 06h14

Pode parecer estranho para o olhar brasileiro que a Índia tenha ignorado os apelos do Brasil (um grande ator emergente e parceiro em grupos como Brics) e priorizado países como o pequeno reino budista do Butão, as Ilhas Seychelles e Bangladesh, que receberão como doação, as primeiras vacinas contra a covid-19 a partir desta quarta-feira, 20. Mas o que a Índia pratica é algo que o presidente Jair Bolsonaro e seu ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, não deixam que seus excelentes funcionários do Itamaraty façam: diplomacia profissional em nome dos interesses nacionais e estratégicos. 

Um bom exemplo disso é que o primeiro ministro Narendra Modi – um governante de direita, que mantinha boas relações com Donald Trump – ligou para Joe Biden imediatamente ao saber de sua vitória, em novembro. Modi também nunca desprezou as instituições multilaterais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Ilhas Maldivas, Nepal, Mianmar, Sri Lanka, Ilhas Maurício e Afeganistão são outros países que ocupam os primeiros lugares na fila para receberem as vacinas – total de 20 milhões de doses, boa parte como doação, como “gesto de boa vontade”. Nessa corrida desesperada pelas vacinas, até mesmo o rival Paquistão demonstrou interesse pelas doses indianas. 

Hoje, a Índia é uma liderança regional asiática com muito deveres para com seus vizinhos e tem a China, sua rival, no cangote. O país não vai correr o risco de perder a imagem e posição de líder paternal em sua área. Além disso, a Índia encara sérios conflitos territoriais com o Paquistão e com a China, com quem já travou uma guerra relâmpago em 1962. No ano passado, conflitos com a China na região do Himalaia resultaram em 20 soldados indianos mortos. 

Assim, as fotos de Modi dando de presente a vacina para os chefes de Estado desses países pobres não têm preço para Nova Délhi. Importante ressaltar, antes de tudo, a premência da Índia em assegurar 300 milhões de doses para a sua própria população (de 1.3 bilhão de habitantes) até agosto: será o maior programa de imunização do mundo, que começou em 16 de janeiro. 

Historicamente, a Índia tem um papel de provedor e fornecedor de infraestrutura para os vizinhos Butão, Nepal, Mianmar e Bangladesh. É até questão de segurança sanitária para a Índia ofertar vacinas para eles. Bangladesh, inclusive, é fundamental para a segurança nacional da Índia. 

Maldivas, Seychelles e Maurício estão no Oceano Índico, uma das mais movimentadas e estratégicas rotas comerciais marítimas do mundo. O Sri Lanka também é crucial para Nova Délhi. Tem recebido muita ajuda da China e a situação interna sempre exerceu muita influência na política dos estados do Sul da Índia. No caso do Afeganistão, a Índia tem relação muito estratégica de ajuda civil na reconstrução do país para contrabalançar o Paquistão e a China. 

O diplomatas indianos jogam um complicado xadrez geopolítico, com a potência China como a peça fundamental. Xi Jinping tem investido muito em infraestrutura nessas regiões fronteiriças à Índia, trabalhando uma imagem positiva. Pela crença indiana, as ações (karma) boas e ruins terão implicações positivas ou negativas. Essa é uma grande lição asiática para o Brasil do Bolsonaro.

*É JORNALISTA E AUTORA DO LIVRO OS INDIANOS (EDITORA CONTEXTO)

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