Lindsey Wasson / Reuters
Lindsey Wasson / Reuters

Qual é a capacidade de idosos tomarem decisões sobre cuidados e finanças? Ferramenta busca resposta

Dependendo da complexidade do problema, até mesmo pessoas com deficiência cognitiva diagnosticada ainda podem ter compreensão suficiente para encontrar soluções

Paula Span, The New Yok Times

13 de maio de 2022 | 05h00

Durante uma recente teleconferência por Zoom, quatro funcionários dos Serviços de Proteção a Adultos da Califórnia, usando uma ferramenta chamada Entrevista para Habilidades de Decisão, ou IDA, na sigla em inglês, tentavam descobrir se estava acontecendo algo suspeito com uma mulher de 82 anos que eles conheciam como Sra. K.

As agências de Serviços de Proteção a Adultos (APS, na sigla em inglês) de todos os estados recebem denúncias de possível negligência, autonegligência, abuso ou exploração de idosos e outros adultos vulneráveis. Mas seus funcionários sempre enfrentam uma pergunta inquietante: a pessoa em questão tem capacidade de tomar uma decisão sobre seus cuidados médicos, condições de vida ou finanças – mesmo que não seja a decisão que a família, o médico ou o consultor financeiro acham que deve ser tomada?

A IDA foi desenvolvida por dois geriatras para ajudar a treinar os funcionários dos APS a lidar com esse problema. O programa os ajuda a aprender a usar um procedimento de entrevista estruturada para coletar informações sobre a capacidade de tomada de decisão de determinado cliente. As duas dúzias de funcionários da Califórnia que fizeram o curso já haviam completado dez horas de instrução individual online; agora estavam pondo em prática suas novas habilidades de entrevista em pequenos grupos, interpretando papéis com facilitadores.

A Sra. K, uma personagem fictícia, estava sendo interpretada por Bess White, administradora de projetos especiais da Weill Cornell Medicine. No cenário, um gerente de banco havia relatado algumas suspeitas: a Sra. K tinha US$ 60.000 em uma conta poupança, mas seus saques haviam aumentado acentuadamente, de US$ 600 por mês para US$ 600 por semana. Um homem mais jovem – seu sobrinho, disse ela – começara a acompanhá-la ao banco, onde um caixa achou que o homem parecia controlador e intimidador. Um investigador que visitou a Sra. K em casa descobriu que seu único cartão de crédito havia expirado e que ela tinha pouco dinheiro vivo.

Mas a Sra. K negou ter sido explorada financeiramente: seu sobrinho morava com ela, ajudava nas tarefas domésticas e a levava a consultas médicas. Ele usava os saques bancários para fazer compras para a casa.

No exercício, um dos estagiários do APS concluiu que a Sra. K compreendia o conceito básico de exploração financeira. A Sra. K tinha ouvido falar de golpes no noticiário, ela disse. E, sim, ela entendia que um amigo ou parente também podiam tirar vantagem.

Então o entrevistador continuou: “O que a senhora acha que poderia acontecer se alguém pegasse o dinheiro de outra pessoa sem permissão?”

White, no papel de Sra. K, respondeu: “Acho que a pessoa pode pegar dinheiro até não sobrar nada”. Mas, quando o entrevistador foi mais longe para ver se a Sra. K entendia que ela mesma poderia estar enfrentando esse risco, ela hesitou. Ela confiava no sobrinho, disse a Sra. K. E não queria brigar com ele.

A IDA foi desenvolvida pelo Dr. Mark Lachs, codiretor de geriatria e medicina paliativa da Weill Cornell Medicine, e seus colegas, e pelo Dr. Jason Karlawish, geriatra e codiretor do Penn Memory Center. “As pessoas têm o direito de tomar decisões ruins”, disse Lachs. Mas, acrescentou ele, os tomadores de decisão devem ser capazes de entender os riscos que enfrentam e as possíveis consequências.

“Como alguém de 90 anos de idade entra numa corretora e diz: ‘Tenho letras do Tesouro há 50 anos, mas agora quero colocar meus últimos US$ 200.000 em Bitcoin’ – e ninguém desconfia?”, disse Lachs. “Vamos olhar para trás e dizer: ‘O que estávamos pensando?’”.

Juntamente com a aplicação da IDA em casos de negligência ou abuso financeiro, os funcionários do APS da Califórnia a usavam para avaliar uma série de problemas, como autonegligência, questões de saúde e segurança, recusa de cuidados físicos ou tratamento médico e problemas físicos, psicológicos ou abuso sexual.

“A ferramenta não se destina a substituir um psiquiatra, mas informa quando é necessário entrar em contato com um psiquiatra”, disse Lachs. Os clientes cujas entrevistas com a IDA revelam incapacidade de compreender riscos ou consequências devem receber uma avaliação profissional completa, acrescentou ele.

Até o momento, cerca de 500 trabalhadores de APS – na cidade de Nova York, Massachusetts e duas regiões da Califórnia – fizeram o curso e receberam a certificação. Funcionários do APS do Kansas passarão por treinamento neste verão.

Mas Lachs e Karlawish acham que a IDA pode ter usos mais amplos. Advogados de testamento e empresas financeiras já estão se interessando pela ferramenta.

Planejadores de alta hospitalar podem usar a IDA para avaliar se determinado paciente tem a capacidade de insistir em ir para casa em vez de ir para a reabilitação. Uma cadeia de instituições de assistência médica entrou em contato com Lachs, perguntando se a IDA poderia ajudar a garantir que os novos moradores entendessem os complicados contratos que estavam assinando.

A entrevista da IDA tenta responder a três perguntas fundamentais sobre um problema ou risco em particular, disse Karlawish: “Você percebe que isso pode acontecer? Você acha que isso pode estar acontecendo com você? Você pode apresentar um plano para resolver o problema, raciocinando e pesando as vantagens e desvantagens?”

Dependendo da complexidade do problema, as pessoas com deficiência cognitiva diagnosticada ou mesmo demência ainda podem ter compreensão suficiente para lidar com ele.

Alguém que demonstre essa compreensão durante a entrevista da IDA provavelmente tem a capacidade de tomar uma decisão – incluindo a decisão de não resolver o problema. Alguém sem esse entendimento precisa de uma avaliação mais abrangente, talvez consultas com familiares ou agências de serviço social. Em casos extremos, até mesmo uma eventual tutela.

Problemas com finanças muitas vezes servem como um alerta de incapacidade, disse Daniel Marson, neuropsicólogo da Universidade do Alabama em Birmingham, que estuda o assunto há 25 anos.

“A capacidade financeira provavelmente é a primeira capacidade funcional de ordem superior a ser afetada por distúrbios neurodegenerativos e pelo envelhecimento normal”, disse ele. Usar dinheiro com proficiência requer um pensamento complexo, desde “algo básico, como usar um caixa eletrônico, até coisas mais complicadas, como lidar com a ligação de um operador de telemarketing”. As consequências da diminuição da capacidade financeira – condições de vida inseguras, empobrecimento, falta de moradia, internação — podem ser devastadoras.

Embora a incidência de demência esteja diminuindo nos Estados Unidos e na Europa, o envelhecimento dessas populações significa que mais indivíduos a desenvolverão.

Além disso, em um estudo de seis anos, Marson e colegas descobriram que idosos que receberam diagnósticos de comprometimento cognitivo leve – muitas vezes uma condição precursora da demência – também estavam enfrentando cada vez mais dificuldades. “Houve diminuição das habilidades financeiras ao longo do tempo”, disse ele.

Outras instituições também tentaram abordar a questão da diminuição da capacidade de decisão. A Ordem dos Advogados Americana atualizou no ano passado sua “Avaliação de Idosos com Capacidades Reduzidas: um manual para advogados”. A Ordem dos Advogados e a Associação Americana de Psicologia também publicaram manuais para juízes e psicólogos.

A Autoridade Reguladora do Setor Financeiro, ou FINRA, lançou cursos online sobre exploração financeira de idosos e outros investidores vulneráveis. Suas regras permitem que uma firma-membro suspenda temporariamente transações e saques quando acredita haver exploração. E também permite que as firmas-membro peçam aos investidores uma “pessoa de contato confiável” para consultar em caso de suspeita de exploração.

O programa IDA por enquanto está se concentrando nos funcionários de APS porque “as agências estão com falta de pessoal, recursos insuficientes e dificuldades”, disse Karlawish. As agências de APS da Califórnia lidam com cerca de 30 mil casos envolvendo idosos a cada mês, de acordo com dados estaduais, e “são obrigadas a tomar decisões com as quais mesmo o presidente de um departamento de psiquiatria pode ter dificuldade”, disse Lachs.

Na sessão de treinamento por Zoom, a equipe da Califórnia, perguntando gentilmente a White – no papel da Sra. K – como ela poderia responder às suspeitas do gerente do banco, acabou concluindo que ela não precisava de uma avaliação profissional. Parecia compreender suas opções.

Dar ao sobrinho acesso à sua conta poupança pode não ter sido a decisão mais sábia. Mas a decisão era dela. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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